quarta-feira, 15 de novembro de 2023

O LEGADO DO MOVIMENTO ARTÍSTICO EFERVESCENTE


         Há quase uma década atrás, gerou-se um movimento artístico e cultural no concelho de Cantanhede denominado coletivo Efervescente, formado por pessoas ligadas a várias artes e ofícios nascidos e/ou residentes no nosso concelho que queriam cruzar conhecimentos e criar produtos artísticos originais aqui e com recursos de cá.


Os seus elementos quiseram contrariar a lógica de ter de ir lá para fora para se poder assistir e/ou criar espetáculos diferentes e que, paradoxalmente, só mais tarde já consagrados, são (quando o são) recebidos por regiões como a nossa. A visão foi (e continua a ser) poder “gerar e depois exportar” a arte criada no nosso concelho, ligando tradição e inovação de forma genuína, arrojada e diferenciadora e, assim, acrescentar referências a Cantanhede no mapa.


Sem ter oficialmente sido formalizada como agência, produtora, programadora ou associação cultural, sempre devolveu atividades nesse âmbito, como programação artística e produção técnica em inúmeros eventos e edições como a passagem de ano na Praia da Tocha, o Festival Rock Of, Festa d´Anaia, Olhos Music Fest, Magnólia Efervescente, Festas Fulminantes no CCRPena, Pedreira Efervescente, entre outros. Mais do que fazer, interessava a forma como se queria fazer, dando prioridade à promoção do valor artístico de bandas de originais emergentes da região como Senhor Doutor, Dalla Marta, Salvador d´Alice, Eduardo Martins, Gypos, de DJ´s talentosos que cá vivem como Sylvain Barreto, DI Vision ou Le Cirque du Freak e de artistas visuais como Patarra, Vanessa Rodrigues e Cató Ilude.


Também a coragem de deixar de lado opções mais óbvias como bandas de baile ou de covers, apostando sim na multiculturalidade musical, como o exemplo do folk guineense dos Maio Coope Djumbai Djazz, a eletrónica nacional de Ghost Hunt, o punk conimbricense de Victor Torpedo, o rock das Black Wizards, a música africana de Celeste Mariposa entre muitos outros. Lisboa, Porto, Coimbra, Gouveia, entre outros destinos no nosso país também não tardaram a receber iniciativas dirigidas por elementos deste movimento que não teve receio de arriscar para construir prestígio com personalidade própria.


Hoje em dia, é muito importante esclarecer que projetos culturais como a Lúcia-Lima Associação Cultural em Cadima, a Festa d´Anaia na Pena, Catraia na Praia da Tocha, os filmes e cine-concertos das “4ª Clássicas” em Cantanhede, em parte o desenvolvimento do próprio CineClub Bairrada, entre outros têm, de uma forma ou de outra, essa origem e inspiração comum que continua a dar frutos: sim, a Efervescente!


Foi também por aqui que surgiu o projeto “Cabra Cor de Rosa”, cujo conceito passa pela ligação entre música, sonoplastia, poesia, entre outros ambientes sonoros como companhia para cinema, vídeo, fotografia, pintura, entre outras formas de expressão. A sua obra mais ambiciosa, a longa-metragem “Epopeia Gandareza”, que tem sido alvo de algum reconhecimento nacional e internacional, também nasce precisamente neste processo e neste contexto. Não é portanto um evento isolado, é também ela uma expressão das artes deste movimento.


Ora, tal como as pinturas de Picasso foram apenas uma das representações do movimento artístico do Cubismo, os filmes de Fritz Lang foram só uma das formas do Expressionismo Alemão, a carismática banda “Ena Pá 2000” foi meramente uma das expressões do movimento artístico português conhecido como Homeoestética ou o cinema do Von Trier foi somente um dos produtos artísticos resultantes do movimento “Dogma 95”, também os bons exemplos de projetos culturais que surgiram nos tempos mais recentes no concelho de Cantanhede que atrás referimos são, nesta perspetiva, “filhos” do Movimento Artístico Efervescente.


E o que é afinal um movimento artístico? Trata-se de uma tendência ou estilo em arte com uma filosofia ou objetivo base comum, seguido por um grupo de artistas, partir de determinada altura e durante um determinado período de tempo (meses, anos ou décadas) e, em alguns casos, descrito por um manifesto, concretizado na forma de documento. Foi o caso da “Efervescente” cujo documento escrito chegou até a ser lido ou declamado publicamente na Praia da Tocha, no mítico Piolho, assim reza a lenda…


A poetisa Natália Correia dizia que o melhor que o 25 de Abril trouxe foi a possibilidade das pessoas se organizarem e é claro que também este movimento artístico teve uma componente social / coletiva transversal. Teve práticas, linguagens, códigos e símbolos próprios, sejam conscientes ou inconscientes, feitos por… pessoas. Essas caras têm rosto e correndo o inevitável risco de esquecer alguém (por isso peço desculpa antecipadamente) julgo ser importante reconhecer quem esteve lá e participou ativamente num processo que teve o seu toque de ideologia utópica, mas também de concretização pragmática.


Pessoas como Johnny Gil, Luís Cebola, Hugo Guerra, Vanessa Rodrigues, Diogo Marques, David Breda Silva, eu próprio, Sérgio Costa, João Toscano, Vasco Faim, Vasco Carvalho, Cató, Eduardo Martins, João de Matos, Pilú, João Costa, Francisco Faria entre outros.


A valorização do legado do Coletivo Efervescente por parte da nossa região é devida e merecida. O presente e o futuro são o passo seguinte.


A aposta neste potencial de experiência e inovação para um nível mais elevado de exposição e responsabilidade, no desenvolvimento de caminhos culturais, artísticos e sociais, é o passo seguinte. Esperemos que seja aproveitado, a nossa “prata da casa” merece.


       “Andamento!”


terça-feira, 29 de dezembro de 2020

A CULTURA DO MONO-TALENTO


         Costuma ouvir-se que todos temos jeito para alguma coisa. Julgo que há que o dizer no plural, pois todos temos inevitavelmente muitos talentos, não só para uma coisinha. Quando nos concentramos só num talento, corremos o risco de nos acontecer o que acontece na agricultura quando se cultiva apenas um tipo de planta, esgotando no solo os minerais de que esta precisa.

Se procurarmos explorar os nossos vários talentos, também poderemos possivelmente funcionar melhor. Tal como sucede na agricultura quando se varia a exploração dos minerais, de forma a que estes não se esgotem, podendo, por vezes, uma pausa ou poisio também ser uma solução adequada.

No entanto, costuma dizer-se que “quem muitos burros toca, algum deixa para trás”. Porém, não conterá este provérbio, em parte, um limite ao desenvolvimento de cada indivíduo e da sociedade em que está inserido?

Não comportará esta crença generalizada um constrangimento ao potencial que advém do cruzamento de processos e produtos entre campos diversos? Não se estará a negligenciar a efetiva possibilidade de partilha de conteúdos entre diferentes áreas?

Quem pode com certeza dizer que é impossível um método, aplicado numa área, poder ser adaptado a uma área distinta e constituir uma solução para problemas aparentemente impossíveis de ultrapassar?

Fará sentido abdicar à partida do lucro mútuo para o progresso de campos aparentemente distintos, com soluções que sobram num lado e faltam noutro? Não se estará a pôr de lado os benefícios decorrentes da transversalidade do conhecimento e das culturas (sejam científicos, sejam da vida quotidiana)?

Como exemplo de contraponto, recordo-me de um famoso jogador de futebol que disse que fazer puzzles e praticar xadrez (tinha sido inclusivamente campeão no seu país quando mais jovem) o ajudavam a jogar melhor à bola.

Há que então referir que a suposta mediocridade associada, na vida quotidiana, à variedade, à polivalência mediana e ao experimentalismo é, no geral, talvez um pouco subvalorizada ou incompreendida.

Senão vejamos que, por exemplo, Albert Einstein tinha negativa a Matemática (ou melhor dizendo: naquela visão da Matemática…) na escola e pela mera lógica do “ser top” nunca teria sido um génio da física e apresentado visões que a normalidade não atinge.

Poderemos pensar que este caso se trata de uma exceção e não de uma regra, mas teremos também de ter em conta que a criatividade e a inovação provêm do erro e do mal feito que, porventura, pode levar a evoluções ou revoluções interessantes, enfim, à ciência.

 

vascoespinhalotero@hotmail.com

(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional

Leia todos os artigos na Internet em: www.dosonhoaoprojecto.blogspot.com

TUDO CINCOS



No nosso dia-a-dia, naturalmente emitimos juízos sobre o mundo à nossa volta. Objetos, tarefas, ações, capacidades, produtos ou pessoas são obviamente avaliados por nós. Por não conseguirmos encaixar conscientemente toda a imensa informação que absorvemos, acabamos por criar categorias de informação-tipo: os chamados estereótipos.

Quando nos deparamos com algo novo no ambiente que nos rodeia e que temos de analisar, esta organização de informação por “gavetas” disponível no nosso cérebro ajuda-nos, na medida em que nos permite ir “digerindo” mais rapidamente a realidade do que se não o tivéssemos estas categorias prévias.

Este processo de análise e decisão (em parte efetuado à priori) não é por si disfuncional para o ser humano. Poderá somente revelar-se perigoso para nós e para os outros se pegarmos nos estereótipos e os generalizarmos, de forma acrítica, não tendo em conta a especificidade de indivíduos e contextos.

Inevitavelmente cada pessoa é única e cada situação é diferente. A tolerância é, em grande parte, ter esta noção.

No entanto, por vezes caímos na tentação facilitista de enveredar por induções (pegar um mero exemplo e generalizar) e/ou deduções (usar um estereótipo para julgar um caso particular). É preciso ter calma para não entrar em “piloto automático” de estereótipos (que quando escudado por um ego de certezas absolutas se torna preconceito) e se ser displicente, insensível, injusto…

A este propósito, lembro-me de um caso de um aluno que na escola merecia “cinco” (nota máxima) a muitas disciplinas, mas que era muito fraquinho a uma ou duas. No entanto, na avaliação final do ano letivo feita pelo grupo de professores das várias disciplinas, na pauta surgiu também com nota máxima a essa cadeira, de modo a perfazer o “tudo cincos”.

O rapaz ficou primeiramente orgulhoso ao ver os resultados no quadro. Porém, refletindo sobre a situação, à medida que o tempo foi passando, começou a sentir-se desconfortável com a ideia de ter sido favorecido sem o merecer. De facto, tanto ele como os seus colegas de turma, sabiam que a realidade era, na verdade, diferente do que tinha sido descrito no papel.

Olhando com serenidade para o caso, pensamos: qual era o mal em ter tido nota negativa naquela e/ou noutra disciplina se, de facto, era essa a medida do seu desempenho? Compor as coisas para ficar com “cinco a tudo” terá sido uma boa medida (mesmo que com boas intenções)?

Cada caso é efetivamente um caso, de facto, contudo este exemplo apenas serve de ponto de partida para abordarmos uma questão mais profunda ao nível de sociedade. Tem a ver com um chavão que vemos aplicar no dia-a-dia de forma muitas vezes automática.

Ora, por que razão é que quem é bom ou mau nalgumas coisas também assim terá de ser para as outras ou até mesmo para tudo o resto?

Não será esta visão mais uma extensão de um divisionismo entre os fortes e os fracos numa expressão social darwinista, que tantos danos tem causado ao longo da História?

Não será por estes meios que, por exemplo, se criaram no passado elites sociais que seriam os “tudo cincos” que depois tinham de ir para Medicina, mesmo que a sua vocação não fosse essa?

Sejamos claros, não é possível ser bom a tudo tanto quanto é impossível ser mau a tudo. Há sempre talento para várias coisas (sim, plural e não um mero singular), embora possa não ser fácil discernir pelo próprio e/ou identificar pelos outros.

Concluindo, saber os nossos pontos fortes, pontos fracos e tentar melhorar no que for possível pode muito bem resumir a essência do crescimento pedagógico e isso é o mais importante!

 

vascoespinhalotero@hotmail.com

(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional

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TALENTUM


Talento pode ser descrito como aptidão natural ou, em parte, adquirida, engenho, disposição, habilidade, no fundo ter jeito para qualquer coisa específica. Este pode ser mais ou menos (pessoalmente e/ou socialmente) valorizado, consoante o tipo de produtos e/ou valores que produza e que façam sentido para a pessoa e/ou para a sociedade em que está inserido.

Na valorização funcional de um talento, muitas vezes, as avaliações pessoais e as avaliações sociais são semelhantes. Mas e quando não são? E quando uma pessoa sabe ou descobre que tem bastante talento para uma área específica, que a todos os que a rodeiam parece uma fantástica carreira a seguir e, mesmo assim, esta prefere não a usar?

Lembro o caso da estrela do basquetebol Michael Jordan que abandonou a prática desta modalidade, dizendo já não sentir prazer e motivação no jogo e enveredou por uma carreira muito menos brilhante no basebol, algo que gerou a estupefação dos media, no geral.

Porém, se o desenvolver e rentabilizar de um talento implicar fatores como, por exemplo, viagens constantes, invasão de privacidade, horários prolongados, trabalho solitário ou outro constrangimento qualquer e se a pessoa não obtiver prazer na atividade (motivação intrínseca) e/ou achar que ter que lidar com esses fatores não é um prazer e/ou que não vai compensar nos benefícios posteriores (ex: dinheiro, férias, acessos privilegiados, entre outros) que irá obter (motivação extrínseca) talvez a decisão de abdicar possa agora parecer, de facto, mais compreensível.

Torna-se claro que há que ter em conta os valores pessoais que cada um tem também para a sua vida. Ora, adotando esta perspetiva, qual é afinal o mal de não se fazer aquilo em que se é “craque”?

A dificuldade social / humana que temos em comunidade na abordagem, de forma aberta e natural, aos talentos terá eventualmente a ver com a sua quase imediata associação a um produto que pensamos ser único: o dinheiro.

Na verdade, só dissociando talento e dinheiro não teremos o reflexo de catalogar como “burrice” o abdicar de uma carreira de milhões. No entanto, curiosamente, a palavra talento vem do latim talentum que era o nome dado a uma moeda da Antiga Grécia e outros povos orientais.

Ou seja, esta associação errónea já vem de longe…

 

vascoespinhalotero@hotmail.com

(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional

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OS TALENTOS DE CADA UM


Cada vez mais acredito que a nossa personalidade está definida à nascença, através do nosso mapa genético, e que, ao longo da vida, vamos, de acordo com o ambiente que vivenciamos, encontrando várias maneiras de a exprimir. Tendo em conta o seu impacto em nós e em quem nos rodeia, vamos fazendo (consciente ou inconscientemente) a nossa seleção de padrões para a expressar em situações-tipo.

Inevitavelmente, vamos catalogando contextos, para uma maior eficácia e eficiência do nosso processamento de informação, e antecipando cenários e consequências. Daí dizer-se que os mais velhos têm mais experiência.

Porventura, o nosso desafio de maturidade, enquanto indivíduos, estará somente em conhecer cada vez melhor a nossa personalidade, aceitá-la, aprender a lidar e até brincar com ela.

Nesta lógica e adotando uma visão de orientação vocacional, é claro que é interessante saber o mais cedo possível que coisas um ser humano gosta de fazer e as áreas para as quais tem jeito, de facto.

No entanto, numa perspetiva mais holística, mesmo com os benefícios do conhecimento agora adquirido, não interessa só o que se descobriu ou tornou claro naquele momento de avaliação vocacional. Há também muito por descobrir ao longo de toda a sua vida. Depois daquele momento, terá o seu passado e presente com certeza, mas também muito futuro ainda por descobrir, no que respeita a interesses, capacidades, contextos, etc. E a vida comporta muitas surpresas, de facto.

Ter jeito para isto ou para aquilo é popularmente associado a ter talento para qualquer coisa. Uma aptidão natural ou, em parte, adquirida, disposição ou habilidade pode ser mais ou menos valorizada socialmente, consoante o tipo de produtos e/ou valores que produza. Por exemplo, talento para cantar e talento para fazer bricolage têm importâncias sociais distintas.

Os talentos para algo em específico são desenvolvidos se o contacto com o contexto em que eles podem ser verificados estiver presente. Se não surgir esse contexto, a pessoa pode nem sequer saber que tem esse potencial.

Por exemplo, se o Cristiano Ronaldo, com o seu talento para o futebol, tivesse nascido na Índia, onde o críquete é o desporto mais incentivado e popular, provavelmente não teria sido futebolista, pois essa capacidade não teria sido descoberta e/ou estimulada. O mesmo pode acontecer com qualquer pessoa.

No que ao potencial humano diz respeito, a passagem da ignorância ao conhecimento somente se efetua pela experimentação. É assim na ciência, é assim na vida quotidiana. Trata-se de um caminho de paciência, persistência e fé.

 Uma procura ativa em que é preciso explorar campos desconhecidos, tomar opções inesperadas, arriscar a dar muitos passos no escuro, aparentemente sem sentido algum, empurrarmo-nos para fora de aparentes zonas de conforto até chegarmos, de repente, a algo diferente do normal e surgir... um milagre. É isso mesmo que sentimos nesse instante. Quando se chega a esse ponto de descoberta e se olha para trás vê-se que valeu a pena, que tinha que ser assim para ser… especial.

Atentemos que não se aplica só a alguns ou que só acontece aos outros. Não há aqui toque de Midas ou acesso limitado para iluminados, pois inevitavelmente cada um de nós possui vários talentos: uns já foram descobertos, outros estão ainda por descobrir.

Assim sendo, quem achar que não tem talento para nada que se desengane, pois pode somente não ter encontrado até então contextos que permitam que eles se exprimam. Falamos de todo o seu percurso de vida, não só quando jovens…

Algumas pessoas poderão dizer que só têm descoberto em si talento para coisas que não valem a pena ou não servem para nada. Aqui já estaremos no campo dos valores sociais / pessoais ou aplicações funcionais, enquanto possível área de negócio por exemplo. Deixo uma pista para não desmoralizar: há sempre maneira… E quanto a “bitaites” e opiniões: “a de todos ouvirás, só a tua seguirás”.

Acima de tudo, esta malha de potencial por conhecer dentro de cada ser humano revela-se tão fascinante quanto enigmática ao imaginarmos no que poderemos estar, por enquanto, a ignorar, não aproveitar e/ou perder.

Há que aproveitar a vida para ir descobrindo…

 

vascoespinhalotero@hotmail.com

(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional

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DIZER AS COISAS NA HORA


Com as catástrofes naturais e artificiais que têm acontecido nos últimos anos, em Portugal e no resto do planeta, as pessoas parecem, no geral, estar obviamente mais ansiosas. Algumas podem até denotar sinais de pânico, ânsia de controlo, raiva e/ou depressão. No caso particular das contingências por causa do vírus covid 19, é certo que a convivência limitada pelo espaço e pelo tempo, assim como a progressiva dependência tecnológica e digital, condicionam a socialização entre as pessoas.


Devido a estes atuais momentos de apreensão, temos, nesta fase, a tentação de achar que há uns tempinhos atrás tudo era tão bom a nível de convivência em sociedade e que agora é que as coisas estão más. Mas seria efetivamente tudo assim tão cor de rosa anteriormente?


Ao pensar nisto, lembro-me um filme de Alfred Hitchcock sobre um grupo de pessoas de contextos sociais diferentes que partilhava um bote salva-vidas, após o navio em que se encontravam ter naufragado, e que quando se viram sem água para sobreviver uniram-se muito. Chegam a amaldiçoar as guerrilhas sociais que os dividiam no passado, em jeito de lição para a humanidade. Só que depois são salvos e voltam para as suas vidas com os hábitos de antigamente…


De facto, já antes nem tudo era um mar de rosas no que respeita à convivência social quotidiana na nossa sociedade. Não me refiro a regras de etiqueta, tainadas ou camaradagem de festas, nada disso. Refiro-me mais ao pormenor do que é conviver socialmente com a maior genuinidade, respeito e tolerância possíveis, numa análise mais sensível, enfim até talvez utópica.


Sigam-me então. Ora, se virmos com calma, parece que, porventura mais nas últimas décadas, temos vivido numa era em que a nível mediático e popular se valoriza muito o dizer as coisas cara a cara, a tal frontalidade, ali no momento, seja propriamente num local físico, seja a nível virtualmente via redes sociais.


Neste tipo específico de interações sociais de intensidade e decibéis elevados, a forma é a grande força, já o conteúdo depende muito… Umas vezes parecem elaborados jogos táticos com argumentos sofistas, outras vezes meras trocas diretas de “bocas” recheadas de adrenalina. Frieza implacável, agressividade histriónica, tudo é muito rápido e, ali naqueles segundinhos, não há tempo para respirar, ponderar, analisar, nem sequer para ouvir ou respeitar. Ter dúvidas e ceder é associado a derrota. O nosso ego quer ganhar e para isso há que ser intransigente.


Dá a sensação que ser frontal (desta forma) é que é ser o maior ou ser “top”! É-nos servido este como único contraponto à falsidade, mesquinhez, cobardia, enfim. Se não és assim, é porque…Não serves.


Nesta lógica divisora darwinista, os vencidos são apontados como frágeis, sensíveis, enfim, fracos que não têm a fibra necessária para mandar e ter razão. Dizem que é o chamado instinto matador e que as decisões a sério são tomadas assim. Aparentemente, esta característica somente correrá nas veias dos líderes (ou chefes), os “maiores da cantareira” que arrumam com os outros. Ou se tem ou não se tem, dizem-nos algo do género: “é assim a vida, temos pena, ponto final”.


Faço aqui um parêntese para dizer que, na minha opinião, instinto e intuição não são de forma alguma sinónimos. Passo a explicar o meu ponto de vista. Muitos cientistas enaltecem o poder do uso e confiança na intuição para tomar boas decisões. Contudo, geralmente referem-se apenas a um momento de climax emocional, com que termina um inevitável processo de análise de dados, feito a nível consciente e inconsciente ou não fosse a intuição algo mais abrangente do que a razão. Sim, a intuição é muito mais profunda e completa do que um instinto de gatilho rápido…


O que é certo é que parece que socialmente nos habituamos a enaltecer, espreitar, aturar ou calar estes duelos sociais ao vivo, na televisão, computador ou telemóvel. Porém o Karma é tramado e não há caçador que não se torne presa nalgum momento. Com efeito, não se pode ganhar sempre, pois todos os aparentes Golias encontram os seus Davides, embora isso possa ser ocultado pelo orgulho da imagem social… Sim, qualquer ser humano pode ser Golias nuns contextos e David noutros. Em termos teóricos, qualquer um de nós é, em potência e dependendo das circunstâncias, capaz do melhor e do pior que a Humanidade já viu.


Agora sejamos sinceros e olhemos para dentro. Na nossa vida pessoal, já todos sentimos que numa conversa, debate ou troca de meros pontos de vista muitas vezes não conseguimos responder na hora, naquela altura certa. Parece que paralisamos, engasgamo-nos, bloqueamos, amedrontamo-nos e sentimos logo nesse instante que… já fomos.


Se mais tarde tentamos voltar atrás, a esse tema ou conversa, a esse momento afinal, somos logo, de uma forma ou de outra, avisados que isso já passou e que devia ter dito as coisas na hora, agora já não vale a pena. E isto chateia-nos ainda mais… É certo que nem tudo é assim tão importante quanto isso, por vezes as coisas passam e já nem nos lembramos mais, após algum tempo. No entanto, há outras vezes…


Que raio, há situações que não esquecemos, seja por orgulho, injustiça, pena, ciúme, raiva, parece que a nossa vida podia ter sido diferente se tivéssemos reagido de outra maneira. Seja logo depois, de vez em quando ou ao longo do tempo, ficamos ali a remoer o sucedido com os pensamentos, planos, gestos e posturas que podíamos ter tido para fazer boa figura. Perdemo-nos a construir realidades alternativas, mas acabamos por nunca dar o final feliz perfeito, pois… já não dá.


Isto acontece quando encontramos algum tipo de pessoas que, por uma questão de primeira impressão, personalidade ou nem sabemos bem porquê, mas não conseguimos encaixar, relaxar na sua presença, ser racionais e evitar que só as emoções em bruto tomem conta de nós.


Com outras pessoas, já não funcionamos bem assim, as coisas saem certas na hora certa, o raciocínio flui, sentimo-nos à vontade por não nos sentirmos atacados e/ou por sabermos que não estão ali para nos fazer mal nenhum.


Soluções ou receitas? Poderão, de facto, não existir remédios milagrosos. Porém, com ingredientes como maturidade, reflexão, calma, meditação, aceitação e sentido de humor ajudam na digestão dos episódios bons e maus do percurso deambulante que é a nossa vida. Indo por aí, conseguimos frequentemente ter momentos de tranquilidade, alegria e generosidade, pois faz tudo parte e há sempre surpresas… No fim, assim, talvez vençamos todos.


 


vascoespinhalotero@hotmail.com


(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional


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É TOP?



Hoje em dia, é muito usada a expressão: “é top”. Antigamente, ouvia-se o mais “fixe”, “porreiro” ou o “altamente” e eu confesso que o preferia. Tudo tem o seu contexto, é verdade, mas também tudo tem implicações e algumas mensagens subliminares para a sociedade fluem deste modo. Pode parecer uma picuinhice, mas passo a explicar a abrangência que aqui julgo discernir.


Na minha opinião, “é top” implica uma ação de comparação e hierarquização do objetivo ou fenómeno. Está a distinguir-se os bons e os maus, elegendo uma elite. Para haver os “top” tem de haver os “down”, pois para haver o que está no pódio também terão de haver os que não lá chegam.


Julgo que este sintoma psico-cultural carrega um pouco como consequência um limite à variedade, ao experimentalismo, à inovação, pois quem arriscar fazer diferente nem sempre “é top” e a maioria das pessoas obviamente gosta da segurança e da aceitação, daí muitas vezes se usar o que está na moda. A mentalidade do “é top” parece, por vezes, algo inflamável do género “se não me dão o que eu quero, tomo uma atitude radical”.


Vi há tempos que o músico Salvador Sobral não tira, nem permite que tirem com ele fotografias tipo selfies, sendo imediatamente criticado, nessas cusquices de futilidades em que facilmente se tornam as redes sociais, acusando-se o artista de ser arrogante e mal educado. Então agora manter o seu direito de reserva de imagem pessoal já é presunçoso e “má onda”? Definitivamente, não será “Top” com certeza…


Como uma possível contraposição (entre muitas outras expressões é claro), o “é fixe” soa-me muito mais a apreciar, degustar, saborear, prezar, aproveitar, enaltecer sem julgar ou denegrir, mais na linha do “está-se bem”, “na boa” ou “tranquilo” que também se ouvem amiúde, nos dias de hoje.


Ora, isto para dizer que, para valorizar algo, não precisamos de, logo a seguir, desvalorizar outros tantos. Às vezes, parece que temos vergonha de estar ali um tempinho a elogiar algo. Ficamos atrapalhados e passamos logo a correr para uma zona de conforto a dizer mal de outras coisas. Sejamos sinceros: não estaremos dessa forma a habituarmo-nos a ter mais prazer a dizer mal do que a dizer bem?


Não quero com isto, de forma alguma, desincentivar o espírito crítico, nada disso, mas acho importante que o elogio num texto não seja apenas uma nota de rodapé e o que é certo é que, tendo em conta a chamada imprensa sensacionalista, a má notícia rende mais audiências do que a boa notícia. E também tenho de reconhecer que, em parte, ao escrever este artigo também estou a dizer mal…


Porque não passar algum tempo (às vezes são só mesmos uns segundinhos no tempo certo) também a elogiar e a usufruir das coisas boas, sem, contudo, deixar de atentar às coisas más e que devem ser melhoradas? “É fixe”, sabe bem e faz bem! Se “é top”, isso já não sei…

 


vascoespinhalotero@hotmail.com


(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional


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quarta-feira, 16 de março de 2016

OS AMIGOS DA NET


As novas tecnologias estão a mudar a forma como os seres humanos trilham a sua vida em comunidade / sociedade, com as naturais consequências. Pessoas distanciadas presencialmente por longos kilómetros encontram solução através da interação via Internet, numa forma de comunicação com regras, códigos e condutas próprias conscientes ou inconscientes. É um tipo de comunicação distinto. A opinião geral é a de que é bom e que dá jeito, mas que não é a mesma coisa que estar cara a cara.

Muito gente diz preferir assim, pois deste modo o seu espaço é supostamente mantido, não há margem para intrusos chatos, há tempo para responder e menos incómodo pelo não se estar à vontade. Podem até dizer-se coisas a quem não se conseguiria uma oportunidade para tal presencialmente e pode manter-se o seu mundinho pessoal fora do juízo ou da pressão de um grupo na imprevisibilidade de um momento na hora.

Paradoxalmente, o grau de exposição das vidas pessoais alargou-se, sendo que a meia dúzia de colegas ou vizinhos coscuvilheiros pode expandir-se para os milhares e a invasão de privacidade é transformada num conceito de nota de rodapé, fora de moda, algo tacanho por alguém meio esquisito, pois se não se divulgar tudo o que faz, pensa, sente… não se existe! É a regra deste jogo relacional.

Por esta via, poderão surgir os meros amigos da net, sendo que a distinção relativamente aos amigos da vida real começa a ser mais confusa. E a diferença entre a vida publicitada na net e a realidade pessoal pode convidar ao isolamento como proteção desse mito de vida famosa, uma espécie de esquizofrenia digital.

É, na verdade, estranho ver grupos de amigos numa mesa em que cada um está agarrado ao seu aparelho digital sem noção de que estão a ser mal-educados e/ou a desperdiçar uma oportunidade de conviverem. Há, no entanto, que reconhecer que outros caminhos de partilha são assim gerados e a adaptação pode ser estimulante, porém a atenção central para com a(s) outra(s) pessoa(s) é menos paciente e nem parece ser a prioridade. Segundos focados num só ponto parecem horas desperdiçadas, pois tem-se mais que fazer…

A questão é que nós sabemos de tudo isto e mesmo assim… Apesar de se ter consciência clara de que não substitui a partilha presencial, muitos de nós acham(os) algo encolhidos que, pronto, já não é mau. No entanto, este “já não é mau”, por vezes, é tudo o que fica e já nos estamos a acomodar a isso… Seja por falta de à vontade, tempo, dinheiro ou até fascínio pelas infinitas potencialidades, estamos a tomar esta opção.

É que esta solução (ou escape) está ali mesmo à mão, facilmente disponível, quase a qualquer hora e local, no telemóvel ou no computador, uma tentação complicada de gerir tranquilamente, sem adição pelo menos. É como se fosse um novo sentido a juntar à audição, visão, paladar, tato e olfato. O nosso corpo já reage automaticamente a uma luzinha vermelha no canto superior do ecrã no Facebook ou ao som e vibração do telemóvel quando chega uma nova mensagem. Há como que um convite ao condicionamento. Até parece impossível como as pessoas antigamente vivam sem telemóveis, Internet ou TV Cabo…

Reparemos que até falar ao telemóvel está progressivamente a ser ultrapassado pela troca de sms ou pelo uso de net, basta estar atento à evolução das ofertas nas campanhas publicitárias. Será que daqui a uns anos a troca de mensagens escritas ou de voz pode deixar a conversação em tempo real tão fora de moda ou potencialmente obsoleta como os telefones de casa hoje em dia ou os telegramas antigamente?… 

Quando se começa a pensar muitos sobre estas matérias e se chega a algumas dúvidas éticas, existenciais ou humanas, apercebemo-nos que há já respostas prontas. Argumentos práticos e/ou louváveis guiam-nos rumo a uma aceitação dada sua utilidade  para a vida quotidiana. Este pragmatismo tecnológico aceite socialmente faz com que os que não querem logo aderir aos sempre mais recentes modelos, redes sociais ou outras potencialidades sejam vistos como alheados info-excluídos que ainda vivem num século passado.

Há já quem diga que não permanentemente atento ao e-mail, redes sociais ou telemóvel é uma grave irresponsabilidade, pois… pode acontecer… alguma coisa! Este medo da perda de controlo acerca da prevenção e/ou rápida intervenção numa desgraça que pode eventualmente acontecer é friamente aproveitado nas campanhas publicitárias das corporações com esta área de negócio.

Como facilmente perceberão, eu estou reticente, até porque aprecio ficção científica cataclísmica. Costumo ser dos últimos a aderir a novas tecnologias. É um defeito em parte, pois demoro a perceber grandes oportunidades de criar e gerir tarefas de forma mais prática.

No entanto, o meu receio (eventualmente um Adamastor) é o de, seguindo este processo, progressivamente assim nunca estar desligado da Internet e isso perturbar ou até impedir-me de viver o ambiente ao meu redor, de escutar pessoas com quem estou naquele momento e/ou até de focar-me numa só tarefa até ao fim. E sim sinto que isso está a acontecer, já é difícil “desligar”…

Como final de história, devo confidenciar que, após ser alvo de algumas ridicularizações por amigos mais modernaços, especialmente o meu irmão que é dotados nessas artes, e de ter feito algumas contas, vou cedendo às novas tecnologias… Acabo ou acabarei por me render, apenas o fazendo mais lentamente do que outros. Pode ser mero orgulho, mas continuo a achar que… Enfim.


vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

NÃO SEI, MAS QUERIA FAZER ALGO DIFERENTE (1ª parte)


Antigamente, a profissão era, muitas vezes, herdada por tradição familiar, numa suposta continuidade de características genéticas relativas a interesses e capacidades transmitidas de geração em geração: “filho de peixe sabe nadar”. No entanto, com o avançar da História, as tradições e mentalidades foram, inevitavelmente, mudando…

As novas gerações, em princípio, ganharam mais espaço para seguir os seus interesses e capacidades. Os pais, embora de olho franzido, lá foram entendendo, em parte, o espaço de decisão que os filhos teriam direito. Esta compreensão parental mais facilmente foi surgindo quando às opções de vida apresentadas estavam associadas saídas profissionais, salários e/ou até o estatutos sociais mais risonhos...

Esta nova liberdade de escolha para a juventude trouxe obviamente também responsabilidades e nem tudo foi um mar de rosas... Surgiram também entre os “novos” alguns focos de sobranceria “chique”, pois os jovens passaram a olhar, com alguma vergonha, para os labores tradicionais como algo associado aos “velhos”. Muitos tipos de trabalho passaram a ser conotados como algo meramente familiar, local, fora de moda e/ou pouco ambicioso numa sociedade moderna em se quer ser “fixe” ou “cool”.

O mesmo fenómeno ocorreu quanto às tradições culturais das comunidades, que sendo transmitidas e representadas (com algumas inovações também) durante décadas e gerações, “emperraram” nestas últimas fornadas (das quais também faço parte). Dizia-se que aquilo era um bocado “foleiro”.

Ora, julgo que tudo isto criou uma quebra de partilha de experiências, de interesse, de respeito e de valorização cultural / ocupacional entre as várias gerações no nosso país. Deixou de haver um fio contínuo. Isso prejudicou a (re)construção permanente de uma identidade, quiçá orgulho, na singularidade que é viver em Portugal.

E depois chegou a crise… Afinal, este novo modelo de sociedade com cultura de “centro comercial” também tinha faturas (não só económicas, mas também sociais, culturais, etc) e a situação tem sido dramática para muitas famílias. Porém também boas oportunidades surgem (genuínas e não de exploração) que mais à frente abordaremos…

No que respeita ao mundo das organizações, hoje em dia, o lema do emprego / trabalho para toda a vida tornou-se dificilmente concretizável. Com os altos níveis de desemprego, é comum ter que (mas também querer) mudar de trabalho, quer por necessidades do mercado, quer por vontade pessoal.

Por um lado, numa sociedade de consumo e de negócios o que hoje dá muito dinheiro, amanhã poderá já ser obsoleto. O binómio instabilidade versus adaptação no trabalho constitui-se como regra (ou custo) fundamental deste jogo de expansão / sobrevivência num mundo concorrencial.

Por outro lado, muitas pessoas quando são crianças ou jovens sonham fazer algo no futuro e acabam por não ter oportunidade para o concretizar em adultos ou então até o conseguem fazer, podendo, contudo, mais tarde estagnar numa rotina que esvazia o prazer da realização dessas tarefas.

Enquanto que algumas pessoas conseguem reinventar-se, manter a “chama acesa” sem mudar de ofício e/ou acabam por ter estabilidade externa / oportunidade laboral para isso, já com outras isso não sucede e chegam a fases da vida em que se questionam sobre soluções alternativas para o seu rumo profissional.

Estes estados de indefinição, como um limbo, podem suceder em qualquer momento, até mesmo quando já se fizeram muitos anos de “desconto”. Também na passagem para a aposentação / reforma, surge a questão de o que fazer agora que se tem tempo. Mais do mesmo, mas com um ritmo mais tranquilo? Ou coisas novas que sempre geraram uma tímida (quiçá nunca assumida) curiosidade? Ou então algo completamente diferente com que nunca, mesmo nunca, se pensou?...


vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional

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NÃO SEI, MAS QUERIA FAZER ALGO DIFERENTE (2ª parte)


Mais tarde ou mais cedo, por iniciativa própria e/ou por imposição de outrem, pelo menos, numa altura da vida adulta, uma pessoa reflete noutros tipos de atividades ocupacionais (seja a tempo inteiro, a meio tempo e/ou para os tempos livres) que fogem à nossa formação atual e/ou original. Fica-se a pensar: “será que podia fazer outra coisa”?

Muito provavelmente pode acontecer ou já aconteceu mesmo a cada um de nós. A tensão congela, os pensamentos começam remoer e uma vozinha angustiada lá de dentro diz-nos: “deixa lá isso, senão ficas triste com o que a tua vida poderia ter sido”. De facto, se este movimento se fizer apenas assim tudo se torna somente assustador…

Porém a vida vai-se fazendo como uma obra de arte em construção permanente. Às vezes, tem maneiras, para além das desculpas, e outra vozinha mais desenrascada lá de dentro pode dizer-nos: “e porque não”?

A verdade é que este impasse pode transformar-se num exercício interessante. Um desafio e uma oportunidade para nos descobrimos mais a fundo, testarmos um pouco os nossos limites, porventura explorar novas competências que não pensávamos poder desenvolver. Assim, sente-se que se tem mesmo que fazer alguma coisa, mas… o quê? E com que ajuda se pode contar?

Ora, numa reorientação vocacional deste tipo, pouco depois tudo começa assim: “não sei, mas queria fazer algo… diferente”. Trata-se de um processo que se inicia desta forma com uma faísca que leva a um rastilho que gera uma fogueira. A necessidade aguça o engenho e a vontade facilita a solução… Acima de tudo, nunca é tarde!

Frequentemente, muitos talentos são assim revelados ou até apenas relembrados, pois há “pequenas” coisas que gostamos de fazer já desde a infância e que nestas alturas se podem transformar em projetos concretos de adulto. No fundo, talvez tenham até sido as nossas vocações mais originais.

Atenção que o mais comum é termos várias vocações e não apenas uma. Devo alertar até que o fatalismo do que “a vida poderia ter sido” por não termos seguido a “nossa real vocação” contribui somente para desistir deste processo e com mágoa redobrada…

O que normalmente acontece é que uma pessoa adulta se dá conta que, por diversos motivos (financeiros, saídas profissionais, proximidade de casa ou estatuto socio-profissional, etc), até aquele momento de vida, outras vocações, que afinal tinha, foram postas de lado no seu passado nas alturas de fazer escolhas (conscientemente ou não).

Mas calma, querendo há sempre a tempo, pois provavelmente as coisas só acontecem quando… têm que acontecer.


vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional

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NÃO SEI, MAS QUERIA FAZER ALGO DIFERENTE (3ª parte)


Não é raro conhecermos casos de alguém que, citando alguns exemplos ficcionais, foi para médico, mas o que sempre gostou mesmo foi tratar das vinhas, de alguém que foi para informática, no entanto desde cedo demonstrou habilidade para costurar e criar roupa, de alguém que foi para contabilidade, porém há muito que adora pintar e outras artes, de alguém que foi para enfermeiro e que tem queda para a escrita ou teatro, de alguém está num banco adorando atividades ao ar livre, de alguém que foi meramente para “engenheiro” e que se delicia com trabalhos manuais com madeiras, etc.

Curiosamente, numa situação de crise económico-social, muitas pessoas têm que se dedicar a segundas vias profissionais, acabando por descobrir ou redescobrir alternativas viáveis em atividades para as quais, em crianças e jovens, já lhes diziam terem jeito. São estas as tais boas oportunidades (genuínas) que as crises trazem, fazem levar estas “maluquices” mais a sério e a dizer-lhes… sim.

É que no entusiasmo deste novo balanço vocacional, as renitências por preconceito ou estereótipo em assumir estes projetos de vida acabam por se desvanecer. Mais facilmente se defende um labor que não tem tanto (pretenso) estatuto social se for o caso, pois nesta fase já não se quer ser “doutor” nem “engenheiro” só por ser.

Já ouvimos dizer com orgulho ou naturalidade, sem complexos, “sou mecânico(a)”, “sou pintor(a)”, “sou costureiro(a)”, “sou jardineiro(a)” ou outra coisa qualquer, pois é o que se gosta de fazer e mai(s) nada!

Nalguns casos, a mudança é mesmo feita de armas e bagagens. Noutros casos conjugam-se atividades que já se faziam com estas novas ou reacendidas paixões que se podem consubstanciar num segundo trabalho / emprego ou num hobbie para os tempos livres.

Não deixo de pensar que o assumir, na idade adulta, destes sonhos ainda possíveis de realizar, pondo “mãos à obra”, é um ato de comunhão com o passado pessoal (muitas vezes longínquo, datando aos primeiríssimos anos de vida) de cada um e com as escolhas boas e más que se fazem. Não desistindo de ir construindo o seu percurso, porque se calhar era assim que tinha de ser…

Há quem diga que as “velhas” profissões estão a voltar, que a História é cíclica, que o tempo das “coisas de plástico” está a passar e que as pessoas preferem confiar no que é caseirinho. Talvez sim.

Eu considero que nos atuais movimentos de reorientação vocacional, para além do benefício para a própria pessoa, também a sociedade ganha. É que aprende-se a respeitar outras profissões, outras gerações, outros tempos e realidades, outros estilos de vida, outros passados, presentes e futuros…

Nesta perspetiva, o papel de cada um de nós para contribuir para a sociedade é olhar para dentro de si e (re)descobrir coisas para as quais tinha/tem jeito e fazer algo disso, fazendo o exercício de análise sozinho ou com a ajuda de amigos, família e/ou de um técnico profissional em entrevista e testes. Porque trilhar o seu caminho para ser mais feliz vale a pena…

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional

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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

“E CHAMEI CASA AQUELE LUGAR”


Quando era pequeno, passei muitas férias de Verão na Praia da Tocha. Já na altura gostava, mas sinto que com o passar do tempo a fui estimando cada vez melhor. É talvez como aqueles cozinhados que em novos não sabemos apreciar e que à medida que amadurecemos nos deleitamos cada vez mais. Puxando a metáfora para a realidade, note-se em rodapé que ali se come o melhor picapau e mariscada dos arredores. Com toda a sua tradição, gentes e beleza natural, a Praia da Tocha já por si é especial para quem habita na Gândara ou por lá passa de vez de quando. Mas dentro dela, existe um sítio diferente e é disto que vos quero falar…

Este sítio merece destaque, entre outras coisas, se analisado numa determinada perspetiva. Não sei se lhe devo chamar taberna, tasca, café, bar, associação social, recreativa ou cultural, pois, enfim, acaba por ser tudo isso e algo mais. Falo do “Piolho”. Para mim, este contempla o que de melhor existe num meio rural (aldeia) e num meio urbano (cidade)! Passo a explicar…

Primeiro a sua vertente do campo. Ora, tem aquela familiaridade de bem receber ou, se preferirem, uma margem de inclusão que se nota em muitos detalhes como, por exemplo, na facilidade do encontrar / cumprimentar quem não se vê há algum tempo e mesmo quem (ainda) não se conhece. Saboreia-se uma conversa abrangente pincelada com sorrisos, degusta-se a música ou deixa-se fluir o silêncio de companhia. Lá é natural deixarmo-nos ir, estar, ser… O tempo passa noutro ritmo e é este mesmo o seu segredo.

Sabem quando se tem baixas expetativas ou má impressão sobre pessoas, por uma questão de estereótipo ou preconceito, e depois se vem a descobrir que afinal têm histórias, sentido de humor e sabedoria distintas? De facto, assim se encontram muitas surpresas. Singularidades que vale a pena apreciar numa verdadeira sala de estar gandaresa com uma abertura de mentalidades supostamente mais comum noutras paragens.

“Garreias” entre etílicos mais espampanantes e “bitaites” pouco galantes para a capital do concelho por algum ego territorial mais carente de atenção também fazem parte (já pouco frequente diga-se) do menu. E o que é certo é que neste contexto se acolhem tranquilamente pessoas de todas as idades, origens e ofícios.

Já vi, por exemplo, pessoas que se estavam a levar demasiado a sério em gabarolices a levarem “tacadas” humorísticas, na hora certa, para lhes “pôr os pés na terra” e a responderem com um sorriso humilde de quem reconhece que “é justo, sim senhor”.

Agora a faceta de cidade. Vejamos, tem aquela irreverência artística, o conhecimento cosmopolita (há muita música alternativa que se conhece ali pela primeira vez). Mesmo com a inevitável necessidade económica e, por vezes, comercial, quem o “governa” (a incontornável Alice) continua a saber que o espírito da casa está na diversidade, na coragem de trazer ofertas artísticas, sociais e culturais fora da caixa, de longe, esquisitas, com gosto ou à procura dele. Abrem-se portas a novos talentos e a artistas com reconhecida carreira em segmentos peculiares que se deixam convencer pelo charme da praia, pela mística do lugar e pela amizade sedutora das suas gentes.

É certo que muitos detalhes são difíceis de explicar a quem nunca lá foi, imaginem então por quem já lá vive há gerações… A verdade é que há coisas que só se vivem na praia com a malta que lá se junta e o “Piolho” é um inevitável ponto de encontro. Quando revemos pessoas e nos (re)lembramos das suas sensações naturalmente sentimos, mesmo antes de dizer, "tenho saudades de ir à praia e de uma noite no Piolho”. É que sabe bem…

Há que deixar claro que a Praia da Tocha é mais do que o “Pilho”, é certo, mas o espírito que liga as várias gerações da sua História atravessa aquela casa já desde a primeira metade do século XX e transporta a sua herança para o futuro. Já viajei por alguns países e conheço alguns lugares (poucos inevitavelmente) em que senti uma magia parecida: Valparaíso no Chile, Nova Orleãs nos Estados Unidos, Salta na Argentina, Isfahan no Irão, Dulombi na Guiné Bissau, São Petersburgo na Rússia, Hoi An no Vietname, Ko Phi Phi na Tailandia, Amesterdão na Holanda, Pádua em Itália ou Santiago de Compostela na Galiza por exemplo. Invariavelmente, trata-se sítios de dimensão não demasiado grande, mas com acesso a muita coisa, sem grandes confusões, com espaço para saborear o tempo e companhia como se fosse uma música.

Uma vez, estava na praia e começou a ver-se fumo na floresta do Palheirão. Um amigo que estava comigo de imediato se levantou e disse-me “vou já a casa buscar o trator para ajudar a levar água, pois pode ser preciso”. Grande Julião, o amor pela praia vê-se em coisas destas.

Conta-nos a música de Jorge Palma: “e chamei casa aquele lugar”… E como se costuma dizer: casa é onde mora o coração.

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional

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