terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Desporto para todos


Há tempos, numa conversa informal, alguém referiu a existência de uma grande lacuna no desporto português: a falta de formação de qualidade para crianças e adolescentes. Seria aí a prioridade de intervenção, de criação de infra-estruturas, formação técnica, investimento de fundos, etc. Ainda segundo esta opinião, o investimento em adultos seria desperdício, pois “burro velho não aprende línguas” e um grande desportista não se faz de um dia para o outro e tem que começar cedo.

Concordei, mas só no que se refere ao desporto de alta competição. Na minha opinião, relativamente ao desporto de lazer ou manutenção é igualmente importante o investimento no desporto para adultos e idosos!

Vejamos, no desporto em geral existe a alta competição, que inevitavelmente abrange uma percentagem baixa da população, e existe o desporto de lazer ou de manutenção, este sim, capaz de absorver a grande maioria da população (pois nem todos podem ser “Figo, Rosa Mota, Carlos Lisboa ou Nuno Delgado”, mas quase toda a gente poderá ou poderia praticar futebol, atletismo, basquetebol, judo ou qualquer outra modalidade).

Por outro lado, se é certo que as fronteiras entre o desporto de competição e o desporto de lazer são bem definidas, também é certo que estes podem funcionar num contínuo em que proporcionando à população a opção do “experimentar” uma modalidade, se acaba por descobrir talentos, podendo aproveitá-los, quanto mais cedo melhor, para a competição. Ou seja, do geral para o particular, uma coisa beneficia a outra!

Com alguma atenção e auto-análise, damo-nos conta que em Portugal se confunde com incrível ligeireza desporto com desporto de competição! Sejamos realistas, num país com alguns “craques” do desporto, a maioria da nossa população é extremamente sedentária, sendo que a prática desportiva regular mais intensa para muita gente é estar no sofá a ver futebol no papel de “treinador de bancada”!

Provavelmente alguns dirão que, de vez em quando, dão uma “perninha” no futebol de 5. Ora, apesar de serem, na globalidade, poucos os que o fazem, há que reconhecer que a prática do futebol de 5 por adultos é, no nosso país, mais aceitável. Porém, também através deste facto, podemos apresentar outro dado: falta de alternativas ao futebol de 5, no quer diz respeito à prática desportiva por adultos!

Proponho-vos um desafio: se forem adultos, tentem lembrar-se de uma única vez (que não no vosso percurso escolar) em que praticaram basquetebol, voleibol, andebol, hóquei em patins, remo, ciclismo, ginástica ou mesmo um qualquer tipo de dança, só para citar alguns exemplos? Pensem nas alturas em que algum colega adulto vos diz “temos que fazer algum desporto” e logo surge apenas o futebol de 5 como se fosse a única alternativa possível!

É certo que há gente que pratica, de quando em vez, ténis, natação, atletismo, hipismo ou ginásios para manutenção. No entanto, são, infelizmente, minorias, sendo que nalgumas modalidades o afastamento do público potencialmente interessado se deve mais ao “rótulo social” de desporto elitista do que a puro desinteresse.

Concluindo, em Portugal, existe, sem dúvida, uma falta de prática desportiva regular em desportos variados principalmente entre os adultos (relativamente a crianças e adolescentes já não é bem assim). Seja por falta de interesse cultural enraizado, relativamente a algumas modalidades, com pouca tradição no nosso país, seja por falta de oferta de infra-estruturas e formação técnica, o que é certo é que a partir sensivelmente dos 30 anos pouca gente faz desporto e quem o faz na esmagadora maioria é um jogo de futebol de 5 quando calha... Será que o desporto não vale a pena?

vascoespinhalotero@hotmail.com(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional

O fenómeno do Folk no concelho de Cantanhede


Neste ano de 2006, em que o concelho mais uma vez se galvanizou ao ritmo de grandes eventos, que, cada vez mais, fazem “crescer” Cantanhede e projectar o dinamismo concelhio a nível regional e nacional, assume destaque, como evento revelação, o Folk 2006 organizado pelo Grupo Folclórico Cancioneiro de Cantanhede!

Deixando o comentário sobre a grande qualidade cultural e organizativa para mais à frente, importa desde já referir também o ponto relativo aos baixos custos do evento, que demonstram que é possível, com colaboração entre entidades na troca de serviços e partilha de materiais para bem comum, fazer muito com pouco.

Foi impressionante ver como funcionaram associações, autarquia, freguesias, voluntários, famílias anónimas, enfim, toda a massa humana solidária e desinteressada do concelho num evento que não mostra apenas cultura, mas procura também formar, transmitir e fazer participar públicos de várias faixas etárias. Foi muito bom ver o número de pessoas de várias idades que comparecia aos espectáculos.

Relativamente à diversidade cultural presente com diversos grupos folclóricos nacionais (de várias regiões) e grupos estrangeiros de países como Itália, Ucrânia, Turquia, México e Serra Leoa, o nível foi surpreendente, com os conteúdos a chegarem a públicos que se julgava pouco receptivos. Um fenómeno muito interessante!

Quem acreditaria há 20 ou 30 anos atrás que seria possível ter numa qualquer freguesia do concelho, durante todas as noites da semana, actuações de grupos de música e dança de vários países intercalados com actuações do grupo folclórico da terra?...

Não é por acaso que este artigo é publicado apenas algum tempo após o encerramento do evento. É que a memória por vezes é curta e um evento destes merece ser valorizado antes, durante e após, sendo que foi História do concelho de Cantanhede que se fez naquela semana.É claro que há pontos a melhorar e certamente que a organização irá recolher as sugestões e contributos dos vários intervenientes. Para o ano serão aplicadas novas acções e outros erros, como é óbvio, se irão cometer (mas certamente não os mesmos). É natural e louvável que a atitude de continuar a identificar sem complexos e protagonismos os pontos a melhorar se continue a enraizar.

Provavelmente a muitos elementos da assistência deu vontade de contactar com aquela gente que veio de longe, de dançar aquelas estranhas modas, de cantar aquelas letras esquisitas de significado profundo, de tocar aqueles instrumentos pouco conhecidos, enfim, de poder aprender mais directamente.

E talvez o caminho seja cada vez mais por aí! Não foi por acaso que as oficinas de dança e as recepções para almoço com famílias do concelho foram sucessos. Traduzem-se na vontade de conhecer, de aprender, de receber que as gentes de todas as freguesias do nosso concelho parecem Ter relativamente às diversas culturas.

Fica a sugestão de, para a próxima edição, se desenvolverem oficinas de dança incorporadas nos espectáculos nas freguesias. É que depois de ver tocar, cantar e dançar aqueles grupos de forma tão aberta, enriquecedora e simpática dava mesmo vontade de aprender um pouco com eles, quer se tenha!

Eis um exemplo da verdadeira (e possível) globalização cultural!...

vascoespinhalotero@hotmail.com(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional

Ver o futebol com outros olhos


Em primeiro lugar, devo esclarecer uma coisa: eu gosto de futebol e vibro com os jogos do mundial de futebol, mas vejamos...

Nestes dias de festa, é mais comum encontrar motivos de alegria ou sofrimento “desportivo” do que consciência social, pois parece que o mundo parou e que está tudo a ver, ingenuamente, os jogos. Sei que vou parecer chato para alguns, mas é, no mínimo, surreal analisar como pessoas que vivem em países onde reina insegurança, exclusão social, desemprego, trabalho precário, educação minimalista suspiram pelos seus heróis que jogam (qual soldados que lutam!) pela sua pátria (a troco de alguns milhares de euros...).

O futebol “indústria” é assim mesmo, e levado ao extremo, é concerteza mais uma forma de alienação que tem paralelo, por exemplo, com o concurso “Euro Milhões”: nestes dois fenómenos a maioria das pessoas (pobres) sonha ser milionária e famosa de um dia para o outro!...

Por outro lado, não falamos só de futebol, falamos do Mundial de futebol! A representação de cada país neste evento pode constituir-se como um depósito de esperança colectiva de um futuro risonho, qual via para a união nacional. Basta recordarmos a euforia que se viveu no nosso Euro 2004!

Mas a história da humanidade já deu alguns exemplos do lado negro desta mobilização de massas... Muitos foram os regimes políticos que se serviram de sucessos desportivos internacionais como exemplo para colocarem as “massas na ordem”, ou seja, no seu caminho de formatação cinzenta em que o pensamento crítico, criativo ou inovador era linchado em função dos interesses da nação agora coroada.

Homens como Hitler, Mussolini, Péron ou mesmo Salazar foram mestres neste jogo de se servirem destes fenómenos para conseguirem obter do povo “certificados de qualidade” aos seus regimes opressivos que afinal “davam” vitórias à nação... Atentemos que nestas vitórias sempre era realçada a Imagem do país como entidade suprema a preservar. Esta estratégia baseava-se, de maneira quase mesquinha, no mostrar, no parecer e não no aproveitamento do que as pessoas da “casa” tinham para dar, criar ou fazer! No fundo, acabava-se por copiar o que se fazia “lá fora” e mal com vergonha de ficar mal visto no estrangeiro...

Neste ponto, considero que Portugal de hoje em dia continua a falhar redondamente, pois se pensarmos friamente no que lucramos internamente (não só financeiramente, mas também em termos de inovação) com a Expo98, Euro2004 ou Porto Capital Europeia da Cultura... Um exemplo inverso desta fenómeno surge quando percebemos o “salto” que “nuestros hermanos” deram com os Jogos Olímpicos de Barcelona e a sua Expo em 1992!

Ora, em contraponto aos exemplos que atrás referi (de aproveitamento ditatorial de vitórias desportivas para blindar o poder e legitimar a cultura de isolamento) podemos recordar alguns momentos notáveis. Ainda recentemente tivemos um exemplo paradoxal e interessante. No Mundial de futebol de 1998, a França venceu o campeonato com uma equipa composta, quase exclusivamente, por jogadores oriundos de outros países, rotulados por muitos, em generalizações perigosíssimas, de “terroristas” ou inimigos da pátria da “Marselhesa” como facilmente um qualquer Jean Marie Le Pen apontaria numa retórica primitiva... Pelo menos durante uns tempos, este país reconheceu e aplaudiu a sua multi-culturalidade através daquela equipa, transpondo para cada cidade, cada bairro, cada casa um orgulho pela diversidade, pela partilha e pela solidariedade. Curiosamente, a equipa acabou por funcionar como lendário modelo de tolerância e convivência a seguir pelo o país e pelo o mundo!

Há que sublinhar sensatamente que o espírito que se criou naquela equipa não surgiu de um dia para o outro. Conta-se, por exemplo, que jogadores e técnicos, antes do campeonato se iniciar, passaram, propositadamente, o Natal juntos, isolados numa casa de montanha, num episódio que ainda hoje é referido pelos intervenientes como marcante!

Um exemplo inverso surge com a Selecção holandesa de futebol que é composta por alguns jogadores oriundos do Surinam que não são “misturados” com os restantes colegas de selecção, tendo inclusive um treinador próprio...

É possível concluir que este fenómeno desportivo global pode, de facto, servir de modelo de atitudes e comportamentos sociais. Por um lado, pode gerar num país uma onda de formatação cinzenta, onde se consolida o “orgulhosamente sós” da anti-diversidade. Por outro lado, pode potenciar um outro resultado: o exemplo da confiança. Centremo-nos, por exemplo, na actualidade portuguesa. Confiança para quê? Para apostar nos nossos valores (sem copiar o que se faz lá fora, dizendo que se está a adaptar...), para receber e abraçar a diversidade e influências, para “empurrar” a audácia de inovar, criar, arriscar, inventar (que não é sinónimo de desenrascar...) com os Figos, Ronaldos e Decos do nosso país multi-cultural.

As repercussões a nível económico, social e cultural poderão ser, a longo prazo, massivas, pois em alturas de dúvida sobre se uma empresa é capaz ou não de lançar um produto inovador alguém se há de lembrar: também aquela equipa de futebol conseguiu!

Analisando de outro ponto de vista, após a euforia criada pela conquista estritamente desportiva (porque afinal de contas é apenas um campeonato..) tudo o resto pode ficar na mesma... E aí voltamos a reflectir sobre o desporto “indústria” como forma de alienação, como meio de nos impedir de pensar e estar atentos a outras questões, porventura, as mais importantes...

No fundo, não importa o acontecimento, importa que uso fazemos dele. Após esta reflexão, não posso deixar de lançar um desafio de previsão ao leitor: o que aconteceria se selecção portuguesa fosse campeã do mundo de futebol?

vascoespinhalotero@hotmail.com

Uma oportunidade para pensarmos os nossos serviços


Quando ouvimos falar em avaliação de desempenho, muitas vezes pensamos em avaliação de pessoas e/ou de grupos (que envolvem subordinados e superiores, pois as chefias também precisam de ser auxiliadas e ter um “feedback”), mas também podemos falar de avaliação de serviços, departamentos ou organizações na sua globalidade!

Estas avaliações organizacionais, em que todos os trabalhadores, clientes internos e externos são ouvidos e as suas sugestões de melhoria acolhidas, estão a dar os primeiros passos no nosso país e com excelentes resultados!

No fundo, trata-se de aproveitar o maior potencial de qualquer organização: a análise crítica. Como? Através de questionários, entrevistas, grupos de análise, reuniões de ideias, recolha de evidências, análise de circuitos, conversas informais, entre outros meios: ouvir construtivamente as pessoas sobre o funcionamento dos serviços onde trabalham! E porquê construtivamente? Porque, como sabemos, devido a factores pessoais, sociais, educacionais, económicos e culturais, no nosso país, bem como em muitos outros, muitas vezes as pessoas criticam de forma destrutiva, o famoso “bota abaixo” que irrita e destrói, muitas vezes, o esforço despretensioso de muita gente que quer realmente contribuir...

O que fazer? Em primeiro lugar, é importante não desvalorizar (pelo contrário, dar importância à crítica, mesmo que à primeira vista nos pareça descabida ou mesmo mesquinha). Depois questionar pontos específicos (como se planeou, quem foi ouvido, o que correu mal, o que sentiu). No final, pedir naturalmente sugestões de melhoria (o que acha que se deve fazer para a próxima) e responsabilizar pela sua aplicação (pois falar só não basta…).

Este questionamento genuíno leva facilmente à distinção de uma crítica vazia (em que quem a faz acaba inclusivamente por aperceber-se disso) e a crítica construtiva (que pode ser recebida, organizada e aproveitada concretamente sem rancores). Há, no entanto, que ter atenção para o facto de muitas críticas vazias, após se filtrar o seu conteúdo, acabarem por resultar em boas críticas construtivas! No fundo toda a gente quer ser ouvida, mesmo que se faça ouvir da pior maneira!...

O problema da avaliação de desempenho, quer seja de pessoas ou de serviços, é o eterno fantasma do que poderá ser feito com uma má utilização destes processos. É basicamente isto que leva as pessoas a “fecharem-se” no seu canto no local de trabalho. Aqui a desconfiança, a intriga e o medo vencem sobre a autenticidade e a abertura construtiva.

Se as pessoas confiarem verdadeiramente num processo de avaliação organizacional/serviços, entregando o seu “coração profissional”, é compreensível que se sintam “traídas” se não virem resultados apresentados ou novos ganhos atingidos. É, sem dúvida, difícil envolver as pessoas, mas tendo-o conseguido torna-se vital não as desiludir, de modo a não alimentar as desconfianças e a pseudo-justificação da criação de “capelinhas” no mundo do trabalho!

vascoespinhalotero@hotmail.com

Somos o que Fazemos ou Fazemos o que Somos?...


A actual estrutura do mundo do trabalho é extremamente exigente e competitiva. Prazos e objectivos rigorosos são estipulados, o trabalho em equipa torna-se comum e necessário, novas estratégias são delineadas tendo em vista uma produtividade e um rendimento cada vez mais elevados. Surgem frequentemente situações novas e imprevisíveis devendo existir flexibilidade individual e organizacional, nas diferentes instituições, para com elas lidar. Perante este cenário exigem-se pessoas que saibam reagir a mudanças, com aptidões para transferir competências e tomar decisões, com capacidade para gerir as suas próprias carreiras. Em suma, pessoas que gostem do que fazem e que, acima de tudo, o façam bem! Mas, serão rendimento e satisfação profissional e de vida compatíveis ? Na actual sociedade?

As profissões são avaliadas pelo senso comum, consoante o que se entende ser o seu Esforço, Utilidade e Responsabilidade. Por exemplo, um operário civil despenderá grande esforço no seu trabalho, já um engenheiro terá uma maior responsabilidade (se uma casa que projectou ruir, ele será o réu principal), embora ambos sejam igualmente úteis (a casa só será feita com a participação de ambos)! Poderemos questionar qual o trabalho mais importante, obtendo respostas e opiniões discutíveis a que ideologias políticas e estilos de vida não serão alheios...

Porém, talvez estejamos a colocar a questão errada! A questão poderá sim ser quem trabalha melhor e em quê! Questão de avaliação polémica, ambígua, talvez mesmo impossível! Mas o que é isso de Trabalhar Melhor e Como Poderemos Trabalhar Melhor? Será que só algumas pessoas têm potencialidades para trabalhar bem, será que há um código genético dos bons e dos maus trabalhadores e/ou da preguiça? Será o trabalhador escravo/máquina o trabalhador ideal (lembram-se do filme de Charlie Chaplin?), será o prazer no que faz (nem dar pelo tempo a passar...) fazendo bem e ainda ter tempo para ter acesso a cultura e educação ao longo da vida e para estar com amigos e família? E então “vem-nos à memória uma questão batida”: serão rendimento e satisfação profissional e de vida compatíveis? Na actual sociedade? Essa será a “primeira resposta do resto da nossa vida”...

Bem, independentemente da opinião pessoal de cada um para estas questões, vamos lá ver uma coisa: Quem poderá avaliar quem trabalha melhor, quem poderá no futuro vir a trabalhar melhor e em que ambiente poderá trabalhar melhor? Seguramente que não um qualquer patrão à custa do regime de Flexibilidade proposto no Projecto de Revisão do Código de Trabalho... Bem, a resposta, na minha opinião, é... Nós Próprios! Como? Através de uma pura (mais tarde explicarei porquê...) Orientação Vocacional (Escolar e Profissional), seguindo o exemplo do que os países de Leste Europeu fizeram (ou tentaram fazer...). Nestes países Cultura, Educação e Informação para Todos constituíam (ou procurava-se que constituíssem...) elementos “alimentadores” de uma expressão mais humanizada do mundo do trabalho. Existia um continuum vocacional natural entre ensino secundário, ensino universitário e mercado de trabalho que possibilitava (ou possibilitaria...) que cada pessoa fizesse o que “realmente” gostava! E vejam que nos países que aplicaram tal medida se constatava, por exemplo, que as vagas nas faculdades eram ocupadas de acordo com a decisão vocacional de cada um, não existindo uma sobrelotação de alguns cursos como poderíamos esperar (não iam todos para Medicina, Arquitectura ou Direito!). Não eram então necessários outros critérios de entrada tais como: resultados obtidos em provas de avaliação (repetição?) teórica...

Bem, seria uma ideia interessante também para o nosso país, mas então e os custos? Nada que um real investimento na Educação (e na Saúde) como projecto nacional de sólido futuro não pudesse comportar (acabar com off-shores, fuga aos impostos, privatizações de saldo também ajudaria...). Os lucros, esses chegariam pela qualidade profissional, pelo contributo inovador dos trabalhos de investigação (passaríamos a deixar de “copiar” os outros) e, quem sabe, por rendimento e satisfação profissional e de vida mais compatíveis!... Utopias?...

De volta à nossa realidade e pensando na Orientação Vocacional o que é que verificamos? Que profissões socialmente ultra-valorizadas (pelo seu esforço, utilidade, responsabilidade ou compensação monetária) provocam desequilíbrios e “cegueiras” no puro desenvolvimento vocacional e nas aspirações profissionais de cada um. Às vezes, é devido a estas crenças “quase irracionais” que escolhas são monopolizadas, sendo congeladas decisões autónomas resultantes de auto-análise e de uma real verificação de aptidões e interesses pessoais. Renuncia-se ao direito de ser feliz, dizendo que teve que ser!

O mundo do trabalho transforma-se num palco de simples representações de papeis (as profissões) : dos “bons” e dos “maus”. Não será pura e simples coincidência recordarmos o exemplo de... “Tens boas notas, vai para Medicina”! Não raras vezes, os jovens optam por determinados cursos, devido apenas às suas elevadas médias de acesso e possibilidade de ascensão ao topo da pirâmide social: “os senhores doutores”! Não acredito na formação de bons profissionais seguindo apenas estes critérios!

Na minha opinião, no que ao processo de pura orientação e selecção vocacional e, posteriormente, profissional diz respeito, será importante abafar do estatuto social de algumas profissões, a influência da variável compensação monetária ou seja, seguir uma carreira apenas e só pelo dinheiro e/ou saída profissional. Abafar? Palavra forte, ousada, à primeira vista irresponsável, mesmo ditatorial, a fazer lembrar outros tempos de má memória! Porém esta expressão (pois apesar de a ter traduzido num verbo, não creio que o seja propriamente) não se serve de uma “censura” relativamente a estas representações mentais (ligadas ao dinheiro e ao estatuto), que justamente iria questionar os termos éticos do exercício da psicologia! Existiria sim o constante Relativizar (talvez seja esta a expressão adequada), criação de uma “montra” de informações novas, com actualização das velhas, sobre o acto de ser/fazer, tidas de repente, pelos orientandos, como “até giras e também interessantes”, promovendo uma reestruturação cognitiva e emotiva (“nunca tinha pensado nisto”, “tinha uma ideia diferente sobre isto”, “vendo as coisas nesta perspectiva isto até tem a ver comigo”).

Seria provavelmente possível o “semear” de uma tolerância, quiçá desvalorização, em relação às posições estratificadas, algo “militarizadas”, que se presume estarem imiscuídas na “planta” do actual mundo profissional. Nestes momentos que poderia apelidar de terapêutico-vocacionais, que na minha experiência como estagiário já presenciei e constatei (ainda que a um nível formal e, consequentemente, não científico), julgo existir pouco espaço para dinheiro e estatuto, pois neste “acordar” para a busca da essência da construção pessoal da realidade, neste caso da realidade vocacional (trabalhos de Kelly, Savickas, entre outros), o que se procura, permitam-me porventura especular mais um pouco, poderá estar intimamente relacionado com factores genéticos e experiências adquiridas, sobretudo aquelas que se reportam às relações humanas com pessoas significativas. Bem, muito ainda haverá por saber, por pesquisar...

Voltando ao que se passa hoje em dia e ao que todos já sentimos, mas nunca traduzimos talvez. Quantas vezes já ouvimos: “Tu fizeste bem, o teu curso tem saída e vais ganhar bem” ou “Tu fizeste mal, vais para o desemprego”! Poderei até questionar a real justiça nas remunerações das diferentes profissões, pois infelizmente não se recompensa quem trabalha melhor, recompensa-se sim quem tem o “melhor” emprego. Acontece que o lema ocidental “Melhor homem para o cargo” é sabotado por um sistema educativo que alimenta a fabricação em série de pessoas que são autênticas máquinas fotocopiadoras, em que não existe espaço para a compreensão crítica e prática dos conteúdos (há felizmente muitas excepções também, mas por quanto mais tempo resistirão?). Um sistema de ensino, que privilegia a memorização temporária, o despejar de matéria em exames teóricos, transforma-se num teatro em que os bons alunos serão aqueles que melhor fingirem compreender. Para não falar da forma como alguns cursos das universidades privadas são “oferecidos”... A actual sociedade impele para que se estude não para aprender, não para prestar, mas sim para mais tarde ter, poder, ser! Porém, não se pode ser mais tarde, é-se ao longo da vida!

A meu ver, Educar e Formar deverá contemplar muito mais do que uma preparação técnica, pois as componentes comportamental e cultural são também essenciais! Será importante não só saber “apertar um parafuso”, mas também compreender como “funciona toda a fábrica”! Então e se os patrões das fábricas disserem que apenas pretendem que o trabalhador saiba “apertar um parafuso” e que se conforme com isso? Exemplo mais claro foi o procedimento das empresas portuguesas nos últimos anos ao ignorarem o necessário investimento no trabalho qualificado, aproveitando-se apenas da nossa mão-de-obra barata! Esquecem-se, no entanto, que quando o barco for ao fundo levará com ele até os ratos do porão!

Como contraponto olhemos para a formação, competências, cultura e educação de grande parte dos nossos colegas ucranianos! As empresas têm que entender de uma vez por todas (talvez precisem de uns “óculos”) que uma boa articulação entre o sistema educativo e o sistema produtivo traz ganhos para todos os parceiros envolvidos. Ora vejamos: para os indivíduos (para o seu desenvolvimento pessoal), para as organizações empresariais (ganhos produtivos) e para a sociedade em geral (usufruto de melhores serviços). Para além de que esta articulação possui para os jovens uma enorme importância, não apenas em termos de satisfação e bom desempenho profissional, mas também na construção da sua identidade, tornando-se cidadãos críticos e responsáveis, não apenas consumidores...

Ora, com a pura Orientação Vocacional, o psicólogo proporcionará ao consulente o “apalpar” do real mundo do trabalho e o “respirar” do Eu que se pretende afirmar. Pretende-se combater o “encaixotamento” das pessoas, a desinformação e a fundamentação dos estereótipos relacionados com a vida profissional. Activar processos de auto-inserção no sistema profissional, consoante a vocação de cada um. Para evitar que o trabalho continue a ser visto como um “fardo”, uma “seca”, é necessário criar condições para que a maioria das pessoas faça o que gosta, e não o que é obrigado a gostar! Note-se que o gostar implica um processo de auto-descoberta muito grande e delicado, que não devemos menosprezar atribuindo valor “ditatorial” aos testes psicológicos! O fazer deve incorporar-se naturalmente no nosso ser. As pessoas devem ser orientadas no sentido de se expressarem. O desempenho laboral poderá então humanizar-se.

Agora o que acham: Somos o que Fazemos ou Fazemos o que Somos?...

Sofrer leva a não produzir


Entre o homem e a organização prescrita para a realização do trabalho existe, por vezes, um espaço de liberdade que autoriza uma negociação, invenções e acções de modulação do modo operatório, isto é, uma invenção / sugestão do trabalhador sobre a própria organização do trabalho, para adaptá-la às necessidades e desejos da organização para a qual trabalha, dos clientes a quem presta serviço e, acima de tudo, do próprio trabalhador, que é aquele que mais fica satisfeito com o sucesso do seu trabalho! Exemplos disso são verificados quando os trabalhadores dão sugestões para um melhor funcionamento e qualidade do seu serviço, sendo construtivamente quer declarados, quer ouvidos!

E aqui há que fazer um esclarecimento científico: para esta colaboração existir não são necessárias mais (ou menos...) compensações monetárias, pois trata-se de uma necessidade / potencialidade humana e social, basta haver predisposição para a organização a receber! A vontade de trabalhar bem, com prazer naquilo que se faz é uma porta que está sempre aberta em todos os trabalhadores de todas as organizações, pois na verdade ninguém quer trabalhar mal! Talvez por aqui se possa concluir o fracasso do mito da privatização para obrigar os trabalhadores das empresas públicas a trabalharem “como deve ser”, pois o autoritarismo, que aparece “vestido” de rigor profissional (ou a ameaça de despedimento...) não facilitam a contribuição das pessoas, antes pelo contrário, seja num empresa pública, seja numa privada! ...
Porém, quando a tal negociação que abordei no início do artigo não existe, devido à “surdez” egocêntrica e medrosa de não ter mão firme nos seus “súbditos”, por vezes, diagnosticada a muitos administradores e gestores ou a processos burocráticos destruidores, a relação homem-organização do trabalho fica bloqueada e entra-se no domínio do sofrimento dos trabalhadores e do modo como os trabalhadores reagem a esse sofrimento! E aí, sim, nascem o mau serviço, as más relações dentro do trabalho, absentismo, doenças no trabalho, stress (e consequentemente a baixa produtividade...), que no fundo não são uma “doença” (que no universo cultural português, muitas vezes displicentemente, se aponta aos funcionários públicos), são sim um sintoma que nos sugere a “doença” que atrás descrevi : a falta de negociação, invenções e acções entre os trabalhadores e seus superiores sobre a própria organização do trabalho!

O indivíduo, neste caso o trabalhador, dispõe de muitas vias de descarga da sua energia. Essas vias de descarga são três: via psíquica, via motora e via visceral. A primeira é saudável, enquanto que as duas seguintes nem sempre são.

Segundo Freud (1968), tomado pela sua energia pulsional direccionada para o trabalho, um sujeito pode eventualmente produzir criatividade e envolvimento, que são representações mentais que podem, às vezes, ser suficientes para descarregar o essencial da tensão interior. Outro sujeito não conseguirá relaxar-se por esse meio e deverá utilizar a sua musculatura: fuga, crise de raiva motora, actuação agressiva, violência, oferecendo toda uma gama de “descargas psicomotoras” (quem não viu já pessoas a “explodirem” por causa do trabalho?).

Enfim, quando a via mental e a via motora estão fora de acção, a energia pulsional não pode ser descarregada senão pela via do sistema nervoso autónomo e surgem então as doenças psicossomáticas (fadiga crónica, depressão, entre outras são geralmente mais comuns em pessoas que não “explodem” como no exemplo anterior).

Mas que tipo de trabalho ou formas de estar no e com o trabalho darão ao Homem possibilidade de não sofrer neste contexto? É deixa-lo não fazer nada? Isso é que era bom, diriam alguns! Ora bem, o psiquiatra francês Cristophe Dejours sugere uma abordagem que aproxima a Psicopatologia do Trabalho e a Ergonomia, apontando três respostas: a primeira é a possibilidade de participação na organização do trabalho; a segunda diz respeito à liberdade / autonomia no trabalhar dentro da organização; a terceira é a autêntica orientação vocacional.

O trabalho torna-se perigoso para o aparelho psíquico quando ele se opõe à sua livre actividade. Ou seja, quando as regras são impostas sem serem explicadas e negociadas abertamente e as contribuições, sugestões e participações dos trabalhadores permanecem olhadas com desconfiança! Cai assim o mito de que “os trabalhadores gostam é de não fazer nada”!
* Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacionalvascoespinhalotero@hotmail.com

Quando a cabeça não tem juízo...


Neste período de rescaldo (ou de “ressaca”), relativamente à participação portuguesa no Mundial de Futebol Coreia/Japão 2002, considero pertinente abordar de uma forma crítica e construtiva, dentro do que me é legítimo e possível fazer, o processo de preparação dos nossos representantes máximos na referida competição: os jogadores da “nossa” Selecção!

Fala-se muito de preparação física dos jogadores e, uma vez por outra, refere-se a sua preparação psicológica. Queixavam-se os jogadores, antes do jogo com os Estados Unidos da América, de sentirem elevados níveis de ansiedade há vários dias. A consequente derrota – e sobretudo porque foi devida a uma clara dificuldade dos nossos jogadores em atingirem a classe a que nos habituaram – talvez seja fruto dessa mesma ansiedade e dos fantasmas do psiquismo que os dominaram (Neurose do insucesso? Medo? Atitudes narcisistas?).

Numa visão socio-cultural constato que nós, portugueses, sempre nos “guiámos” pelo nosso “fado”, no sentido em que ora nos regozijamos por “sermos os maiores”, ora nos depreciamos por “sermos pequeninos”. Pois é, quanto maior é a subida, maior é a queda. É a nossa História que o acusa! Bem, isto explica e implica muita discussão e daria “pano para mangas”, mas voltemos à Selecção encarando-a como um “espelho” da sociedade portuguesa, ao nível social, cultural, económico e educativo.

No nosso país, frequentemente, na alta competição assistem-se a derrotas cuja explicação alguns técnicos remetem paras as tácticas, castigos, treinos ou para essa malvada falta de sorte (marca exclusiva portuguesa)! Mas terá sido aquela dramática meia-hora inicial, no jogo com a selecção americana, apenas falta de sorte? Será esta malvada a culpada por jogadores com larga experiência internacional, na casa dos trinta anos de idade “tremerem” daquela forma, assemelhando-se a juniores estreantes nestas andanças? Será? Claro que não! Porém para afastar estes “azares” e este “mau perder” será, sim, necessário: Estudar e Prevenir!

Muito raramente se questiona e investiga a fundo qual a explicação psicológica para o fracasso destes homens nos momentos cruciais. Sim, porque falamos de seres humanos e não de “robots comandados pelos treinadores de bancada”. Estes funcionam cognitivamente e emocionalmente envolvendo e influenciando, de modo decisivo, a finalização motora. E “quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga”! Pois então, ocorre-me a dúvida: até que ponto foi cientificamente correcta a preparação psicológica dos jogadores da Selecção? Como foi tratada a ansiedade (natural e, dado a nosso passado, esperada) dos jogadores durante os dias que antecederam o jogo? Com tranquilizantes?

Não fazendo disto a coisa mais importante do mundo (porque afinal o futebol é apenas um jogo!), eu diria que não foram os Estados Unidos que ganharam o jogo, mas antes a fragilização psicológica dos seleccionados portugueses face à pressão da competição em que estiveram envolvidos. É que com “mezinhas com alho” nos bolsos dos jogadores não se fazem milagres...

vascoespinhalotero@hotmail.com