domingo, 7 de outubro de 2007

DESEQUILÍBRIOS ECONÓMICOS E CULTURAIS: CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS

Queria partilhar convosco uma análise referente a um país que conheci um pouco: o Brasil. Neste país-continente, genericamente falando, cerca de 20% da população é rica e 80% pobre. Poderíamos, nesta conjuntura, pensar que, no interesse das suas empresas privadas, os preços seriam equilibrados, de modo a possibilitar que o maior número possível de pessoas pudesse aceder aos seus produtos ou serviços: mais clientes, talvez mais lucros… Nesta lógica, as empresas teriam de lutar entre si para oferecer os melhores preços (baixos), levando à letra o conceito de concorrência no mercado.

Porém isto não acontece. Porquê? Bem, parece que ter muitos clientes requer ter mais recursos e, consequentemente, mais despesas. Surpreendentemente ou não, as grandes empresas instaladas no Brasil preferem colocar preços altos apenas acessíveis aos 20% ricos! As empresas perceberam que têm mais lucros se tiverem menos clientes, desde que estes sejam ricos (e daí os preços altos), em detrimento da opção por muitos clientes, mas pobres.
Este fenómeno também só é possível com a permissão de monopólios, concentração de poderes e acordos de lucros base entre grandes empresas (decididos nos bastidores da corrupção) que constituem uma palavra proibida no capitalismo teórico: cartel.

Uma conclusão que se pode retirar é que na lei (da selva) do mercado (seja este regional, nacional ou global) chega-se sempre ao ponto em que deixa de haver concorrência e acaba por compensar ter poucos clientes (desde que ricos) mesmo que o resto da população não possa pagar esses serviços.
A isto chama-se ditadura de mercado. Ora, enquanto esta se reportar apenas a produtos ou serviços de utilidade relativa (como telemóveis, leitores de DVD, artigos de decoração ou outros utensílios) menos mal…

Agora, quando este fenómeno afecta, de forma grave e potencialmente irreversível, sectores vitais para a sobrevivência humana como Educação, Saúde, Electricidade, Água, Cultura, Apoio Social, etc… É que depois para voltar atrás é preciso contrariar leis, lutar nos eternos tribunais, mobilizar e esclarecer a opinião pública, não bastando já as manifestações de rua…

Ora, com as devidas distâncias (embora cada vez mais curtas), parece que estamos, já no nosso cantinho lusitano, infelizmente, a caminhar nesse sentido. Torna-se até possível prever, neste ponto, duas futuras consequências para o nosso país: aumento de emigração (que, comparativamente com a que ocorreu há umas décadas atrás, será altamente qualificada) e aumento do revolta social, insegurança e criminalidade (resultantes da mistura de ingredientes explosivos tais como: falta de princípios éticos e de justiça, vindos de cima, e luta pela sobrevivência).

Enfim, uma bomba relógio, que não é só nacional, tem uma abrangência global (veja-se as semelhanças de causa-efeito entre os motins ocorridos em França, o dia-a-dia dos gangs nos Estados Unidos ou a actual guerra civil no Iraque). É, no entanto, para nós um futuro cada vez menos distante.
Mas por que poderá tudo isto suceder? Resposta complicada, mas podemos apontar algumas causas óbvias: os desequilíbrios escandalosos na distribuição de riqueza económica e os “muros” dos preconceitos inter-culturais criados.

E o que fazer? No que diz respeito ao factor económico um trabalho enorme e corajoso está por realizar (será mesmo possível com os actuais líderes internacionais?). Quanto à segunda causa as coisas podem ser, em certas condições, surpreendentemente mais simples, embora também muito exigentes, sobretudo na abertura mental. E neste ponto será mais cego o que não vê ou o que não quer ver? Talvez o que não quer ver, porque não lhe interessa ver…

Uma aparente dificuldade, mas que poucos vêm como oportunidade, consiste no aproveitamento das, actualmente, inevitáveis vagas de e/imigração. Aqui poderá apostar-se na integração e compreensão cultural mútua através da troca de conhecimentos, tradições e valores.
Sejamos claros, não cabe aos países que acolhem apenas dar trabalho, nem a quem chega a esses países somente procurar trabalho. É fundamental e não acessório que haja mais do que isso! Passando da teoria à prática local, verificamos que na Região Centro, com Cantanhede incluída, há já bons exemplos de avanços inovadores e corajosos nestas áreas!

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional
Leia todos os artigos na Internet em: www.dosonhoaoprojecto.blogspot.com

domingo, 16 de setembro de 2007

CIDADANIA VERSUS DEMAGOGIA: A HISTÓRIA DOS MESMOS

Muitos poderão dizer que se está a exagerar ou meramente a especular quando se aponta um futuro social catastrófico. Devido às gritantes desigualdades económicas e sociais, bem como ao “barril de pólvora” ecológico (cujas mudanças este ano se começaram a fazer sentir aos olhos de toda a gente), tanto no nosso país como no mundo em geral algo parece estar a acontecer.... Quanto a reacções: uns ficam surpreendidos, outros cepticamente comprometidos. Arrisco até a dizer que entre alguns destes últimos estarão, porventura, uma pequena elite: os mesmos.

Os mesmos que segregam, para um canto clandestino do nosso país, imigrantes que apenas parecem interessar pelos seus baixos ou inexistentes salários (esquecendo a sua cultura, família e novas gerações) e agora se revoltam indignados e “surpreendidos” com a criminalidade e falta de formação desta “gente”.

Os mesmos que apregoam a inovação e empreendorismo para as nossas empresas e depois que sussurram com orgulho, “lá fora”, a atractividade portuguesa pela sua mão-de-obra barata para as empresas estrangeiras (especialmente pertinente em visitas a países que dão “lições” nesta matéria como a China).

Os mesmos que enaltecem as graciosidade e transparência do capitalismo concorrencial e depois tentam impor o projecto de localização do novo aeroporto na Ota como única solução possível (por várias razões que apenas poderemos imaginar…), embora seja a via mais cara (ainda sem contar com as derrapagens), mais rapidamente obsoleta (não suportará o aumento de tráfego durante mais de treze anos) e, em termos de funcionamento operacional diário, a mais complicada.

Os mesmos que elegeram como símbolos do despesismo todos os serviços e quase todos os funcionários públicos, cito quase pelo facto de se deixar de fora administradores e afins que continuam tranquilamente a auferir salários, comissões, isenções chorudas e futuras reformas.

Os mesmos que juraram mudar as regras relativas a carreiras e aposentação apenas para os novos funcionários públicos e acabaram meses depois por dar o dito por não dito e mudá-las para todos. Ou os mesmos que vêm a terreiro defender e promover os valores da família e, de seguida, sorrateiramente reduzem para metade os apoios após os nascimentos.

Os mesmos que declaravam que todos tinham que contribuir a nível fiscal e depois fecham os olhos a contribuições gigantescas em falta relativas a grandes bancos, seguradoras, construtoras, lucros bolsistas, fortunas milionárias, entre outros, de forma mais ou menos legal, com pressão (ou será mesmo autorização?) de lobbies à mistura.

Os mesmos que destroem o serviço nacional de saúde como direito, em nome da procura do aumento da qualidade de serviço para os utentes (“esquecendo” que não se pode melhorar aquilo que se fecha), abrindo espaço para esta qualidade apenas disponível no privado, cada vez mais somente para alguns: provavelmente entre estes estarão precisamente esses mesmos.

Os mesmos sejam estes de esquerda, direita ou centro, dado que os interesses apenas têm uma cor: a do dinheiro e do poder. Mas será inevitável? Talvez sim… Poderemos pensar que talvez seja inevitavelmente humano ceder aos interesses, mas logo nos lembramos que noutros países as coisas não se passam bem assim ou, pelo menos, não sempre.

Então poderemos pensar que talvez seja uma questão cultural, porém mesmo no nosso país há exemplos de cedência e também de resistência a pressões de lobbies., sendo nuns casos esporádicos, noutros constantes resultando de critérios coerentes assumidos. Mas mesmo estes que são assumidos e cumpridos não constituem garante de que se tomem decisões sempre desta forma…

Talvez sejam demasiados dilemas ingénuos ou desconfiados e nos reste somente uma solução: estar permanentemente atentos, informados e esclarecidos para poder elogiar ou criticar decisões passadas, presentes e futuras, de forma autónoma, para ter a possibilidade de lutar, apoiar e fazer a diferença. Enfim, cidadania é o que se pede e com o que se pode contar contra a demagogia.

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional
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sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Equívocos sobre Psicologia e Religiões

A Psicologia é uma ciência humana relativamente recente. O seu “nascimento” científico data de 1879, quando o alemão Wundt criou, em Leipzig, o primeiro laboratório de Psicologia Experimental. Desde aí, até aos nossos dias, esta ciência desenvolveu-se, “amadureceu” em termos práticos com vários contributos e expandiu-se em várias áreas e correntes. O prestígio social da Psicologia cresceu imenso na últimas décadas, mas, como “não há bela sem senão”, surgiram também algumas ideias (in)fundadas que se foram enraizando no senso comum...

Por exemplo, existe um preconceito que se tem vindo a generalizar socialmente: o de que um psicólogo tem forçosamente de apelar à calma e compreender (ou concordar) sempre com tudo o que um cliente diz. Grande equívoco este! Acontece sim que, muitas vezes, até a postura do psicólogo é (com estudos científicos a suportá-lo) desafiante!

Um outro ponto interessante tem a ver com o mito de que o psicólogo está sempre a interpretar tudo! Uma boa resposta a esta “teoria da conspiração” pode surgir apenas com uma questão, citando um exemplo de outro profissional: conhecem algum contabilista que em todos os minutos e segundos do dia e da noite apenas faça contas?...

Adoptando outro ângulo de análise, podemos ver que, actualmente, há quem erradamente coloque a psicologia no mesmo patamar de doutrinas religiosas de abordagem da vida. Quem o pensa e/ou diz não tem em conta que, apesar de algumas ramificações comuns, um psicólogo nunca será um sacerdote “sofisticado”, nem nas suas teorias, nem, definitivamente, nas suas práticas. São papéis bem distintos, nalgumas matérias até, sob um certo ponto de vista, complementares, mas certamente que não em todas.

Desviando um pouco o foco de reflexão, damo-nos conta que também as diversas religiões sofrem uma onda de equívocos e (des)informação. Julgo ser rigoroso afirmar que, hoje em dia, uma grande fatia da opinião pública sente uma certa desilusão, descrença ou mesmo algum receio para com as diversas religiões. A este facto não é certamente alheio o surgimento e divulgação, pela comunicação social, de fenómenos extremistas (muitas vezes apenas com motivações económicas ou políticas...) que acabam por inspirar nas pessoas o medo de comprometimento com opções erradas e as religiões passam frequentemente por precipitadas avaliações de “8 ou 80”!

Há que reconhecer, no entanto, um facto que urge discutir numa auto-análise a realizar pelas várias religiões: a escassez de bons intérpretes (embora estejam a aumentar) que consigam fazer a ponte entre as doutrinas escritas e os exemplos práticos, respostas a problemas e desafios do dia-a-dia actual. E neste ponto específico da facilidade de comunicação, julgo que algumas “seitas” (onde o conceito de ética é muitas vezes “atropelado” pelo dinheiro fácil...) têm vindo a ganhar espaço...

Ora, ao contrário do que muitos, com ares de modernidade, facilmente dirão, as várias doutrinas religiosas não me parecem desactualizadas. São na sua globalidade ensinamentos muito válidos, ricos e interessantes. No entanto, é necessário explicar bem os seus conceitos com aplicações, reais, concretas e responsáveis no dia-a-dia na relação connosco e com os outros.

A moral dogmática ou a apresentação do sobrenatural como argumento da razão ou, melhor, da “obrigação” (pelo receio da punição) facilmente leva a atitudes artificiais, ansiedades sem razão aparente e aplicações erradas, que provocam desigualdades com consequências para os mais fracos (precisamente quem se quer proteger).

Há razões para optimismo, pois existem, nas várias religiões, cada vez mais, bons intérpretes que conseguem demonstrar que os ensinamentos não são estáticos, são sempre relativos e passíveis de contextualização. Uma conversa é sempre melhor que um juízo. E é exactamente esta abordagem que faz a diferença na vida das pessoas!

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Inovação: não começar a casa pelo telhado, nem copiar a casa do vizinho

Numa altura em que o conceito de inovação parece estar na moda no nosso país, (ou pelo menos apela-se para que esteja) revela-se pertinente pensar um pouco sobre como “nasce” a atitude de inovar. Há quem considere que inovar, no sentido de arriscar, inventar ou criar seja uma característica inata, que a “mãe natureza” a uns dá e a outros não, por mais que a procurem. Outros, porém, defendem que esta característica geral se pode aprender, cultivar, reforçar e aqui se aponta a educação e cultura, na sua abrangência, como ponto essencial para enraizar a estratégia de que o risco da inovação compensa.

Não é por acaso que países como Noruega, Suécia, Finlândia ou Dinamarca têm, nos últimos anos, desenvolvido as melhores ideias em termos de mercado. Vejamos as suas abordagens e práticas concretas ao nível da educação e cultura, que não são vistas como despesas (tão fáceis de cortar num orçamento de Estado de “vistas curtas”), mas sim como investimentos que têm, de facto, retorno para a sociedade!

Com um leve tom de profecia, bastar estarmos atentos às ideias que irão surgir nas empresas dos países de leste europeu nos próximos anos e o salto de desenvolvimento que terão... Nestes casos, uma Educação forte (gratuita, pública, com qualidade e igualdade de oportunidades) traz uma Inovação forte (com aplicações quer no público, quer no privado), não começando a casa pelo telhado…

Assim, parece haver uma maior probabilidade de “criarmos” pessoas inovadoras, porém existirão sempre umas pessoas mais inovadoras do que outras e os portugueses até têm alguns bons exemplos de inventores! Infelizmente, na sua maioria, os nossos inovadores são desvalorizados ou ridicularizados, sendo que este sim parece ser o nosso fado ao longo dos tempos...
Sejamos francos, na sociedade portuguesa do passado e ainda presente, tão bem descrita por Eça de Queiroz, muito mais facilmente é implementada uma ideia copiada do estrangeiro do que uma ideia germinada pela “prata da casa”!... Os nossos anos de atraso devem-se exactamente a isto: estamos à espera das ideias vindas de fora, quando até já as tivemos cá dentro!

O desafio dos nossos dias é precisamente esse: a busca de ideias! Quanto mais espaço dermos para essa busca, maior será a nossa vantagem competitiva, a qualidade dos nossos serviços, a recuperação da nossa economia e da auto-estima nacional. Só assim poderemos estar um passo à frente na inovação do dia-a-dia e, consequentemente, no mercado global, pois a inovação não se pode aplicar apenas às grandes empresas, também as pequenas e médias, quer públicas, quer privadas.

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional

sábado, 7 de julho de 2007

O NEGÓCIO DAS URGÊNCIAS (PRIVADAS)
A questão do encerramento de diversos serviços de urgências em Portugal, supostamente devido ao número insuficiente de utilizadores nalguns pontos, continua na ordem do dia. A argumentação usada tem tanto de incrível como de teimosa, dado ter sido repetidamente utilizada pelo ministro da Saúde até se tornar banal e aceite como natural, óbvia e mesmo necessária pela maioria da população. Passando, na opinião pública, a discutir-se não este argumento sem lógica alguma, mas sim meramente quem é que vai fechar e quem é que se safa.

Trata-se de uma armadilha demagógica cozinhada na frieza das estatísticas que com jeito provam o que se quiser. Como é possível metermos no mesmo saco um utente de uma urgência (esporádico) e um cliente assíduo de um centro comercial? Ir ao centro comercial às compras pode ser um hábito regular Já ir às urgências é uma necessidade, uma excepção nos hábitos regulares das pessoas. Importa, sem dúvida, se a urgência está a 20 km ou a 50 km; se a urgência está aberta 5, 12 ou 24 horas por dia; se tem técnicos que possam prestar os primeiros cuidados, de forma a, pelo menos, estabilizar uma situação de saúde!

É certo que há pessoas que podem ir às urgências por motivos que não o justifiquem, mas, por essas excepções, pagaram todos os outros? Acrescentemos que, se a questão for apenas esta, há que apostar na informação, prevenção e sensibilização para estas situações (que não têm contado com os apoios suficientes, sobrevivendo apenas da boa consciência dos técnicos envolvidos). De forma a que, paradoxalmente ou não, haja menos situações nas urgências, mas que estas não deixem de lá estar, porque, mais dia menos dia ou mais noite menos noite, alguém vai precisar de lá ir!

Importa também, sem dúvida, se o apoio é gratuito ou se vamos pagar 5, 15 ou 50 euros! Parece que, contrariando a Constituição Portuguesa, que nos diz que o direito à saúde deve ser tendencialmente gratuito, as taxas moderadoras e outras criações económicas estão na forja para o serviço nacional de saúde. Se este cenário já é mau, outro pior se avizinha: para substituir as urgências públicas que se fecharem por suposta falta de utentes, surgirão urgências privadas, com os custos certamente no “menu”…

Com este precedente encara-se o custo de um apoio de urgência na área da saúde com o mesmo “olho para o negócio” que o custo de um produto do centro comercial: que poderá subir ou baixar ao sabor do mercado e da (não) concorrência. Sejamos pragmáticos, relativamente aos custos da saúde, no privado a constituição transforma-se apenas em “caixa registadora” e deixa de haver discussão sobre taxas moderadoras, porque quem pode paga, quem não pode…

A luta pela melhoria das urgências e dos seus serviços deveria ser o foco da discussão e não a sua manutenção, mas o “carimbo” da crise serve para cortar em tudo, excepto para buscar os rendimentos fiscais que resolveriam de forma massiva a situação no Estado... É claro que há problemas, acima de tudo, de má gestão, pois é sabido que há serviços que funcionam mal e que gerem mal os recursos disponíveis. Mas a solução é acabar com os serviços ou procurar melhorá-los? Afinal de contas, pretende-se julgar somente ou ajudar a evoluir? Se a intenção é apenas a primeira, a quem interessam os veredictos desse julgamento redutor?

Parece cada vez mais claro que, actualmente, a política do Estado não é melhorar os serviços, é simplesmente denegrir a sua imagem (muitas vezes alimentando preconceitos sobre os serviços públicos que são generalizados sem factos) para cortar em recursos muitas vezes essenciais às populações. Depois coloca-se em causa a qualidade do serviço e apontar-se como solução mágica a sua transferência para o sector privado! Uma receita já conhecida…

Devo referir que não vejo o privado como diabo, nem o publico como santo. Há obviamente pontos fortes, pontos fracos e potenciais sugestões de melhoria para todos os sectores. Julgo, porém, que existem áreas que deveriam ser o pilar seguro de uma sociedade como: Educação, Saúde, Luz, Água, Cultura, Apoio Social, entre outras que deverão estar sempre no domínio público. Outras áreas menos vitais poderão ficar para a concorrência (assegurando que esta acontece de facto, evitando os monopólios) dos privados. Assim, funcionam os países com maior qualidade de vida do mundo: Suécia, Noruega e a tão falada Finlândia!...
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional

domingo, 3 de junho de 2007

Tipo Gil Vicente e tal...

Há muito que um programa de televisão do principal canal público não causava tanto falatório. Não por motivos de pura polémica ou escândalo vazio e “comercialóide”, nem pelo sensacionalismo ou cultura do banal, mas sim simplesmente pelo seu rico e interessante conteúdo e forma: “Isto é uma espécie de magazine”! O novo programa dos “Gato Fedorento” é a mais recente prova de que é possível a máxima “faça você mesmo”. É que sabe mesmo bem observar como pequenos pormenores que já todos vimos, ouvimos ou sentimos, no dia-a-dia da nossa sociedade, são apresentados, de forma descontraída, em rábulas inteligentes, criadas com uma subtil “piscadela de olho”.

Há muito que os domingos à noite não eram tão ansiados (será que ninguém se lembra que o dia seguinte é segunda-feira de manhã?), existindo muitas vezes a expectativa sobre o que é que eles vão fazer desta vez. E a verdade é que este humor é mesmo “sério”! No sentido em que as caricaturas apresentadas retratam com precisão milimétrica estereótipos sociais, económicos, culturais e mesmo religiosos, numa análise nacional e também internacional. Tudo isto com um doce ingrediente de aula de cidadania actualizada e espírito crítico atento e, sobretudo, construtivo…

Muitas vezes parece que podemos imaginar os próprios visados das divertidas críticas a rirem e a aplaudirem, sendo que alguns destinatários concerteza perceberão o “presente envenenado”, enquanto que outros julgarão que a “carapuça” servirá a alguém que não eles ou que foi apenas uma piada como outra qualquer... O estilo destes brilhantes rapazes, cada vez mais mordaz e certeiro, faz lembrar em conteúdo e, algumas vezes, também na forma, as obras de Gil Vicente e mesmo de Eça de Queiroz!

O seu humor não agrada a todos, é certo. Entre os cépticos encontramos pessoas que preferem o estilo mais “terra a terra” de Fernando Mendes, Camilo de Oliveira, Marina Mota, entre outros representantes do humor da revista “à portuguesa“, carregada de tradição e carinho no nosso coração. No entanto, também este público começa a apreciar, por vezes, algumas “tiradas”, sendo que noutras ocasiões optam por abanar a cabeça em sinal de desaprovação moral (embora apreciem bastante os trocadilhos “marotos” do humor mais popular presente nos “Batanetes” ou “Malucos do Riso”). No fundo, esta caracterização poderia simbolizar o possível choque de valores entre gerações no nosso país, porém a coexistência dos diversos “humores” a que assistimos, hoje em dia, é prova dada de que este é um exemplo de integração democrática e tolerante, digno de ser mencionado como modelo a adaptar para outras áreas…

Esta nova vaga humorística em Portugal não surge vinda do nada. Muito se deve à fase de reinvenção mediática do humor que nos foi trazida pela moda do “stand-up comedy”. Mesmo aqui se conseguem discernir diferenças entre o estilo de anedota de que é particular especialista Fernando Rocha e o estilo mais corrosivo, cínico e sedutor de Bruno Nogueira, Rui Unas, entre outros). Ora, numa altura de aparente decadência do “pai” do humor moderno português, Herman José, que à semelhança de Jô Soares, tem vindo ao longo da última década, a preferir o conforto dos sofás nos “talk-shows” do que a criatividade e agitação dos programas regulares de humor, o humor português trilha um caminho sorridente na companhia de novos valores, vindos de uma geração que cresceu a ver séries “Tal Canal”, “Duarte e Companhia”, “Herman Enciclopédia” e o não tão valorizado quanto merecia: “Contra-Informação”!

O espaço conquistado a pulso, com mérito, de projectos como “Portugalmente”, “Cabaret da Coxa” ou “Revolta dos Pasteis de Nata”, para além do já referido “Gato Fedorento”, provam que a inovação portuguesa não é brejeira, nem precisa de importar ao “kilo” séries estrangeiras de qualidade duvidosa (embora as séries de qualidade escolhidas “a dedo” sejam sempre bem-vindas). Sublinhe-se, para que equívocos não se gerem, que os “craques” desta área recusam a defesa “miserabilista” do seu trabalho, bem como a ideia do “orgulhosamente sós”, pelo contrário, assumem referências nacionais, que já abordei, mas também de outros projectos e personalidades internacionais. Há que reconhecer que ao nível dos centros de decisão desta área, neste caso os produtores do mercado televisivo, parece que se está finalmente a perder a vergonha de apostar nos jovens valores nacionais.

Por que não fazer o mesmo com outras jovens ideias inovadoras em diversas áreas do nosso país? Diz que é uma espécie de desafio…

domingo, 13 de maio de 2007

Psicologia sempre existiu: nos provérbios que quisermos

Os provérbios ou ditados populares sempre foram tidos como sinónimo de sabedoria, sendo muitas vezes utilizados para melhor explicar ou justificar a aplicação de uma ideia ou processo. Geralmente quem os utiliza lucra, pois todos lhe dão ouvidos e razão, como se quem os citasse estivesse a ler partes da Constituição! Porém, estas informais leis gerais tidas pela maioria de nós como universais, dependem, na verdade, muito do seu contexto e, acima de tudo, de cada cultura.

Ora, sucede que a moral presente nos provérbios e ditados populares é muito diferente de cultura para cultura, de sociedade para sociedade, mesmo de país para país, variando até ao longo do tempo e espaço da História! Basta comparar os ditados portugueses e espanhóis por exemplo. Por exemplo, os provérbios e ditados portugueses são, na sua globalidade, muito conformistas e resignados (“quem tudo quer, tudo perde”). Já os provérbios e ditados espanhóis são sempre empreendedores e orgulhosos (“mais vale ser a cauda do leão do que o nariz do rato”).

Outro ponto interessante diz respeito à tão famosa mitologia grega que, no fundo, não era mais do que um conjunto de lendas (histórias que se contavam sem garantia de veracidade dos factos) que criavam a moral do povo: as leis informais por que se deveria reger uma sociedade e a conduta dos seus elementos.

Sucede que todo o anterior conjunto de dados e conselhos faz pensar numa determinada ciência... a Psicologia! Trata-se de uma ciência humana relativamente recente. O seu “nascimento” científico data de 1879, quando o alemão Wundt criou, em Leipzig, o primeiro laboratório de Psicologia Experimental. Desde aí, até aos nossos dias, esta ciência desenvolveu-se, “amadureceu” com vários contributos e expandiu-se em várias áreas e correntes. A Psicologia está presente, de forma cultural e contextualizada, na moral desde sempre.
A base da Psicologia poderá ser encontrada nos provérbios e ditados populares, mas não ousemos duvidar da superior riqueza e abrangência destes. Provavelmente, somos obrigados a incluir no “pote” científico, para além da Psicologia, também a Antropologia e a Sociologia, pois há grandes diferenças de cultura para cultura, de sociedade para sociedade, mesmo de país para país, com variações ao longo do tempo e espaço da História.

Em suma, tudo poderá fazer parte de uma grande ciência que sempre existiu e apenas se passou a documentar e reproduzir, via ensino: o conhecimento acumulado, o senso comum, enfim, a experiência da(s) vida(s)! Outras expressões, palavras ou termos mais ou menos técnicos poderiam caracterizar estas “coisas”.

Enfim, segundo este ponto de vista, no que à Psicologia e à sua fatia de conhecimento diz respeito, poderíamos afirmar que esta, afinal, sempre existiu, apenas se racionalizou e modernizou, provavelmente, no último século.

Porém, dado que a moral (expressa nos provérbios e ditados populares) varia de cultura para cultura, ao basearmo-nos apenas nestes registos e tradições, teríamos meramente pequenas psicologias culturais, de diferentes nacionalidades espartilhadas e dispersas, provavelmente passando ao lado dos pontos transversais do Ser Humano... Enfim, a Psicologia não é só conhecimento de vida adquirido e acumulado também nos provérbios, ditados ou saberes populares: é também algo mais.


vascoespinhalotero@hotmail.com
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