sexta-feira, 8 de maio de 2009

CONSEQUÊNCIAS DE LONGO PRAZO DO “NIM” (1ª parte)

Há assuntos sociais, económicos e culturais mais “complicados” que os líderes e camadas dirigentes no geral no nosso país não conseguem retirar do “nim”, justificando que, para estes casos, é preciso um amplo e profundo debate na sociedade e conveniente consciencialização das massas. Mas o que é certo é que depois fecham desde início a porta a esse mesmo debate!

É preciso ter presente que a consciência social, que resiste à demagogia e populismo, leva o seu tempo para conquistar uma esmagadora maioria da população. No entanto, se os líderes vestirem a camisola neste esclarecimento e derem a cara para o fazer (afinal de contas, isso é a essência da política e da cidadania) as coisas revelam-se mais fáceis e mais rápidas. É que as coisas não se mudam por milagre, é preciso trabalhar para isso!

Porém, no nosso sistema político, onde dois partidos têm partilhado todas as linhas de base de decisões nas últimas décadas, mesmo com o “barco a afundar”, ninguém quer tocar nas potenciais soluções para os problemas estruturais.

Nesta nata (com honrosas, mas impotentes excepções) quase ninguém quer “dar o corpo às balas” no que respeita a debater estes temas de fundo com visão abrangente, plural e com conclusões corajosas e consensuais para aplicar na prática. E porquê? Pois há investimentos de “grupos ou empresas amigas” a proteger, há eleições a ganhar e, para este remoinho continuar, há que garantir também os votos dos mais conservadores, menos esclarecidos ou de mais difícil esclarecimento…

Ora, isto não é novidade nenhuma, todo o cidadão comum comenta entre-dentes sobre este ciclo vicioso em que nos metermos, mas a reacção que se tem até ao momento é de encolher os ombros, dizer que se calhar tem de ser assim ou que até podia ser pior… E por aqui vamos ficando. Mas quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga e há cada vez mais reacções violentas e aparentemente sem causa no momento muito forte: parece que vamos guardando as frustrações para dentro, para dentro, até explodir com um mínimo arranhão!

É que cada vez mais os portugueses não têm tempo nem paciência para más e dispendiosas decisões ou não-decisões, recusas em ouvir outras opiniões e soluções, aparências, “novo riquismo”, “chico espertismo”, fecho de olhos legais, compadrios à descarada, etc. Está tudo farto disto! E continua-se a dizer “nim” aos tais assuntos sociais, económicos e culturais “complicados”…

É como se estivesse um cruzeiro a afundar e a tripulação estivesse cobrar dinheiro aos passageiros para melhorar a pintura dos candeeiros da sala de chá, não querendo ouvir nada sobre fazer algo para evitar o naufrágio e garantir a sobrevivência de todos!

Enfim, estas questões vão passando de geração em geração, nada se esclarece, nada se decide, nada se evolui verdadeiramente, sendo os que tomam as decisões continuam a ser os mesmos e influenciados pelos mesmos e diz-se que não há alternativas… Como é possível? Quando os esclarecimentos, discussões abertas e soluções para problemas estruturais sempre estiveram disponíveis no nosso país!

Não nos digam que não há soluções e alternativas! Jamais! E nem todas vêm sequer de partidos políticos, há também movimentos de cidadãos e associações com propostas credíveis! Basta ver o programa de televisão “Prós e Contras”! Porém, essas propostas alternativas foram e são olhadas por quem manipula o poder com desconfiança, preconceito, rótulo, gozo e tom de ridículo…

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional
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quinta-feira, 9 de abril de 2009

CÁ SE VAI ANDANDO…

Numa altura em que, neste ano de 2009, se vislumbram, no horizonte três eleições, vale a pena reflectir à distância sobre o que já nos acostumamos a ver nestes momentos.

O que assistimos, desde há um bons anos a esta parte, quando chega à altura das eleições, é um desfile de slogans pomposos, fotografias de estado, outdoors de milhares de centímetros/euros, bandeirinhas coloridas de cores sempre renovadas, autocarros recheados de gente ansiosa pela jantarada e concerto de música pimba para animar a malta antes da seca do discurso do político… É certo que nem sempre é assim, mas quanto mais se aproxima a data de ir visitar as urnas, infelizmente, mais comum se torna.

Chamar a tudo isto campanha eleitoral num sistema democrático chega a parecer anedótico… Mas o que é certo é que na hora H funciona! A população entra num estado de alienação, extremismo “clubístico-partidário” exaltado (com direito a claques dos jotas) e esquecimento pela dura realidade do dia-a-dia, só comparável a quando o país pára para ver um derby da bola.
Tudo parece acontecer! Tudo? Não, o debate de propostas concretas cada vez fica mais fora de moda… Quando algum líder político se atreve genuinamente a lançar estas questões, logo surge algum director profissional de campanha que lhe diz baixinho que, assim, afasta potenciais consumidores, perdão, eleitores.
Discutir planos de longo prazo, medidas de base para problemas estruturais e opiniões sobre assuntos mais “complicados” não rendem brilhantes destaques de Telejornal e podem custar descidas nas sondagens. O que é preciso é que o marketing da imagem dos candidatos seja “plasticamente” bem feito. E como “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, o político de intenções genuínas lá acaba por ceder ai director profissional de campanha… De repente, já se acha tudo natural, é assim, tem que ser e por aí fora. Enfim, pensa-se cada vez mais que “essas coisas do que é para fazer ficam para depois das eleições”.

E o que acontece quando acaba a festança, perdão, a campanha das eleições? Volta-se à rotina… As pessoas queixam-se, lamentam-se, gritam… “Despejam o saco” no vizinho que os tem que ouvir (ou aturar…) e vão para casa mais aliviadas por supostamente mostrarem a sua coragem e indignação. “A mim ninguém me cala”, embora só a muito custo consigam vislumbrar propostas alternativas concretas… Alias, muitas vezes, a conversa não tem sequer final construtivo… Porém, quando chegam as eleições, ninguém os ouve … Ou, por vezes, em incoerência-mor, até se ouvem, mas sim a elogiar, empunhando uma bandeirinha ou envergando um crachá, aqueles que apresentaram propostas contra as quais resmungam todos os dias… Pena sim de quem os tem que aturar depois no normal dia-a-dia…

Outros tentam fazer-se ouvir, manifestam-se e apresentam propostas alternativas. Propostas estas que são, sem serem analisadas, à partida ignoradas ou desacreditadas e por quem? Precisamente pelos que apenas se queixam, lamentam, gritam, resmungam sem final construtivo… E estimulados por quem?

Em boa parte, pela tal comunicação social que só aborda os temas “ao de leve”, preferindo o sensacionalismo do caso a caso, transmitindo a sensação de que não há propostas alternativas aos problemas que o país atravessa. Empurra, para um cantinho escondido de destaque, as soluções apresentadas por outros partidos ou movimentos de cidadãos (pois não é necessário pertencer a um partido para ter propostas concretas para a sociedade)... Porquê? Por que não trazem polémica por si só, espectáculo, audiências, contratos publicitários, lucros…

E a quem é que este ciclo de “não faz, nem deixa fazer” dá jeito?... Talvez às elites económicas dos grandes bancos, especuladores, seguros, imobiliárias, construtoras, companhias energéticas, entre outros que nunca estiveram, estão e estarão interessadas em ouvir e perder o seu poder e, acima de tudo, os seus lucros, quer haja crise, quer não.

Diz-se que, hoje em dia, temos liberdade, mas sem igualdade de oportunidades esta valerá, só por si, assim tanto? Sem a garantia de que se é pelo menos ouvido, de que serve falar, queixar, lamentar, gritar, resmungar ou mesmo manifestar construtivamente?

Se, como vimos, a nossa actual democracia é o que é e a nossa actual liberdade vale o que vale, em que é que estamos, afinal, assim tão diferentes de outros regimes com imagem mais rígida? Enfim, como dizia uma célebre canção de Sérgio Godinho, cá se vai andando com a cabeça nas orelhas…

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional
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segunda-feira, 16 de março de 2009

COMUNICAÇÃO SOCIAL SENSACIONALISTA: FORMA OU (DES)INFORMA?

Para os que viveram as realidades do antigamente e para os que, hoje em dia, assistem a um qualquer documentário sobre História, parece ou parecia mais fácil ver o que naqueles tempos era um ditadura ou uma democracia, onde estava a censura ou a liberdade.

Actualmente, é tudo mais “nublado”. O poder da comunicação social e do marketing, tornou-se na nova e sofisticada máquina de propaganda. Dominada por grupos económicos, que apenas lutam pela sua sobrevivência e lucro e não o serviço público ou cidadania (porventura, assim iriam perder clientes), esta máquina adormeceu a opinião crítica e construtiva das pessoas. Mistura-se jornalismo, cidadania e educação com lucros, famosos e audiências… coisa boa não pode dar.

Só quando uma grave crise económica nos bate à porta e ao bolso é que as pessoas despertam, sem, infelizmente, procurarem as causas, as opções e os interesses que contribuíram para tudo isto.

Não será no mínimo estranho andarem bancos, companhias de seguros, especuladores e companhia limitada, desde há uns bons anos, a terem lucros estratosféricos (os seus administradores que o digam…) e agora, de repente, toda a gente fala da crise financeira como se fosse uma inesperada peste negra?

Sim, diz-se que simplesmente aconteceu, como poderia ter acontecido a queda de um meteorito… Foi um azar, dizem… Dizem, quem? Ah! A comunicação social…

A tal máquina que tem como simples propósito, consciente ou inconsciente (por vezes, os seus funcionários não têm noção do papel que realmente estão a desempenhar…), apoiar quem lhe dá lucros. Um famoso ditador disse um dia: quanto maior for a mentira, mais gente acreditará nela.

Esta máquina de propaganda facilmente se apoia na demagogia populista e paternalista para com o “zé povinho”, na dependência do sensacionalismo das notícias que só nos fazem abrir a boca de espanto e não reflectir numa opinião informada, na mesquinha “cusquice” pelos vazios assuntos da bola e das revistas cor-de-rosa, na imposição de somente as ideias, serviços ou produtos economicamente rentáveis para algumas gigantescas corporações multi-nacionais.

Para um cidadão se informar, conhecer e poder desenvolver uma opinião própria rica e sustentada numa análise longa quer do passado, quer do futuro, é necessário ir mais além do que as normais fontes de informação. Ou, pelo menos, é necessário receber com espírito crítico e questionador qualquer registo que nos seja apresentado num qualquer noticiário.

Qualquer “Telejornal” deve ser visto apenas como um ponto de partida para debates e trocas de opiniões, até ao ponto de estarmos seguros de poder, aí sim, ter a nossa.

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A PARTE DIFÍCIL PARA SE SER SINCERO E JUSTO E PARA O SEREM PARA CONNOSCO…

Já aconteceu a qualquer pessoa: ter que comunicar a alguém uma falha, um defeito, um erro ou simplesmente algo de que não gostamos ou que foi mal feito por um amigo, um colega de trabalho ou mesmo um estranho.

Por um lado, surge a situação de quem tem de apontar o erro e contar a quem o fez da sua existência. Existe sempre algum desconforto e receio de ferir sentimentos. Afinal somos pessoas e não robots sem emoções. Acontecem hesitações, mesmo com a melhor das intenções, de provocar ressentimentos, pelo risco de se virarem contra quem sinaliza o erro. Ninguém quer ser apontado como “fiscal”, “bufo” ou “queixinhas”, mesmo no caso de se falar com a pessoa visada em primeira-mão e não soltar a informação pelos corredores dos boatos… Concerteza já qualquer pessoa teve que lidar com este dilema: como dizer aquela pessoa que errou? E se que esta leva a mal?

Ora, talvez seja útil colocarmo-nos no papel da outra pessoa. Quando nos reportam um erro que cometemos, essa verdade é dura, mas está lá. Não lhe podemos fugir eternamente e teremos que a enfrentar mais dia, menos dia, de uma forma ou de outra.... Porém, não gostamos, com razão, que essa descoberta seja publicitada como grande conquista por quem a sinalizou.

Podemos, sem dúvida, preferir que sejamos nós mesmos a dar conta dos nossos erros, de forma a, de imediato, os podermos emendar ou remendar, porém somos humanos e, por mais perspicácia, valor, técnica ou poder de análise que tenha uma pessoa, é humanamente impossível estar preparado para detectar todos os erros.

O que é certo é que, no fundo e no limite, todo o ser humano procura a verdade. Assim sendo, a solução poderá passar por pensar em como gostaríamos que nos comunicassem um erro que fizemos.

E o que pode fazer quem é acusado para aliviar o desconforto da situação? Preparar-se para enfrentar a sinalização de um erro cometido por si. Independentemente do erro, a reacção pode dar-se de várias formas: negar até à exaustão, acusar a outra pessoa de má fé, colocar o foco das culpas para outro lado, reconhecer, gerar soluções, etc. Cabe ao próprio escolher.

Uma equipa de trabalho de sucesso geralmente possui facilidade de diálogo, franqueza e abertura à mudança e à melhoria. Aqui é fundamental que cada elemento que receba a sinalização de um erro cometido por si, consiga ouvir, debater argumentos e reconhecer os pontos em que não tem razão (existem sempre, assim como os inversos). Para além de procurar conselhos sobre sugestões de melhoria e pensar conjuntamente em formas de o erro não se repetir no futuro.

No fundo, é imprescindível garantir que se constrói algo ali, que se ganhou qualquer coisa com aquele debate, que algo depois se passou a fazer de maneira diferente do que se fazia (relativamente ao erro).

Nestas situações é certinho que alguma coisa muda. Assim, o desafio é que mude de forma construtiva e para melhor! Para isso é vital que os líderes, gestores ou moderadores se agarrem construtivamente, com “unhas e dentes“, a factos e a conteúdos fundamentados. Se isso não suceder as pessoas fecham-se, confundem sinalização de erros com acusações e, assim sendo, passam a não querer “acusar” (se não forem acusados), nem admitem ser “acusados” (visto que não acusaram antes).

Quem não arrisca, pode errar menos vezes, porém os erros que cometer serão constante e inevitavelmente sempre os mesmos erros… Se é humanamente impossível nunca cometer um erro, já podemos esperar não cometer sempre os mesmos, sendo sinal de evolução.

Quem arrisca, quem inova, também cometerá erros, mas estes advirão de desafios e da procura permanente de resolução de problemas. Assim se aprendem coisas novas, se evoluem em mais campos e nos tornarmos mais completos e maduros.

Se dois erros não fazem um acerto… também é certo que quem não arrisca, não petisca… e quem não tem medo de errar, muito mais que outros aprenderá!

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

QUAL A LEGITIMIDADE DA DISCIPLINA DE VOTO PARTIDÁRIA? (II)

Nas eleições legislativas, nós, cidadãos, votamos em deputados individualmente para nos representarem. Embora estejam, naturalmente, comprometidos com o programa eleitoral consensual do partido a que pertencem, tudo o resto cabe ao seu juízo de consciência. Ou seja, aqui entram os valores que cada um defende para a sociedade enquanto cidadão eleito para pensar pela sua cabeça!

Nesta perspectiva, seria, portanto, óbvio, legítimo e legal que qualquer deputado exercesse o seu direito de voto na Assembleia da República segundo as suas opiniões sobre cada tema. No entanto, surge o choque com a realidade: disciplina de voto implementada pela direcção de uma banca que impede os seus deputados de votar consoante as suas reais convicções.

Adoptando uma postura um pouco mais compreensiva, poderíamos até respeitar as posições consensuais dos partidos, se estes as debatessem real e abertamente nos seus congressos, coisa que não acontece, servindo apenas para agitar bandeiras quando dão as 20 horas de horário nobre de televisão...

Correndo o risco de ser algo redutor: faz algum sentido, num país com um sistema supostamente democrático, que um deputado seja obrigado a votar “não” quando a sua opinião é “sim”? Gostaria de saber se os deputados socialistas (assim como de qualquer outro partido) que deliberada e conscientemente ignoraram a ordem de disciplina partidária vão ou podem vir a ser punidos…

Como é possível um político manter-se íntegro e sincero nos valores em que acredita quando é assim manipulado com um simples fantoche? Quem é que aguenta? Se calhar ninguém!... Assim se afastam cidadãos que poderiam trazer verdade e transparência à política. Já os que aguentam e ficam tornam-se iguais ou mesmo piores dos que os manipulam: elevando os patamares da arte da hipocrisia, demagogia e politiquice cor-de-rosa. É que só assim conseguem sobreviver nesta selva de interesses descarados…

Concluindo, certamente que nós, cidadãos, não votamos para que o deputado que nos representa a nossa zona geográfica seja um “Maria vai com as outras” que levanta o braço como um robot, se os colegas o acordarem da sesta; que lê o jornal desportivo na “seca” dos debates, murmurando que “o que era bom eram uns seis mesitos sem democracia”; que, quando um seu colega fala ao microfone, repete com ar sério até à exaustão, qual canção de infância, “Muito bem, muito bem!”; que “pica o ponto do dia” e vai à sua vida pré-eleitoral, baldando-se a comissões e inquéritos; que à sexta-feira vai mais cedo de fim-de-semana algaraviado logo a seguir a aprovar decisões para o resto da população apertar o cinto e trabalhar “como deve ser” (semana das 65 horas, congelamento de salários, facilitismo na obtenção anos de escolaridade, ordenados chorudos de grandes cargos de confiança política, salvação de bancos de multimilionários em risco, etc).

Às vezes, mete dó reparar nas excursões escolares de crianças que vão à Assembleia da República ver estes tristes exemplos, para quando os miúdos forem grandes… serem iguais a eles?

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional
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QUAL A LEGITIMIDADE DA DISCIPLINA DE VOTO PARTIDÁRIA? (I)

Recentemente foi apresentada, para votação na Assembleia da República, uma proposta que defendia a legalização dos casamentos entre casais homossexuais, suscitando a questão da legitimidade da chamada disciplina de voto dentro dos partidos.

Esta proposta foi chumbada com votos contra da maioria das bancadas parlamentares do PS, PSD e CDS/PP. Houve, no entanto, votos favoráveis apresentados por alguns deputados das primeiras duas bancadas, sendo que, no caso do PSD, a liberdade de voto foi decidida. Já no caso da bancada socialista imperou a então chamada disciplina de voto.

Este último ponto constitui-se num episódio caricato e, a meu ver, grave. Segundo consta, pelo destaque que foi dado por alguma comunicação social, dentro da bancada do Partido Socialista, existiu acesa discussão, visto vários deputados terem opiniões distintas sobre a matéria a ser votada na Assembleia da República.

Foi decidido pela direcção daquela bancada que existiria disciplina de voto, reprovando a proposta apresentada e apoiada pelos partidos à esquerda do PS. Esta posição impediu, consequentemente, qualquer deputado de ter uma votação diferente, mesmo que a sua opinião não fosse aquela.

Foi definida apenas uma excepção, sustentada em critérios mal explicados, para o presidente de Juventude Socialista (organização que defende esta matéria há alguns anos, como inclusivamente chegou a constar no programa político de uma das legislaturas do então primeiro-ministro socialista Eng.º António Guterres).

Ora, acontece que, nas eleições legislativas, cada eleitor vota, não para eleger um primeiro-ministro, não para eleger uma bancada partidária, mas sim para escolher o deputado que entende melhor poder representar a sua região (no nosso caso Coimbra) na Assembleia da República, constituindo, desta forma, uma amostra representativa da população portuguesa.

Portanto, quando votamos nesse deputado temos (ou teríamos…) de ter em conta as suas opiniões próprias e não a sua mera subjugação à vontade da direcção do partido a que pertence (embora eu duvide que muita gente, na qual me incluo, saiba o nome dos deputados eleitos que representam a nossa região).

No entanto, se assim não fosse assim, bastaria estar na Assembleia da República um deputado por cada partido, possuindo uma ponderação de voto diferenciada, conforme as percentagens obtidas nas eleições, em vez de todo o grupo representativo de cada uma das regiões portuguesas! Ora, isto não é obviamente o que está previsto no nosso sistema democrático…

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional
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terça-feira, 16 de dezembro de 2008

ESCLARECER PELO DIREITO A SEREM FELIZES

É curioso quando ouvirmos dizer, em tom de verdade absoluta e fatalista, que as pessoas não querem ou não conseguem digerir mudanças de mentalidades (quando o assunto é demagogicamente “complicado”), adoptando quem assim o entende uma postura paternalista do povo, infantilizando as pessoas e legitimando a “preguiça” no seu esclarecimento.

Consequência desta atitude simultaneamente atemorizadora e medrosa, há assuntos que são apresentados à opinião pública de uma forma quase já previamente assustadora, refugiando-se depois o tema, por enquanto, numa questão técnica ou seja ainda não digna de debate aberto e popular ao comum dos mortais.

Assuntos como casamento entre casais homossexuais, aborto, eutanásia, nacionalizações na década de 70, entre outros foram ou são recebidos pela classe política do centro com um imediato torcer de nariz por não se entender ou por não se querer entender ou por receio que a maioria das pessoas não entenda e se vire contra quem quis esclarecer e falar abertamente. Enfim, tem-se medo de perder votos das camadas mais conservadoras e/ou mal esclarecidas nas próximas eleições…

E vai-se dizendo “nim” ou seja que é preciso um amplo e profundo debate na sociedade e conveniente consciencialização das massas (devo dizer que um eficaz meio para fazer este debate tem sido representado pelo brilhante programa de televisão de serviço público “Prós e Contras”).
Ora, é natural que as camadas abaladas nos seus privilégios ou crenças gritem de forma indignada o suposto ritmo acelerado das mudanças, acima de tudo, de mentalidades. E este facto aliados ao “nim” de muita gente influente e que se apresenta como “moderada” resulta no “fica tudo na mesma”.

Sucede então que a vontade dos chamados “moderados” é certamente contra a vontade de muitos deles, aproveitada e explorada com êxito por quem quer apenas obstruir no direito pela igualdade de tratamento e oportunidades. As consequências disso mesmo estão à vista hoje em dia, sobretudo para as camadas mais desfavorecidas da população e para o progresso social do país.

Simplesmente o atraso da consciência social não nos deveria “congelar”, numa altura em que estas temáticas já há algum tempo foram abordadas e decididas noutros países que podemos considerar como mais desenvolvidos, como a vizinha Espanha. Não devíamos considerar esse atraso de um modo estático, paralisante, fatal, mas antes levar-nos a intensificar as tentativas de consciencialização e esclarecimento da sociedade portuguesa.

Concluindo: a diferença está na forma como é encarado o atraso da consciência social. Os “moderados” consideram-no quase fatalisticamente como obstáculo às transformações pelos direitos humanos e pela igualdade de tratamento e de oportunidades para qualquer cidadão.

Outros querem declaradamente reforçar esses atrasos e desconhecimentos atemorizados e/ou conservadores (entre estes estão concerteza muitos supostos “moderados”).

Mas há quem veja o atraso da consciência social como um desafio à nossa capacidade mobilizadora e esclarecedora sobre estes e muitos outros assuntos. Também no caso do casamento entre casais homossexuais, há que esclarecer pelo direito a serem felizes…

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional