segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A VERDADEIRA DEMOCRACIA DE IDEIAS

Na sua essência, a democracia consiste em que as pessoas livremente possam votar nas ideias ou posições que defendem. Ou será antes nas pessoas? Ou, aliás, nas pessoas cuja imagem nos atrai e que, por isso, julgamos conhecer e poder confiar?

Se acreditamos na segunda opção, então, sem conhecer as propostas dos programas políticos, como se a política fosse como o futebol em que cada um torce pelo seu desde pequenino, apostar-se-á apenas no candidato com o aspecto físico mais “confiável” (de entre os dois em geral apresentados pelos dois únicos partidos que normalmente ganham as eleições)?

Isto é, sem sabermos concretamente se concordamos com as suas futuras propostas de lei, passamos um “cheque em branco” a todo um programa político apenas pelos “bonitos olhos” de um mero actor político?

No fundo, carimbamos o passaporte por supostamente não haver alternativas (às propostas de modelo único que a comunicação social nos apresenta…) e, mais provavelmente, por que o marketing da imagem dos candidatos alternativos não ser tão “plasticamente” bem feito?...
Será isto votar em democracia?...

Na minha opinião, talvez um pouco utópica, a verdadeira democracia só se pode fazer se o cidadão puder votar, não em pessoas, mas sim nas ideias com as quais concorda. Ou seja, para mim cada partido deveria ter que apresentar uma lista de posições muito claras sobre várias matérias, sendo todas estas colocadas no boletim de voto e seria o cidadão a votar nas ideias que pretendia, independentemente de onde elas viessem.

O cidadão votaria nas ideias ou, se quiserem, nas propostas concretas e não nos partidos ou caras mais ou menos maquilhadas… Uma espécie de cardápio ou menu ao estilo do que consultamos quando vamos a um restaurante e de entre as várias ofertas escolhemos um prato principal, uma sobremesa e uma bebida.

Até porque um cidadão pode apreciar certas propostas de um partido, mas também outras de um movimento diverso ou outras ainda de autores diferentes! Mas esse conjunto é que é o seu voto e não apenas a cruz num partido! Desta forma, seria, assim, defendida a opinião real do cidadão na sua variedade de pareceres sobre várias matérias.

É certo que existiria sempre o perigo do uso da demagogia e do populismo nas discussões para ganhar votos “robot” criando, para cada grande matéria, rótulos fáceis de decorar e de “meter” na cabeça dos eleitores com menos paciência para comparar argumentos sobre as várias opções. Mas estes truques de retórica feirante já são utilizados actualmente… E só com o debate aprofundado e sério sobre os temas essas tácticas são desmascaradas, sendo que, numa democracia de ideias, essa discussão seria inevitável.

É claro que, adoptando uma postura mais paternalmente realista, é fácil pensarmos que as pessoas não estão preparadas para isto e que não querem saber de discussões a sério sobre as várias matérias. Neste ponto de vista, bastaria olhar para o actual sistema de votação com os seus altos níveis de abstenção e poderíamos pensar que, numa democracia de ideias, com listagens de propostas no lugar da mera lista de partidos para pôr a cruzinha, a coisa seria ainda pior…

No entanto, lembremo-nos que também antes do 25 de Abril a democracia era acusada de ser perda de tempo, pois teríamos um conjunto de sábios, com cultura superior ao comum povo, que governava o país… Por outro lado, é necessário ver as causas da elevada abstenção, algo a que as trocas de bocas, amuos e desvios de conversa nos debates políticos não são alheios…

O que é que isto implicaria? Que as campanhas eleitorais se focassem no debate dessas mesmas posições sobre essas matérias, verdadeiros esclarecimentos muito claros e acessíveis à maioria dos cidadãos (independentemente da idade, formação ou cultura, pois cada voto é um voto), ao jeito do programa televisivo “Prós e Contras”.

Implicaria cidadãos forçosamente mais informados ou pelo menos a tentarem informar-se. Imaginem o que seriam umas eleições em que os cidadãos estão tão esclarecidos e seguros da sua opinião como, actualmente, estão sobre as novelas da moda, futebol, revistas cor-de-rosa, crimes e dramas de “faca e alguidar”! Se assim fosse concerteza não estaríamos na cauda da Europa…

E como seria tudo isto possível? Apenas com uma forte aposta na educação de qualidade, pública e gratuita, ou seja, de grande nível e para todos, gerando igualdade de oportunidades e liberdade efectiva, deixando depois ao cuidado de cada cidadão o rumo da sua vida.

Para este sonho poder ser concretizado num projecto de longo prazo concreto, seria imprescindível valorizar e proteger as figuras que, juntamente com o resto dos funcionários públicos, mais denegridas e fragilizadas têm sido: os professores.

Na minha opinião, todo este conceito é sim a democracia (de debate de ideias e não de marketing de caras). Utopia dirão muitos com um sorriso no rosto…

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional
Leia todos os artigos na Internet em: www.dosonhoaoprojecto.blogspot.com

sexta-feira, 24 de julho de 2009

PARA MOTIVAR NO DIA-A-DIA DE TRABALHO BASTA O DINHEIRO?

Muitas vezes, no mundo do trabalho, ouvimos, nos corredores de uma qualquer organização, debates “entre-dentes”, pouco aprofundados e até, porventura e infelizmente, mal informados e/ou esclarecidos.

Nestas conversas da hora do cafezinho são decretadas verdadeiras sentenças, com aparente validade fundamentada, que ultrapassam em força informal e popular qualquer discussão ou reunião concreta ou oficial.

Em grande medida, neste tipo de ambiente quem está há mais tempo na casa tem mais tempo de antena e as suas conclusões (mesmo as mais descabidas) raramente são refutadas, pois “já andam aqui há muitos anos”…

Enquanto os temas de tertúlia se centram nas telenovelas, notícias cor-de-rosa ou futebol surgem sorrisos compreensivos e comentários que só algum fervor clubista pode aquecer… Porém, quando alguém passa a algum tema daqueles mais a “sério”, o ambiente torna-se mais tenso. Aqui, enquanto alguns opinam com volume proporcional ao seu autoritarismo, outros sorriem com lábios que teimam em tremer, enquanto outros ainda preferem fingir não ouvir, até que alguém se atreve a refutar…

Geralmente, por mais assertivo, civilizado ou respeitador que se seja, o populismo acaba por arrastar parte do público e os argumentos trocados teimam em fugir ao cerne dos temas “sérios”. Daqui ao maldizer no corredor ao lado sobre o “atrevidote” que era do contra é um passinho…

Ora, um dos tais assuntos “sérios”, que é assim sentenciado e que, por isso mesmo, talvez tenha levado o povo português a perder a sua capacidade de mobilização esclarecida e construtiva, é, sem dúvida, a falta de motivação na Função Pública. Ouve-se dizer que “faltam prémios de produtividade” para ser possível motivar, que não há outra forma…

Portanto, para fazer um “bolo” de funcionários super-motivados, numa qualquer organização pública, teríamos que usar como “ingrediente essencial” a criação de prémios de produtividade chorudos?

Mas se a “fórmula mágica” fosse assim tão básica por que é que nem todas as organizações privadas do nosso país, que aplicam esta receita, são um sucesso inquestionável? Aliás, haverá concerteza quem diga que a maioria delas funciona mais a nível da exploração do que da motivação…

Sejamos generosos e acrescentemos ainda ao “bolo” um “ingrediente surpresa”: a facilidade de despedimento de funcionários (“ingrediente” tão apregoado por tanta gente para o sector público). Porém, um sabor amargo surgiria com o facto de estar comprovado que fica mais caro despedir um trabalhador, ir buscar outro e esperar que este comece a render (normalmente leva um par de meses) do que motivar quem já lá está e conhece a casa…

Ora, é óbvio que isto não basta. Aliás, reduzir a motivação apenas ao factor económico serve frequentemente para “tirar a água do capote” a muita gente. Vou tentar explicar o meu raciocínio.

Por um lado, permite que as chefias fujam às suas responsabilidades ao nível da gestão e motivação individual e colectiva. Estes argumentos dão-lhes jeito, mais que isso, constituem um “álibi”, pois assim não se lhes pode exigir nada (“não temos condições”) e podem continuar a “gerir” mal pessoas como se fossem a isso “obrigados”…

Por outro lado, os restantes funcionários também ganham um “álibi” para poder cruzar os braços e ficar de consciência tranquila. Assim, podem justificar o seu desinteresse, “deixa andar” ou mesmo boicotar o trabalho bem feito, em jeito de suposta manifestação silenciosa contra as opções de gestão ou governamentais (talvez estes mesmos que acabam depois por votar no exactamente no mesmo Governo…).

Meus amigos, apregoar apenas como fonte de motivação o prémio de produtividade não beneficia a produtividade! Ora, no uso desta desculpa socialmente popular, tanto é culpado, por este “deixa andar”, quem lidera (porque não vê) como quem é liderado (porque não diz ao líder para ver). Eu sei que me dirão, com razão, que há líderes que, mesmo que lhes digam, não querem ver…

Mas atenção, nada de dramas ou apontares de dedo. Qualquer pessoa já ficou mais preguiçosa, molengona, acomodada, passiva ou ferrugenta no trabalho. Sejamos sinceros: já aconteceu a todos nós!

O problema é quando acontece muitas vezes e durante muito tempo até se tornar um hábito! Até perderrmos confiança nas nossas capacidades. Depois torna-se mais difícil reagir a mudanças e aí ou nos tornamos agressivos/destrutivos ou deprimimos ou… com ajuda humilde e genuína dos colegas, com gosto pelos novos desafios do trabalho que produzimos e pela noção sua importância para quem servimos… tentamos voltar ao início!

É claro que também ajudará uma política e estratégia clara e aberta de inovação com aposta na “prata da casa” como acontece em pequenas ilhas de desenvolvimento, embora não deixem de ser apenas ilhas.…

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional
Leia todos os artigos na Internet em: www.dosonhoaoprojecto.blogspot.com

sexta-feira, 26 de junho de 2009

EM DEMOCRACIA, QUEM VÊ CARAS NÃO VÊ IDEIAS

Nos dias de hoje, às vezes, ouvimos dizer “não voto nesse político, porque não vou com a cara dele”. E, quando perguntamos sobre o que se pensa acerca das ideias desse político, ouvimos “não sei de nada”.

Seguindo esta lógica, poderemos facilmente considerar como fabulosos candidatos a futuros primeiros-ministros qualquer top-model pouco dada a conversas “demais para a sua cabeça” ou galã de televisão que só sabe o que está escrito no tele-ponto…

Outras vezes, ouvimos “continuo a votar nestes, senão vêm outros e fazem ainda pior”. Nesta lógica, quem vivia na miséria ou era perseguido por algum regime ditatorial continuaria a querer que as coisas ficassem na mesma, antes que ficasse ainda pior…

Frequentemente, ouvimos as pessoas dizer que este Governo é terrível, mas que não vêem solução, porque “os da oposição não têm alternativas, aliás, são a mesma coisa e mal por mal…” Mas a que oposição se referem? A simplesmente outras caras para exactamente as mesmas decisões e prioridades? Ou de outras propostas sobre matérias sobre as quais se tenham manifestado? Se sim, que matérias? E terão mesmo conhecimento das várias propostas? Ou será que tomam as posições do Governo como as únicas que se ouve falar (na comunicação social…) e “ou essas ou nada”?

E não deveria a comunicação social prestar estas informações aos cidadãos (recusando debates apenas a dois e acomodar-se à não existência de verdadeiros debates…), assim como dá destaque às medidas do governo, como se fosse os grandes anúncios de “ou essas ou nada”?

Por que é que quem está contra uma proposta do Governo, explica porquê e apresenta uma proposta concreta alternativa apenas é “transmitido” e apresentado à população, pela comunicação social, com uma frase só, dizendo que está contra?

Assim, aparecem vagos e dispersos os artigos que se fazem nos jornais sensacionalistas ou nos noticiários televisivos! Na televisão, por exemplo, usa-se e abusa-se das notas de rodapé para dar notícias, sem explicação, entrevista e contextualização que só uma reportagem permite.
Ora, para os meios de comunicação social, que se regem pelas audiências e lucros publicitários, as reportagens só valem a pena para os “casos da vida” especialmente dramáticos (onde se prefere esmifrar a miséria do que esclarecer para as causas estruturais de todo o conjunto) ou quando há “cusquice”, “peixeirada” ou “escândalo” sem nunca ir às raízes dos problemas (torcendo até para que mais casos apareçam para aumentar o “share”). É por estas e por outras, que, hoje em dia, se generalizou o mito de que “quando há problema não ligue à polícia, mas sim à TVI”…

À primeira vista, poderíamos achar um exagero a ligação entre o decréscimo de rigor, abrangência e qualidade da comunicação social, especialmente jornais e televisões de canal aberto com mais público, e a falta de debate e de envolvimento dos cidadãos na discussão das diversas propostas (não só as do Governo) para várias matérias essenciais para o país.

Porém, depois vemos o que apenas um bom programa de televisão (“Prós e Contras”) tem feito pelo esclarecimento a sério sobre muitos assuntos, apresentando claramente as visões distintas (alguém acredita que os rumos que levaram processos como o novo aeroporto, aborto, encerramento dos serviços de urgências, entre outros seriam os mesmos sem o “Prós e Contras”?).

No entanto, é apenas um programa de serviço público no meio de tanto “fast food televisivo”… É preciso fazer mais pela discussão continuada, nos meios de comunicação social mais influentes, sobre as várias alternativas, acerca das matérias sobre as quais as pessoas “resmungam de braços caídos”, apresentadas pelos vários partidos ou outros movimentos de cidadãos (pois não é necessário pertencer a um partido para ter propostas concretas para a sociedade)!

Não seria uma boa ideia organizar, nas campanhas eleitorais, debates públicos nas praças de cada freguesia, com apresentação oral e visual (com apresentações simples em power point com limite de tempo), sonorizados de forma a que muita gente possa assistir e efectuar perguntas? Não será isto mais útil, barato e esclarecedor do que cartazes com slogans que não permitem desenvolver as ideias propostas (quando as há)? Aqui a comunicação social teria a responsabilidade de organizar e quem se recusasse a vir deixaria a cadeira vazia à frente de toda a gente…

Tudo isto nos leva ao enigma principal: será por acaso, que este mesmo Governo, que defende muitas políticas com as quais, aparentemente, a maioria não concorda, segundo as sondagens, se prepara para vencer as próximas eleições novamente com maioria absoluta?!

Então, quer dizer que a maioria das pessoas que dará a vitória ao Governo irá votar a favor precisamente das ideias contra as quais todos os dias se têm manifestado (seja em conversas de café, na rua ou “entre-dentes” enquanto vêem um “Telejornal”)?

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional
Leia todos os artigos na Internet em: www.dosonhoaoprojecto.blogspot.com

quarta-feira, 20 de maio de 2009

CONSEQUÊNCIAS DE LONGO PRAZO DO “NIM” (3ª parte)

A falta de debate interno em Portugal sobre temas estruturais (culpa da camada dirigente e dos próprios cidadãos que não “batem o pé”) vai passando de geração em geração. Nada se esclarece, nada se decide, nada se evolui verdadeiramente. Os que tomam as decisões continuam a ser os mesmos e influenciados pelos mesmos e diz-se que não há alternativas… Uns dizem mesmo Jamais!

Como é possível? Quando os esclarecimentos, discussões abertas e soluções para problemas estruturais sempre estiveram disponíveis no nosso país! E nem todas vêm sequer de partidos políticos, há também movimentos de cidadãos e associações com propostas credíveis! Não é preciso ter um cartão partidário para se ter ideias sustentadas.

Basta ver o programa de televisão “Prós e Contras”! Porém, essas propostas alternativas foram e são olhadas por quem manipula o poder com desconfiança, preconceito, rótulo, gozo e tom de ridículo…

Ora, isto não é novidade nenhuma, qualquer cidadão comum comenta entre-dentes este ciclo vicioso em que nos metemos, mas a reacção que se tem até ao momento é o encolher os ombros, dizer que se calhar tem de ser assim ou que até podia ser pior… E por aqui vamos ficando.

Mas quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga e há cada vez mais reacções violentas e, para os mais distraídos, sem causa aparente. Em jeito de retrato psicológico, parece que vamos guardando as frustrações cada vez mais para dentro, até explodir com um mínimo arranhão e assim se cometem muitas asneiras trágicas que se poderiam evitar, principalmente nos chamados bairros sociais…

É que cada vez mais os portugueses não têm tempo nem paciência para más e dispendiosas decisões ou não-decisões, recusas em ouvir outras opiniões e soluções, aparências, “novo riquismo”, “chico espertismo”, fecho de olhos legais, compadrios à descarada, etc. Está tudo farto disto! E continua-se a dizer “nim” aos tais assuntos sociais, económicos e culturais “complicados”…

É como se estivesse um cruzeiro a afundar e a tripulação estivesse cobrar dinheiro aos passageiros para melhorar a pintura dos candeeiros da sala de chá, não querendo ouvir nada sobre fazer algo para evitar o naufrágio e garantir a sobrevivência de todos!

No caso da União Europeia, esta causa foi, é e será o que for negociado entre os estados. Resta ver quem tem vindo a representar Portugal nestas mesas (se tem ouvido a sociedade verdadeiramente para chegar a posições consensuais) e a quem teremos de pedir contas quando a torneira dos fundos se fechar e ficarmos por nossa conta…
Basta lembrarmo-nos da obsessão com as estatísticas quantitativas relativamente ao pessoal com o 9º e 12º ano de escolaridade e não com a sua real qualidade e exigência, das opções tomadas quanto aos fundos europeus e os seus desvios, dos lucros da política do betão e do estado anti-educação, dos benefícios fiscais a grandes grupos e empresas estrangeiras que depois fugiram para países com mão de obra mais barata para explorar, das subidas vertiginosas do custo de vida com o Euro, das privatizações de saldo para grupos portugueses e depois estrangeiros (entre uns e outros…), da crescente degradação das condições laborais (menos direitos e mais horas de trabalho), da constante submissão ao que mandam os países mais fortes, da aposta nos grandes grupos de monopólios em detrimento das pequenas e médias empresas mais próximas dos cidadãos, etc.

Não é por acaso que a maioria dos cidadãos da Turquia não quer a adesão do seu país a este labirinto europeu que estrangula os pequenos e, consequentemente, lhes retira soberania nas suas tomadas de decisão. E sabem que exemplo tem sido dado pelos turcos para não se meterem nesta aventura ou seja neste tipo único de Europa que nos é dado a engolir? Precisamente Portugal!...

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional
Leia todos os artigos na Internet em: www.dosonhoaoprojecto.blogspot.com

sexta-feira, 8 de maio de 2009

CONSEQUÊNCIAS DE LONGO PRAZO DO “NIM” (2ª parte)

Nos tempos que correm em que supostamente os cidadãos deverão andar a reflectir sobre as questões europeias, tem sido comum reduzir-se tudo a uma de duas posições: ou se é a favor ou contra a União Europeia. Ora, pondo as coisas apenas dessa forma, se alguém disser que é contra, será imediatamente acusado de ser mal agradecido pelos generosos fundos europeus que nos têm “safado” (embora se vá depois dizendo, com voz mais baixinha, que muitos se têm perdido, devolvido ou sido mal aplicados, mas até fica aquela sensação de que falamos de ninharias…).

E pronto o debate fica por aqui, aliás sempre ficou por aqui, desde a entrada portuguesa neste grande grupo. Então mas se é só mesmo isto, para quê eleições europeias, deputados europeus, políticas europeias e todas essas supostas perdas de tempo?

Na minha opinião, a discussão deverá sim ser que tipo de Europa queremos e quais as condições e papéis de cada membro, incluindo o nosso. Perguntemos ao comum cidadão a sua opinião, depois de se puxar o assunto toda a gente tem uma com “pés e cabeça”, mas é preciso que se lhe pergunte alguma coisa concretamente, se lhe dê ouvidos e já agora real poder de decisão.

Ora, sobre estes e muitos outros assuntos de importância estrutural, dentro da nata dirigente nacional, que dirige o país desde há algumas décadas, com posições-chave sempre de acordo, há alguns que dizem que já toda a gente à partida estava e continua a estar esclarecida e de acordo… Ainda dentro deste grupo, outros dizem que são assuntos de tamanha importância e complexidade que o comum cidadão não poderá compreender e que a decisão deve ser “assumida” politicamente (desconfio que seja o sonho secreto de muitos supostos democratas com apetite pelo Antigamente…).

Há um exemplo que encaixa nas duas opções: falemos de Portugal na União Europeia. Reportando-nos às condições da nossa entrada, passando pela sua evolução e finalizando no seu futuro, a questão que devemos colocar é: alguém nos explicou e perguntou alguma coisa?
Mas atenção, a culpa também é dos próprios cidadãos, nos quais me incluo! Nós, portugueses, habituamo-nos a pensar na Europa apenas pelos fundos económicos e que o melhor é estarmos caladinhos antes que a torneira feche. O debate a sério também não existe, por causa deste mesmo jogo duplo. Enfim, nós habituámo-nos a olhar a produção nacional como fora de moda e embarcamos, mais uma vez na nossa História, no estrangeirismo sem critério (porque com critério é positivo). Sim, a culpa é também de nós próprios!

É certo que debater os tais temas de fundo com visão abrangente, plural e com conclusões corajosas e consensuais para aplicar na prática não é fácil (embora já saibamos ser possível – relembremos o volte face sobre o novo aeroporto).

No entanto, fechar subtilmente a porta a este debate desde início, dizendo o politicamente correcto “nim”, tem consequências de longo prazo que levam ao país em que estamos hoje em que parece impossível chegar a caminhos consensuais.

Mesmo com o “barco a afundar”, nesta elite de “manda-chuvas” ninguém quer tocar nas potenciais soluções para os problemas estruturais, pois não sabe mobilizar a sociedade para o debate, dado nunca lhe ter dado ouvidos, sendo que, com as eleições aí à porta, o melhor é isto andar calminho…

Não o fazem por que não sabem e também por que não querem! E porquê? Pois há investimentos de “grupos ou empresas amigas” a proteger (atente-se à nova lei de financiamento dos partidos e aos “financiamentos” que permite…) e há que garantir também os votos dos mais conservadores, menos esclarecidos ou de mais difícil esclarecimento…

E quais as consequências de longo prazos destes “nins” ao debate com a sociedade? Fica tudo na mesma ou pior ainda…

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional
Leia todos os artigos na Internet em: www.dosonhoaoprojecto.blogspot.com

CONSEQUÊNCIAS DE LONGO PRAZO DO “NIM” (1ª parte)

Há assuntos sociais, económicos e culturais mais “complicados” que os líderes e camadas dirigentes no geral no nosso país não conseguem retirar do “nim”, justificando que, para estes casos, é preciso um amplo e profundo debate na sociedade e conveniente consciencialização das massas. Mas o que é certo é que depois fecham desde início a porta a esse mesmo debate!

É preciso ter presente que a consciência social, que resiste à demagogia e populismo, leva o seu tempo para conquistar uma esmagadora maioria da população. No entanto, se os líderes vestirem a camisola neste esclarecimento e derem a cara para o fazer (afinal de contas, isso é a essência da política e da cidadania) as coisas revelam-se mais fáceis e mais rápidas. É que as coisas não se mudam por milagre, é preciso trabalhar para isso!

Porém, no nosso sistema político, onde dois partidos têm partilhado todas as linhas de base de decisões nas últimas décadas, mesmo com o “barco a afundar”, ninguém quer tocar nas potenciais soluções para os problemas estruturais.

Nesta nata (com honrosas, mas impotentes excepções) quase ninguém quer “dar o corpo às balas” no que respeita a debater estes temas de fundo com visão abrangente, plural e com conclusões corajosas e consensuais para aplicar na prática. E porquê? Pois há investimentos de “grupos ou empresas amigas” a proteger, há eleições a ganhar e, para este remoinho continuar, há que garantir também os votos dos mais conservadores, menos esclarecidos ou de mais difícil esclarecimento…

Ora, isto não é novidade nenhuma, todo o cidadão comum comenta entre-dentes sobre este ciclo vicioso em que nos metermos, mas a reacção que se tem até ao momento é de encolher os ombros, dizer que se calhar tem de ser assim ou que até podia ser pior… E por aqui vamos ficando. Mas quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga e há cada vez mais reacções violentas e aparentemente sem causa no momento muito forte: parece que vamos guardando as frustrações para dentro, para dentro, até explodir com um mínimo arranhão!

É que cada vez mais os portugueses não têm tempo nem paciência para más e dispendiosas decisões ou não-decisões, recusas em ouvir outras opiniões e soluções, aparências, “novo riquismo”, “chico espertismo”, fecho de olhos legais, compadrios à descarada, etc. Está tudo farto disto! E continua-se a dizer “nim” aos tais assuntos sociais, económicos e culturais “complicados”…

É como se estivesse um cruzeiro a afundar e a tripulação estivesse cobrar dinheiro aos passageiros para melhorar a pintura dos candeeiros da sala de chá, não querendo ouvir nada sobre fazer algo para evitar o naufrágio e garantir a sobrevivência de todos!

Enfim, estas questões vão passando de geração em geração, nada se esclarece, nada se decide, nada se evolui verdadeiramente, sendo os que tomam as decisões continuam a ser os mesmos e influenciados pelos mesmos e diz-se que não há alternativas… Como é possível? Quando os esclarecimentos, discussões abertas e soluções para problemas estruturais sempre estiveram disponíveis no nosso país!

Não nos digam que não há soluções e alternativas! Jamais! E nem todas vêm sequer de partidos políticos, há também movimentos de cidadãos e associações com propostas credíveis! Basta ver o programa de televisão “Prós e Contras”! Porém, essas propostas alternativas foram e são olhadas por quem manipula o poder com desconfiança, preconceito, rótulo, gozo e tom de ridículo…

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional
Leia todos os artigos na Internet em: www.dosonhoaoprojecto.blogspot.com

quinta-feira, 9 de abril de 2009

CÁ SE VAI ANDANDO…

Numa altura em que, neste ano de 2009, se vislumbram, no horizonte três eleições, vale a pena reflectir à distância sobre o que já nos acostumamos a ver nestes momentos.

O que assistimos, desde há um bons anos a esta parte, quando chega à altura das eleições, é um desfile de slogans pomposos, fotografias de estado, outdoors de milhares de centímetros/euros, bandeirinhas coloridas de cores sempre renovadas, autocarros recheados de gente ansiosa pela jantarada e concerto de música pimba para animar a malta antes da seca do discurso do político… É certo que nem sempre é assim, mas quanto mais se aproxima a data de ir visitar as urnas, infelizmente, mais comum se torna.

Chamar a tudo isto campanha eleitoral num sistema democrático chega a parecer anedótico… Mas o que é certo é que na hora H funciona! A população entra num estado de alienação, extremismo “clubístico-partidário” exaltado (com direito a claques dos jotas) e esquecimento pela dura realidade do dia-a-dia, só comparável a quando o país pára para ver um derby da bola.
Tudo parece acontecer! Tudo? Não, o debate de propostas concretas cada vez fica mais fora de moda… Quando algum líder político se atreve genuinamente a lançar estas questões, logo surge algum director profissional de campanha que lhe diz baixinho que, assim, afasta potenciais consumidores, perdão, eleitores.
Discutir planos de longo prazo, medidas de base para problemas estruturais e opiniões sobre assuntos mais “complicados” não rendem brilhantes destaques de Telejornal e podem custar descidas nas sondagens. O que é preciso é que o marketing da imagem dos candidatos seja “plasticamente” bem feito. E como “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, o político de intenções genuínas lá acaba por ceder ai director profissional de campanha… De repente, já se acha tudo natural, é assim, tem que ser e por aí fora. Enfim, pensa-se cada vez mais que “essas coisas do que é para fazer ficam para depois das eleições”.

E o que acontece quando acaba a festança, perdão, a campanha das eleições? Volta-se à rotina… As pessoas queixam-se, lamentam-se, gritam… “Despejam o saco” no vizinho que os tem que ouvir (ou aturar…) e vão para casa mais aliviadas por supostamente mostrarem a sua coragem e indignação. “A mim ninguém me cala”, embora só a muito custo consigam vislumbrar propostas alternativas concretas… Alias, muitas vezes, a conversa não tem sequer final construtivo… Porém, quando chegam as eleições, ninguém os ouve … Ou, por vezes, em incoerência-mor, até se ouvem, mas sim a elogiar, empunhando uma bandeirinha ou envergando um crachá, aqueles que apresentaram propostas contra as quais resmungam todos os dias… Pena sim de quem os tem que aturar depois no normal dia-a-dia…

Outros tentam fazer-se ouvir, manifestam-se e apresentam propostas alternativas. Propostas estas que são, sem serem analisadas, à partida ignoradas ou desacreditadas e por quem? Precisamente pelos que apenas se queixam, lamentam, gritam, resmungam sem final construtivo… E estimulados por quem?

Em boa parte, pela tal comunicação social que só aborda os temas “ao de leve”, preferindo o sensacionalismo do caso a caso, transmitindo a sensação de que não há propostas alternativas aos problemas que o país atravessa. Empurra, para um cantinho escondido de destaque, as soluções apresentadas por outros partidos ou movimentos de cidadãos (pois não é necessário pertencer a um partido para ter propostas concretas para a sociedade)... Porquê? Por que não trazem polémica por si só, espectáculo, audiências, contratos publicitários, lucros…

E a quem é que este ciclo de “não faz, nem deixa fazer” dá jeito?... Talvez às elites económicas dos grandes bancos, especuladores, seguros, imobiliárias, construtoras, companhias energéticas, entre outros que nunca estiveram, estão e estarão interessadas em ouvir e perder o seu poder e, acima de tudo, os seus lucros, quer haja crise, quer não.

Diz-se que, hoje em dia, temos liberdade, mas sem igualdade de oportunidades esta valerá, só por si, assim tanto? Sem a garantia de que se é pelo menos ouvido, de que serve falar, queixar, lamentar, gritar, resmungar ou mesmo manifestar construtivamente?

Se, como vimos, a nossa actual democracia é o que é e a nossa actual liberdade vale o que vale, em que é que estamos, afinal, assim tão diferentes de outros regimes com imagem mais rígida? Enfim, como dizia uma célebre canção de Sérgio Godinho, cá se vai andando com a cabeça nas orelhas…

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional
Leia todos os artigos na Internet em: www.dosonhoaoprojecto.blogspot.com