segunda-feira, 17 de junho de 2013

3. UMA PAUSA NO TEMPORAL (uma e outra perspetiva)



Há alguns meses atrás, devido a condições meteorológicas anormais que assolaram especialmente a Região Centro do nosso país, muitas áreas e populações ficaram sem luz, água, televisão, rádio, telefone fixo, telemóveis e internet durante alguns dias, nalguns casos semanas.
A precariedade da manutenção das estruturais técnicas e logísticas da nossa sociedade e/ou o poder da mãe natureza fizeram toda a gente sentir e pensar na fragilidade das condições de vida que usufruímos.
Por um lado, fez-nos pensar nas injustiças sociais em termos de acesso a recursos essenciais que permitam uma qualidade de vida da população e dos grupos económicos que com a “muleta” de políticos interessadamente obedientes reservam apenas para uma elite o que devia ser de todos.
Por outro lado, também nos permitiu dar o exemplo de como nos podemos aproximar mais uns dos outros como seres humanos. Não no sentido de intromissão ou invasão de privacidade, mas sim na perspetiva de que temos necessidades, anseios, pontos em comum, levando-nos a questionar o que será realmente mais importante nossa vida, o que nos fez/faz/fará felizes.
Seguindo esta lógica de análise, dois caminhos acabam por ser apontados a uma pessoa: lutar pelo que pensa que é justo socialmente para a comunidade/sociedade e/ou desfrutar tranquilo daquilo que na sua essência é e do que o rodeia.
Ora, tendo em conta a diferença, aparentemente grande, das emoções despoletadas nos momentos de luta social e nos momentos de desfrute pessoal, poderemos colocar a seguinte questão ou desafio: estas duas perspetivas distintas serão inconciliáveis? Serão água e azeite que não se pode/consegue misturar?
Teremos inevitavelmente que escolher um caminho ou outro se quisermos chegar a algum lado na vida? Será que quem luta por justiça se torna mais tarde chato, teimoso, intolerante, pouco aberto a novos caminhos, impossível de aturar e de acalmar? Será que quem desfruta tranquilamente se torna passivo, nada objetivo, alienado, desleixado, irresponsável, “deixa andar”, egoísta? Será possível participar em revoluções e também gostar de estar relaxado no sofá? Será isto demagógico ou coerente?
Apostar na luta pelos direitos civis (quiçá inútil…) ou numa felicidade individual (quiçá isolada…)? Este dilema remete um pouco para os estudos sobre os conceitos de Qualidade de Vida e de Felicidade. Sim, parecem ser coisas diferentes…

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional
Leia todos os artigos na Internet em: www.dosonhoaoprojecto.blogspot.com

2. UMA PAUSA NO TEMPORAL (outra perspetiva)



Há alguns meses atrás, devido a condições meteorológicas anormais que assolaram especialmente a Região Centro do nosso país, muitas áreas e populações ficaram sem luz, água, televisão, rádio, telefone fixo, telemóveis e internet durante alguns dias, nalguns casos semanas. Apesar das graves e infelizes circunstâncias, porventura, por instantes, permitiu-nos também fazer uma pausa para refletir sobre o tipo de vida que fazemos e sobre como nos habituamos a relacionar uns com os outros e com o meio envolvente.
Obviamente que naquele terrível temporal uma espécie de nó no estômago surgiu ao darmo-nos conta da dependência absoluta de vários meios para fazermos qualquer coisa, para comunicamos, para…vivermos? Houve gente que passou muito mal e pior poderia ainda ter sucedido, mas esta consciência da nossa fragilidade abriu, por momentos, uma oportunidade…
Vejamos então. Naquela altura, temas de conversa que normalmente são sempre adiados e constituem a nossa base, por um lado, de falta de planeamento, análise, conhecimento racional sobre vários temas da nossa sociedade e, por outro lado, de relacionamento/valorização/preocupação genuína emocional de uns com os outros. Por exemplo, provavelmente lembrámo-nos das tragédias das chuvas na Madeira ou do rio Mississipi em Nova Orleãs e compreendemos melhor o sofrimento daquela gente…
Indo um pouco mais longe, tivemos oportunidade para refletir sobre até que ponto as condições / bens materiais em falta (luz, água, meios de comunicação, etc) eram efetivamente fundamentais, por comparação com outros com níveis de utilidade e prazer proporcionado de facto diferentes…
Não esquecendo a base que é a liberdade individual de escolhas / gostos de cada indivíduo (desde que não prejudique outro obviamente, cada um pode gostar do que lhe apetece) podemos parar para pensar no seguinte: nesta sociedade consumista em que se gera a necessidade de ter/comprar, até que ponto ao nos termos deixado levar nesta onda não ficámos frágeis, controlados, dependentes, mais amorfos, menos humanos e… infelizes?
É certo que talvez necessitemos efetivamente de algumas coisas matérias que temos e de outras que (ainda) não temos, especialmente nesta altura de escassez financeira. Porém, talvez não necessitemos de muitas das coisas que somos levados a adquirir, afinal de contas, quem não sentiu já isso ao voltar de um super-mercado cheio de compras inúteis que não tinha planeado fazer antes de lá entrar? No entanto, com certeza que gostaríamos de ter a liberdade de escolher e não de ter de cortar à força…
Ora, naqueles dias de tempestade, estas conversas surgiram, não de modo passivo a ver os ilustres comentadores na televisão, mas sim em casa com a família, amigos, vizinhos, meros conhecidos e/ou até estranhos que não se conhecia de lado nenhum. Por alguns instantes, todos sentimos que, de facto, estávamos no mesmo barco e aí foi fácil pensar no mais importante: a vida das pessoas em primeiro lugar (o que deveria ser feito prioritariamente, como deveria ser protegida).
Este debate genuíno, embora agoniado no momento, deu-nos uma oportunidade, para dar conta que uma democracia / cidadania popular, próxima, sincera e responsável é/seria possível ou, pelo menos, mais fácil…
O que aconteceu de especial na pausa do temporal então? As pessoas puderam, precisaram e quiseram estar juntas, a falar ou a partilhar silêncios, talvez, acima de tudo, pela companhia. Para pequenas ou grandes coisas, deu-se e recebeu-se ajuda de igual para igual e sem falsas caridades, não por para parecer bem ou fazer figura, mas sim porque fazia sentido.
As pessoas comunicaram, reagiram, fizeram algo em prol de toda a gente. Sim, foram soluções de “desenrasque”, mas também houve espaço para pensar como deveriam a casa, a comunidade e a sociedade ser devidamente planeadas e geridas em conjunto e para o maior benefício possível de todos.
Claro que temos de ter noção de que aquele momento (se é que de facto aconteceu) foi um rasgo disperso, não organizado nem consequente, pois tudo passa à medida que voltamos à dita normalidade… Com o tempo, todos voltámos à nossa “vidinha”.

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional
Leia todos os artigos na Internet em: www.dosonhoaoprojecto.blogspot.com



1. UMA PAUSA NO TEMPORAL (uma perspetiva)



Há alguns meses atrás, devido a condições meteorológicas anormais que assolaram especialmente a Região Centro do nosso país, muitas áreas e populações ficaram sem luz, água, televisão, rádio, telefone fixo, telemóveis e internet durante alguns dias, nalguns casos semanas.
A precariedade da manutenção das estruturais técnicas e logísticas da nossa sociedade e/ou o poder da mãe natureza fizeram toda a gente sentir e pensar na fragilidade das condições de vida que usufruímos.
Fez-nos pensar quanto são, hoje em dia, essenciais estes recursos para uma qualidade de vida com dignidade e liberdade, aos quais terei efetivamente que juntar o acesso à saúde, à educação, à cultura.
Levou-nos a refletir também acerca da distância cada vez menor entre o não ter estas condições (momentaneamente como sucedeu com o temporal) e apenas as poder ter quando/se/quem as puder pagar…
Receio que para muitos de nós a perspetiva esteja a poucos passos de se tornar permanente, quer por motivos da vida de cada um, quer pelas regras de exclusão que estão a ser impostas pelas elites do poder mais ou menos sorrateiramente, mas de forma intencional, alegando o alibi da crise, à nossa comunidade.
Dirão alguns de forma ignorante e/ou demagógica “claro, queriam tudo à borla, não faltava mais nada”, esquecendo quem o faz que não falamos de luxos, nem de algo a que não deva ter direito quem paga os seus impostos!... Sejamos francos, os custos destas condições, oportunidades e recursos básicos têm subido a um ritmo cada vez mais veloz e parece, cada vez mais, estar próxima a hora em que apenas um pequeno grupo de privilegiados poderá aceder a estes “luxos”!…
Assim sendo, podemos ou até devemos questionar sobre se isto faz sentido e sobre quem decide o que é luxo e o que é do direito de todos, decorrente dos impostos que pagamos?
Facilmente concluímos que humanamente não é, de facto, lógico e que quem decide são os grandes grupos económicos privados nacionais e multinacionais sem qualquer tipo de moderação. Quanto aos políticos que têm estado no poder (através das nossas escolhas em eleições…) infelizmente não passam de meros porta-vozes ou seguidores de corrente que nas decisões efetivamente importantes fazem o que diretamente ou indiretamente lhes mandam…
E que objetivos têm estes grandes “monstros” económicos fora de controlo? Manipulação efetiva de mercados e retirada do controlo público dos recursos fundamentais de cada país. Num tom metafórico, ver a subida dos números dos seus lucros nos seus quadros de computador sem olhar o que se passa fora das janelas dos seus escritórios…
Não é a primeira vez na História do nosso planeta que assistimos a movimentos de manipulação política, militar e económica desta magnitude. Foram seguidos de reações corajosas e numas vezes recuperou-se algo, noutras vezes quase tudo, outras ainda deram em… Entre muitos fatores, um dos que mais fez variar o grau de sucesso nestas lutas foi a irreverência/criatividade das ações e a organização da população.
E agora?…

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional
Leia todos os artigos na Internet em: www.dosonhoaoprojecto.blogspot.com



quinta-feira, 16 de agosto de 2012




OS CANTANHEDES DA CIDADE 



(parte 1)

A infância e adolescência (ou juventude, como preferirem) são fases na vida de um ser humano muito importantes para o “limar” da sua personalidade, assumindo particular importância os valores da família, dos amigos e da comunidade local. Relativamente a este último pormenor, revela-se interessante analisar o caso da cidade de Cantanhede, mais propriamente das gerações (a que também pertenço) que aqui passaram os seus períodos de infância e adolescência durante os anos 80 e 90.

Comecemos pela adolescência. Estas gerações em Cantanhede dividiam-se em vários grandes grupos: os “meninos bem”, os “queques”, os “freaks”, a “malta do bairro” (de zonas mais desfavorecidas economicamente). As suas bases de inter-relacionamento pessoal eram estabelecidas em zonas distintas, casas de amigos e/ou cafés/bares onde só se atrevia a entrar pessoal dos grupos dominantes.

Na falta de maiores desafios, o “corte e costura” de gozo e maldizer por demais evidente era (e ainda é?...) a arma de defesa de cada grupo mais frequentemente utilizada. Assim se acentuavam as fronteiras com “os outros” e reforçava essa prática depreciativa como a típica e valorizada maneira de ser de toda a gente do grupo. Mesmo daqueles que com isso não concordavam, mas a quem o tempo acabava por dobrar. “Junta-te aos bons serás um deles, junta-te aos maus serás pior do que eles”.

Nestas guerras de protagonismos de bota-abaixo, o grupo dos “meninos bem” sempre deu as cartas mais altas, exibindo roupas de marca e apregoando as suas ligações familiares ou laborais às cidades de alto nível, enquanto marcas registadas do seu “pedigree” distinto do restante povo jovem de Cantanhede.

Ora, este grupo de pequenos “jet-set” acabou por ser apontado como prova cabal por quem acusava o pessoal de Cantanhede de revelar desprezo relativamente ao resto do concelho. Nesta imagem elitista se baseava o pessoal de fora da cidade para justificar a sua antipatia, não apenas por este grupo, mas por todos os “Cantanhedes” que assim eram colocados no mesmo saco, mesmo aqueles que pertenciam aos restantes grupos que não partilhavam as características do tal grupo das pompas e circunstâncias.

Ora, sucedia que toda esta malta dos vários grupos da cidade só se misturava quando abria um café ou bar novo. Aí, nesses momentos sentia-se ou fingia-se existir um espírito de comunidade entre a juventude de Cantanhede. Porém, no fundo, as coisas não passavam de sorrisos de circunstância entre quem fazia que não sabia quem era o outro ou abraços de aparente euforia de quem já não se via há muito tempo (como se não se cruzassem todos os dias na rua ou escola ignorando-se propositadamente ou não)…

Contudo as ressacas do normal dia-a-dia formatado e rotineiro nos tais grupos bem distintos acabavam rapidamente por chegar e tudo o resto pareciam partes soltas de um sonho de uma noite mal dormida… Tudo voltava ao piloto automático de altivez e isolamento chique, sem vontade de construir algo em comum com simplicidade e humildade.

(parte 2)

Relativamente à infância de toda esta geração dos anos 80 e 90, um factor interessante ocorreu: as saudosas férias desportivas que a Sociedade Columbófila Cantanhedense organizava! Que ninguém tenha dúvidas: esta iniciativa estruturante foi um pilar importantíssimo na formação de toda esta gente (na qual me incluo) que influenciou todos os contributos que esta geração teve (ou poderia ter tido), tem e terá na nossa sociedade!

Aliando educação, desporto, cultura, saúde ao convívio e boa disposição dos monitores, promovia-se uma aprendizagem fácil de valores de trabalho em equipa, espírito de camaradagem e gosto pela cultura geral nas suas várias vertentes e não apenas nas mais popularuchas.

É natural que os miúdos dessa época passem pela velha sede e se lembrem do papel fantástico que tiveram dirigentes e monitores tais como: Alberto Abrantes, Casas de Melo, Lurdes Silva, Dora Manso, Francisco Cristovão, João Barreto, Tó Vagos, Celsino, Carmo, Pedro Cardoso, Ferreirinha, irmãos Nogueira, Paulo “francês”, Clara Neves, Ferreirinha, entre muitos outros igualmente importantes.

Assim, foi a nossa infância na cidade de Cantanhede, mas depois, na passagem para a adolescência, uma brecha surgiu e não continuou esta fabulosa base que nos unia e misturava independentemente das nossas origens, gostos, descendências, moradas, turmas, etc.

O que faltou? Talvez causas mobilizadoras comuns ou uma cultura de participação em qualquer que fosse o evento desde que fosse levado a cabo por uma entidade de referência para todos nós. É certo que muitos andavam no futebol, na natação, entre outras modalidades desportivas ou passatempos, mas o que também é certo é que nada nos unia, não havia nada de transversal, coisa que já não sucedia nem sucede na maioria das restantes freguesias do concelho: quase todas têm uma associação à volta da qual toda a gente das várias gerações se une e participa nas várias actividades, mesmo naquelas de que nem toda a gente gosta!

Ora, em Cantanhede, resquícios de um bairrismo positivo, “à antiga”, no que respeita a existir um forte apoio dentro da sua comunidade e alguma riqueza cultural podia ser encontrado no “Bairro” de São João, mas que foi perdendo este fulgor devido à perda do seu adversário histórico que era o “bairro” localizado mais ao centro da cidade.

A meu ver, faltou isto mesmo à geração de Cantanhede dos anos 80 e 90… Julgo, no entanto, que quem passou a adolescência por estas bandas nos anos 80 foi ainda mais fustigado, pois se virmos bem: quase não ficou cá ninguém dessa geração, quase todos foram embora!

(parte 3)

Devido ao rótulo elitista colocado (ou existente realmente) na geração jovem de Cantanhede dos anos 80 e 90 (ou pelo menos numa parte dela), algumas razões históricas concretas e muitas outras justificações baseadas no “diz que disse” serviram para solidificar de geração para geração este desconfiado “olhar de lado” para os meninos e/ou senhores da cidade.
Segundo estes pressupostos, as restantes freguesias do concelho não tinham na altura ou, porventura, nunca tiveram no passado grandes afinidades e motivos de simpatia para com Cantanhede, indo um pouco mais longe: para com os tais de quem se dizia “comerem da gaveta”.

Neste particular, algum humor é também necessário, no sentido em que, muitas vezes, perguntava-se a alguém de outra freguesia que dizia não gostar dos “Cantanhedes” o motivo de tal posição e as respostas sempre foram variadas: silêncio, episódios passados de pancadaria, atitudes, bocas ou troca de galhardetes mal resolvidos, encolher de ombros, “não sei, mas não gosto” ou evocação de motivos históricos do tipo “foi por causa disto” sem confirmação de factores anteriores ou paralelos…

Ao longo dos últimos anos, estas barreiras de preconceito, desconfiança e bairrismo invejoso entre “os de Cantanhede e os de fora” foram desaparecendo lentamente em grande parte devido, na minha opinião, a um evento que podemos dizer já marcar a história do nosso concelho: a Expofacic!

Repare-se que, no início desta festa, as pessoas de cada freguesia apenas iam às tasquinhas e stands das suas freguesias, mas ao longo dos anos as coisas foram felizmente mudando… A mistura de gentes começou, laços entre vizinhos (que mudavam de um ano para o outro para não criar zonas rígidas) foram sendo criados, amizades surgiram, trocas de jogadores da bola entre as equipas das terras foram sendo feitas, inclusivamente com… Cantanhede! Entre muitos outros pequenos, mas importantes exemplos.

A Expofacic teve o condão de criar um sentimento de orgulho dos munícipes pelo concelho de Cantanhede, por fazer-nos deixar de ter vergonha de dizer que somos do concelho de Cantanhede. Ora, consequentemente, foi diminuindo também o preconceito (com ou sem razões efectivas e mesmo justificadas) pelos “Cantanhedes” da cidade.




vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional
Leia todos os artigos na Internet em:www.dosonhoaoprojecto.blogspot.com






segunda-feira, 11 de junho de 2012

GLOBALIZAR PARA REINAR…



Na sociedade actual, para além das dificuldades económicas por que muitas famílias estão e que parece que infelizmente irão ainda passar no futuro de forma mais intensa, a onda de despejo de informação nos meios de comunicação social / mediáticos está literalmente a enlouquecer toda a gente!
Não refiro isto numa perspectiva de aconselhar um “enterrar da cabeça na areia como as avestruzes” ou de alienação, dizendo que devíamos fingir que está tudo bem. Não, de facto, não está tudo bem. Porém há ideias alternativas e os seus portadores merecem, com certeza, ter mais espaço para as apresentarem na sociedade portuguesa, por intermédio da comunicação social / media. Por outro lado, isso não implica por si só que o público as compreenda ou valorize…
Exemplos destas soluções há muitos: a reforma democrática popular da Islândia, as mais de 400 propostas alternativas para o Orçamento de Estado que foram apresentados por movimentos sociais e alguns partidos de real oposição na Assembleia da República, o pedido de auditoria à Dívida Pública feito no dia da Greve Geral, entre outros.
De facto, está a ser permitido ou promovido este desconhecimento. Este fenómeno, se pretendido por quem tem o poder para puxar os cordelinhos nesse sentido, poderá constituir-se claramente como um propósito de ”lavagem cerebral à opinião pública”.
A verificar-se esta suspeita, a intenção não será de difícil discernimento: legitimar a tese da necessária exploração e empobrecimento, apregoada pelo nosso primeiro-ministro (ipsis verbis), para a “miragem da recuperação mais tarde”.
A táctica que está a ser usada na população portuguesa passa por obedecer à troika, aproveitar a troika, lançar rumores, medos, até gerar espaço para a notícia, depois o facto consumado e no final o carimbo social para o corte, não dando tempo para parar para pensar, passando por cima da Constituição e das conquistas do 25 de Abril! Estão a pôr as pessoas umas contra as outras: dividir para reinar…
Chega-se a ponto de se estar a gerar a disputa entre as pessoas comuns sobre qual dos sectores da classe baixa e média ainda merece mais cortes, semeando invejas tacanhas. Guardam-se as grandes fatias do bolo e põe-se, quem não as tem, à luta para evitar o corte em cada mínima migalha!
Dirão muitos, e com razão, que há também razões internacionais para a nossa crise económica actual. Encontramo-nos numa era de capitalismo global sem instituições independentes, íntegras e com legitimidade para regular os mercados, direitos laborais e gestão de riqueza.
Vivemos num mundo globalizado que floresce como selva de aparência cosmopolita, mas que esconde e/ou ampara certos núcleos de concentração de poder económico responsáveis por lentos ou imediatos genocídios em massa: um ataque a tudo o que é público, solidário, humano… Nestas elites, a nação é só uma: o lucro a qualquer custo.
Este modelo de globalização (não tinha que ser só desta maneira, houve caminhos que foram escolhidos) foi um presente envenenado que há muito tinha sido previsto e alvo de alerta com propostas alternativas por muitos políticos e cidadãos comuns.
Não sendo a esmagadora maioria dos cidadãos do nosso planeta peritos em Economia é fácil para qualquer um ver o escândalo que constituem os depósitos em contas off-shore (fundos que não são (re)investidos na sociedade através dos Estados sociais…), exploração de mão de obra barata, especulação bancária, manipulação de comunicação social para gerar oportunidades de negócio, geração de monopólios, negócios de droga e armas, etc.
Os grandes grupos económicos transnacionais são mercenários do seu poder sem nacionalidade única e estão, cada dia mais claramente (já não precisam de se disfarçar democraticamente), no controlo dos destinos do nosso planeta com o ascensão de uma Nova Ordem Mundial.
Esta não era a globalização que queríamos com certeza. É que este mapa permite que muitos poderosos acumulem lucros com a manipulação e especulação dos (seus) instáveis mercados, destruindo a vida de milhões e milhões de pessoas.
Tudo isto não era inevitável. Há que relembrar que esta crise internacional e nacional resulta de decisões que foram tomadas no passado e que foram os políticos que nós (cidadãos de qualquer país, no caso mais premente da União Europeia) escolhemos que as tomaram… Neste ponto, a culpa é nossa…
A este respeito, basta ver as inúmeras estatísticas que circulam na Internet sobre os rendimentos de políticos que estiveram no poder antes, durante e depois das suas passagens por cargos públicos com cargos dourados em empresas privadas com lucros/dividendos acumulados ou em administrações de empresas públicas que acumulam prejuízos precisamente por má gestão… A infeliz verdade é que se tornaram (ou deixaram tornar) em meros “pombos correio” das decisões tomadas pelos grandes grupos económicos.
Após ser abordado este raciocínio, é geralmente, neste ponto de uma conversa, comum entre portugueses ver alguém reagir, numa mescla de resignação e revolta, dizendo que os políticos são todos iguais... A meu ver, esta postura de “meter tudo no mesmo saco” é profundamente errada, contribuindo para o não apurar de responsabilidades e real avaliação do bom ou mau trabalho efectuado por cada um… Sejamos rigorosos: não foram “todos” e sim apenas “alguns” (e das mesmas cores…) que estiveram no poder nos últimos 30 anos. E há ideias e propostas muito diferentes, não são todas iguais não.
Vejamos: o que distingue então os políticos? Os conteúdos que defendem obviamente, pois ser político não é apenas ter boa imagem… Há também outros de mais difícil distinção quanto ao seu “recheio”, não tanto na “casca”.
Como exemplo, comparemos a figura do teimoso José Sócrates com o afável Passos Coelho: formas distintas, conteúdos iguais. Ou até mais do mesmo na segunda versão…


vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional
Leia todos os artigos na Internet em: www.dosonhoaoprojecto.blogspot.com

segunda-feira, 12 de março de 2012

GRANDE NEGÓCIO OU MERO AZAR?


Ao que (me) parece, este contexto actual nacional e internacional de crise financeira foi gerado por incompetência de uns poderosos e/ou intenção concreta de outros tantos (sendo que nem um grupo nem outro perdeu lucros, muito pelo contrário). Na opinião factual de muitos estudiosos e instituições independentes, foi deliberadamente gerado um clima de paranóia (lembram-se de como surgiu a fraude da gripe H1N1 e de quem com ela beneficiou de forma planeada à priori?), de obsessão pelo corte.

Sejamos francos, muita gente com poder está a querer cortar só pelo cortar em si mesmo, como se fosse uma prova de rigor, de boa gestão, de pôr tudo na linha… Faz lembrar a metáfora do cavalo de corrida inglês: a quem tanta dieta fizeram até que chegou a um ponto que estava tão magrinho, tão como deve ser que… já nem conseguia correr… até que… morreu.

Se no tempo de ditadura esta era prática comum de quem detinha o poder, já nos dias de hoje o pânico gerado pela situação financeira (criada artificialmente?...) permitiu esta oportunidade para muitos pequenos ditadores escondidos entrarem em cena… A História é cíclica e parece estar a repetir o que se via há umas décadas atrás.

Porém sempre houve gente atenta e alerta. Não faltaram desde os anos 70 e 80 diversas figuras e organismos com estudos sérios a alertarem (sempre com propostas alternativas!) para as decisões erradas tomadas a nível nacional e internacional.

No entanto, nessa altura, a classe dominante (talvez em futura causa própria…) defendeu o caminho que nos levou à presente situação, com conivência dos media e a ignorância ou alienação pelo entretenimento da maioria da população que sucessivamente continuou a eleger a mesma nata de governantes.

De uma forma clara ou subtil, os media sempre ajudaram a ridicularizar e catalogar como retrógradas, “velhos do Restelo”, inimigos da modernidade, agarrados ao passado quem defendeu outros caminhos… Tudo isto foi um simples azar, mera coincidência ou infeliz incompetência? Coloquemos a questão fulcral: será que tudo foi planeado, provocado, manipulado por quem teve poder para isso?

Serão fruto do azar, coincidência ou incompetência políticos do bloco central e de direita, responsáveis por decisões desastrosas para os cofres do Estado e para a vida da classe média e baixa, multiplicarem os seus rendimentos após as suas passagens pelo cargos governamentais, conforme a margem de manobra que tenham deixado aos grandes grupos económicos?

As decisões erradas tomadas foram fruto da incompetência e/ou de uma efectiva intenção para colher benefícios privados mais tarde? A quem deram e continuam a dar lucros as parcerias público-privadas, a não tributação dos dividendos, as privatizações de sectores estratégicos a preços de saldo, a nacionalização dos prejuízos do BPN, entre muitos outros casos? A quem o nosso povo permitiu que mandasse nos últimos 30 anos…

No entanto, há que alargar um pouco mais a nossa visão, pois Portugal não é uma ilha isolada e está envolvido naturalmente num contexto global infelizmente influenciado por grupos financeiros trans-nacionais com ideias absolutistas assustadoras…

Prosseguindo nesta perspectiva mais abrangente, podemos reflectir sobre o facto de os governantes não serem mais do que obedientes e subservientes “bons alunos” a qualquer imposição directa ou indirecta vinda destes poderes ilegais… Não sucede só nosso país, outras nações foram e continuam a ser chantageadas, orientadas e controladas neste obscuro processo hierárquico ilegítimo.

A prova de que esta febre não será passageira passa pela intenção de colocar a exigência de um défice anual de 0,5% aos países europeus quando apenas 2 países da Comunidade Económica Europeia conseguiram em 10 anos cumprir a meta de ficar abaixo de 3%. A própria Alemanha não consegui cumprir esta meta em 7 dos referidos 10 anos!…

A questão que se coloca: é possível dizer não e construir o nosso próprio futuro com as nossas alternativas? Países como a Islândia, Argentina, entre outros já provaram que é possível, de acordo com a cultura e recursos de cada país.

vascoespinhalotero@hotmail.com

(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional

Leia todos os artigos na Internet em: www.dosonhoaoprojecto.blogspot.com

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

CORAGEM OU CRUEL SUBSERVIÊNCIA?


Nos actuais debates diários na nossa sociedade, temos vindo a verificar que frequentemente surgem algumas pessoas defender as decisões drásticas tomadas pelo Governo na Saúde, Educação e outros sectores estratégicos, apelidando-as de corajosas…

Será que anunciar medidas que sacrificam a classe baixa e média em detrimento da cada vez mais confortável classe alta é ter coragem? Não será antes subserviência no tipo de acordos celebrados, desde há muitos anos, com a União Europeia e o sistema bancário dominante? Não será até uma fria crueldade por não ter noção do impacto na classe média e baixa que é a base da economia interna do país? De facto, se a demagogia fosse arte, associar coragem a estas medidas seria com certeza uma obra-prima.

Respiremos fundo por momentos e apelemos ao nosso senso comum. É que talvez aqueles que apelidam as sucessivas medidas de austeridade de corajosas o façam por, no fundo, estarem preocupados. Mas preocupados com quê? Por julgarem que porventura poderão estar errados? Por temerem pelo futuro do nosso país? Por recearem pelo prejuízo incalculável na vida das famílias portuguesas?

Temo que não… Infelizmente não julgo existir neste particular qualquer exame de consciência pré, durante ou pós decisão. Parece-me sim existir apenas um certo medo de que a revolta social gerada se vire contra os próprios decisores políticos que nos governam desde o final da década de 70. Ora, este medo acaba por gerar preocupação em quem manda meramente sobre FORMA como se transmitem as decisões tomadas, não sobre o seu conteúdo…

Por exemplo, o próprio Presidente da República tem vindo a dizer que “é preciso evitar que a sociedade SINTA que a distribuição dos sacrifícios é injusta”. Quando o diz critica o conteúdo das medidas ou meramente a forma como são comunicadas?

Tendo em conta que também Cavaco Silva já apelidou as medidas de “corajosas, embora não transpareçam um equilíbrio”, exactamente com a mesma argumentação que outras figuras usaram de modo a defender o conteúdo das decisões, poderemos então, no raciocínio que temos vindo a seguir, considerar que o Presidente de todos os portugueses apenas discorda da forma?... No fundo, estará insatisfeito por não se estar a iludir / disfarçar / enganar o povo de forma tão competente como nos habituaram ao logo de todos estes anos?

Fica a sensação de que o desafio, assumido por todos aqueles que assim pensam, é como melhor convencer a população portuguesa de que uma coisa horrível é necessária, inevitável, até merecida (assim afirma Angela Merkel com imediata concordância de quem nos governa…) e mesmo positiva para a vida da população. Não nos querem ou sabem explicar os cortes, querem sim enganar-nos com os cortes. A prova disso é que quando se pedem esclarecimentos sobre o porquê, para quê e até quando as respostas são… zero.

Sejamos claros e foquemo-nos no importante: um corte num serviço que faz falta à comunidade é um acto de corajosa boa gestão? Um corte em coisas que nada tem a ver com o aumento de produtividade invocando isso mesmo como justificação é um acto de corajosa boa gestão?...

Por que não se verifica como se geriu, quem geriu e quem beneficiou com essa gestão ruinosa, responsabilizando criminalmente e procurando melhorar, rentabilizar e solidificar serviços para a nossa sociedade sem perder direitos fundamentais para a nossa qualidade de vida / sobrevivência? Talvez por que, em primeira instância, encontraríamos precisamente todos os responsáveis nacionais e internacionais pela crise e que nos ordenam os cortes…

vascoespinhalotero@hotmail.com

(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional

Leia todos os artigos na Internet em: www.dosonhoaoprojecto.blogspot.com