terça-feira, 17 de setembro de 2013

IR PARA FORA OU FICAR POR CÁ? (2ª parte)



Indo para fora, há que optar por levar a família ou deixá-la no nosso país (seja a pensar em mais tarde se reunirem no novo destino ou no regresso a Portugal quando as coisas acalmarem).
Encontrar trabalho/emprego por conta de outrem parece ser a inevitável solução inicial numa aventura deste género por alguém de classe média e baixa (pois classe alta pode transferir ou investir numa área de negócio por sua conta) por intermédio de pessoas conhecidas ou pela internet.
Acresce ainda, dentro das ofertas de trabalho encontradas, a escolha do país de destino parece dividir-se entre duas grandes alternativas: ir para onde se possa ganhar dinheiro ou até muito dinheiro para trazer e gastar lá pouco ou mesmo apenas sobreviver (“estar lá sem lá estar mesmo”) ou então ir para onde a qualidade de vida também seja importante (“estar lá para viver bem”). Qualquer uma das alternativas pode ser ponderada em função ou independentemente de o plano ser ficar lá apenas por algum tempo, muito tempo ou o tempo que for preciso.
A integração e acolhimento no país de destino é também um ponto a ponderar com atenção e antecipação. Ocupar postos de trabalho que ninguém quer (como sucedeu com muitas vagas emigratórias portuguesas no passado) parece uma oportunidade mais tranquila logo à chegada, geralmente exigindo qualificações mais simples, embora normalmente seja mais duro para a saúde e menos rentável economicamente. Aparentemente não trará rivalidade ou inveja profissional, embora possa levar a uma vida de “pão e água” e isolamento em termos culturais, o que poderá dar origem a fenómenos de segregação e discriminação por parte da população de origem, sendo a nossa gente vista como cidadãos de segunda.
Ocupar postos de trabalho que cidadãos do país de destino também desejam é um fenómeno novo para a emigração em massa de população portuguesa, mas mais provável dadas as elevadas qualificações dos nossos ex-estudantes de ensino profissional e ensino superior. Com estes currículos e tendo em conta que as empresas (seja em Portugal seja no estrangeiro), podem querer pagar menos pelo mesmo serviço, poderá suceder que numa situação de emergência pessoal ou familiar o nosso emigrante aceite (ou sugira até) fazer trabalho que exija elevadas qualificações a um preço mais baixo do que o cobrado pelos cidadãos que já lá vivem.
Mesmo que o pagamento seja igual, existirá inevitavelmente rivalidade profissional com os técnicos dessas áreas que habitam na nação que acolhe. As reações podem ser várias. O recém-chegado pode predispor-se para fazer tudo e a que horas o que for preciso tornando-se um (auto)explorado para obter dividendos para comparações com os técnicos da mesma área que já lá estavam. Podem contudo querer ser tratado de forma igual, conseguindo-o ou não.
Se existir emprego e bom salário para a maioria, em princípio, tudo bem, se deixar de ser assim, problemas poderão surgir que podem levar a uma maior integração e união a nível de sindicatos e movimentos civis que juntem os novos e os que já lá estão na construção e reivindicação de equilíbrios sociais e laborais entre trabalhadores e patrões. Porém, outras consequências poderão ocorrer a nível de segregação e discriminação por parte da população de origem, podendo também (ou não) a nossa gente ser vista como cidadãos de segunda.

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional
Leia todos os artigos na Internet em: www.dosonhoaoprojecto.blogspot.com


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

IR PARA FORA OU FICAR POR CÁ? (1ª parte)



Neste momento, em Portugal (embora não só) pessoas de várias idades e com ou sem família para cuidar têm de escolher entre ficar no nosso país e sair para o estrangeiro à procura de rendimentos para sustentar a sua vida. Uns vão por ambição de mais e de melhor, outros por mera sobrevivência, outros ainda por razões de saturação relativamente a mesquinhez de mentalidades…
Nestes momentos na vida de uma pessoa, tem-se mesmo de parar para pensar, analisar o presente e tentar prever cenários de futuro para tomar a melhor decisão ou, pelo menos, a possível, no que respeita às condições laborais. Por mais que deixemos andar a ver no que isto dá, com a conjuntura que atravessamos, a verdadeira questão, mais tarde ou mais cedo, tem que ser encarada de frente, assim como o fizeram no passado outras gerações : ir ou ficar?
Ficando cá, há que manter ou arranjar trabalho /emprego, num contexto de escassas oportunidades nos serviços e nas áreas de produção antigas e atuais. A (deixarmos) continuar este modelo de exploração definido nas altas esferas político-económicas, teremos que nos habituar a viver com salários progressivamente mais baixos, na lógica de “é assim e mais nada” em que “ou estás desempregado ou ganhas qualquer coisinha e já vais com sorte, pois senão há mais quem queira”.
Neste contexto, sindicatos ou a associações de luta por direitos civis e laborais, com todas as suas características organizativas e formas de luta mais ou menos eficazes, continuarão a ser a única ameaça a este sistema de medo (por isso são os maiores alvos de um maldizer mediático e cultural, carimbado por comentadores televisivos do regime…).
No fundo, estas organizações, com todas as suas virtudes e defeitos, ainda procuram, de forma genuína, que as pessoas se unam para terem força para reivindicar condições mínimas/dignas de trabalho e de vida e, por isso, são direta ou indiretamente atacadas… Ora precisamente, pertencer, apoiar ou sequer simpatizar com estes grupos poderá começar a ser (ou sempre terá sido?) assumido, abertamente ou não, por patrões como motivo de escolha para pôr gente de lado ou na rua e chamar outros mais caladinhos…
Com as medidas, propositadamente destrutivas, ordenadas pela troika e pelo Governo, o mercado interno português ao nível dos clientes usuais está a deixar de ser atrativo mesmo para os reis dos hiper-mercados, sendo que também e principalmente as pequenas e médias empresas do nosso país parecem ter que se resignar a uma sobrevivência sem horizontes com as infra-estruturas a ganharem pó. Para estes últimos a fuga aos impostos está a tornar-se “mais justificada” ou eventual e infelizmente mais necessária, mas já não tanto pelos motivos das últimas décadas: mais lucro para a expansão de luxos não declarados.
Parece uma triste sina para a vida futura em Portugal a previsão de que que tanto as pessoas com baixas como altas qualificações serão mão-de-obra barata para empresas exportadoras nacionais e, acima de tudo, estrangeiras.
Sim, tal como que sucedia na América Latina há alguns anos atrás (até os seus povos terem dito basta às medidas de cobrança de dívida pelo FMI, como nos fazem agora…) e sucede, hoje em dia, com a China, Indonésia, Rússia, Mongólia, entre muitos outros grandes multinacionais chegam para se instalar como santos milagreiros do progresso ou recuperação económica e geradores de emprego…
Feitas bem as contas, estas corporações saltam de país em país à procura de onde se pague pouco ou nada de IRC e outros impostos ao Estado, contrapartidas cada vez mais miseráveis para os seus trabalhadores por 10 ou mais horas de trabalho diárias, sem direito a fins de semana, a distâncias enormes de casa, ganhando meia dúzia de euros ou então meras senhas de alimentação…
Um novo tipo de escravatura começa a ser mais claramente assim percecionado por toda a gente, deixando de ser suposta teoria da conspiração esquerdista para passar a facto consumado, quiçá já resignado. As “corajosas” privatizações das nossas grandes empresas (que geram monopólios e não concorrência) e a vinda das empresas multinacionais, geradoras de emprego que devemos agarrar com “unhas e dentes” e receber de braços abertos, continuará a ser o tipo de investimento que os sucessivos Governos nos têm vindo a impingir como solução final e única para a saída da crise. Tudo isto celebrado como sucessos vitais para a tal salvação nacional...
De qualquer forma, para a nossa vida diária de cidadãos comuns, o desafio coloca-se em como gerir a nossa vida com menos dinheiro. A nossa criatividade para planear e desenrascar vai ser espremida ao máximo, assim como o risco de que o desespero leve à fuga para a criminalidade…
Claro que em contexto de crise também surgem outras oportunidades de trabalho/negócio/lucro. Obviamente mais para a classe alta que tem poder de compra de produtos/serviços que agora estão a preço de saldo (veja-se, por exemplo, a queda brutal dos preços da compra/venda de habitação…). Porém, a generalidade da nossa classe alta tem um baixo nível cultural e uma falta de visão global de qualidade de vida numa comunidade, que não apenas no “bunker” de Tio Patinhas em que quer viver, com as naturais consequências no tipo de investimentos que fazem e no capital que deixam parado.
De qualquer forma, é um facto que a crise económica e de confiança no investimento leva, por um lado, à destruição de várias áreas e, por outro lado, à abertura de espaço para a ascensão de outras. Quem “tiver olho” poderá descortinar oportunidades de negócio e de emprego para a classe média e baixa (embora bem menos e no fundo só para alguns destes).
No entanto o dinheiro que a este nível circula é bem menor e talvez a troca direta de serviços seja uma solução inevitável para fugir às armadilhas da ligação entre dinheiro e qualidade de vida e… felicidade?

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional
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quinta-feira, 20 de junho de 2013

QUALIDADE DE VIDA E/OU FELICIDADE?




Os meios materiais, tecnológicos, sociais, económicos, culturais, entre outros encontram-se associados por diversos estudos a uma melhor Qualidade de Vida, encontrando-se os países nórdicos no topo do ranking.

A organização participada, a cidadania ativa, os sonhos que passam projetos, o pensamento associado à ação, a reivindicação atenta, luta envolvendo perseverança e/ou a geração de envolvimento da comunidade parecem ser características presentes (em termos gerais e não esquecendo que cada pessoa tem a sua história) em indivíduos que vivem nestas zonas.

No entanto, porventura demasiada concentração em tudo isto pode fazer (embora não necessariamente) com que uma pessoa não crie no seu círculo mais próximo as condições aparentemente mais simples para se ser feliz enquanto pessoa… Alguns têm altas taxas de suicídio.

É importante referir que a investigação científica (e também outras que não têm tal catalogação, mas que abrem vários horizontes) sobre o conceito de Felicidade foca-se muito mais no prazer do gozo da vida, no tranquilo aqui e o agora, em que os países da América Latina parecem ser, segundo os dados analisados, os campeões. Vários estudos sobre este conceito medem os diferentes graus através de perguntas tais como: “Sentiu-se descansado ontem?”, “Foi tratado com respeito ontem?”, “Sorriu muito ontem?”, “Aprendeu ou fez algo de interessante ontem?”, “Sentiu-se alegre e feliz ontem?”.

Daqui decorrentes, encontramos muitos conselhos, de facto, práticos que parecem emergir como soluções concretas e agradáveis: a referência e o elogio direto sem intenção de contrapartidas a pessoas ou coisas de que/quem gostamos e orgulhamos, que nos fazem divertir, suavizar ideias; definir objetivos, valorizar pontos positivos e diferentes que sucederam, resolver de forma construtiva, criativa e simples problemas que se encontram no caminho com os recursos que se tem à disposição sem pensar nos que se gostaria de ter (retirando-lhes a carga de importância angustiante que lhes dá tanto peso porventura indevido), adotar hábitos de vida saudáveis, etc. No fundo, o foco principal parece estar, de forma concisa, na nossa esfera de controlo pessoal.

Contudo, eventualmente podem parecer (ou não) alternativas pouco consequentes a nível imediato enquanto resposta a grandes ou pequenas questões sociais e económicas… Mas o que é certo é que os estudos de Qualidade de Vida nem sempre medem, querem ou acham possível medir estas variáveis ligadas à Felicidade…

Isto pode fazer-nos compreender, em parte, por que razão normalmente os países do norte da Europa são apontados como tendo a melhor qualidade de vida e os países da América Latina como sendo os mais felizes…

Por esta altura, talvez tenhamos mais questões do que conclusões. Será que para sermos efetivamente felizes teremos que abandonar o sonho de termos mais qualidade de vida ou a luta por não perder a que ainda temos? A consequência de viver a nossa felicidade pessoal será forçosamente tornarmo-nos passivos, escondermo-nos, resignarmo-nos, desresponsabilizarmo-nos? Ou há mais opções?

Há que relembrar que indignarmo-nos, protestarmos, lutarmos, envergonharmos os responsáveis têm sido formas necessárias (talvez até justas), ao longo dos tempos, para atingir melhores condições gerais de vida para a nossa sociedade. A Revolução Francesa é prova de que o alcançar de um efetivo impacto social por estes meios é possível, embora à custa de muito sofrimento também.

Porém, dado que estas causas sociais tão abrangentes fogem (pelo menos em parte) à nossa esfera de controlo pessoal, acabam por gerar muitas vezes emoções negativas frequente ou, quem sabe, permanentemente. Então se seguirmos este trilho estaremos na prática a deitar fora nossa chance de Felicidade?

Seguindo esta linha de raciocínio, talvez não valha a pena lutar por grandes mudanças sociais justas se o que se quer mesmo é ser feliz? Isso que fique para os outros que não se importam de ser… infelizes?

Por outro lado, podemos achar que quem pensa assim talvez viva bem a fazer férias de luxo num resort rodeado de bairros de miséria. Mas sejamos sinceros, será que a (in)consciência de “varrer para debaixo do tapete” permitirá a um ser humano ser efetivamente feliz? Ou será somente temporário, pois a nossa alma acaba por nos bater à porta, na forma de pesadelos, ansiedades, depressões, sintomas psico-somáticos, etc…

Mas não estar na linha da frente da luta pelas grandes causas sociais pode não equivaler necessariamente a levar uma vida fútil, materialista ou consumista. Talvez não se deva confundir alienação, escapismo ou desresponsabilização com o direito da procura da Felicidade, pois fugir ou evitar a dor não é seguramente a mesma coisa que estar tranquilo. Mas, também aqui, como distinguir fronteiras por vezes tão ténues?

Ora, paradoxalmente (ou não) ao longo da História, figuras como Mahatma Ghandi na Índia ou Martim Luther King nos Estados Unidos da América provaram que as lutas por causas sociais se podem fazer de muitos modos com enorme impacto na sociedade, nomeadamente pela via pacífica através da desobediência civil não violenta, baseada no argumento filosófico de que o cidadão só tem o dever moral de obedecer as leis, se os legisladores produzirem leis justas.

Ao contrário da desobediência comum ou de um mero ato de transgressão criminoso, a desobediência civil tem uma finalidade social, constituindo um ato inovador, de caráter eminentemente construtivo e não destruidor. Também aqui as fronteiras podem obviamente ser nublosas.

Concluindo, será que é inevitável termos que escolher entre ser felizes e ter qualidade de vida? É que parece tão difícil quanto inevitável conjugar na prática a Qualidade de Vida com a Felicidade. Com um olhar pragmático, parece infelizmente impossível. Com um olhar utópico, parece, sem dúvida, o caminho correto a seguir. Qual é o equilíbrio afinal?

Como diziam os vencedores do Festival da Canção em Portugal de 2012, afinal “a luta é alegria”… 


vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional
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segunda-feira, 17 de junho de 2013

3. UMA PAUSA NO TEMPORAL (uma e outra perspetiva)



Há alguns meses atrás, devido a condições meteorológicas anormais que assolaram especialmente a Região Centro do nosso país, muitas áreas e populações ficaram sem luz, água, televisão, rádio, telefone fixo, telemóveis e internet durante alguns dias, nalguns casos semanas.
A precariedade da manutenção das estruturais técnicas e logísticas da nossa sociedade e/ou o poder da mãe natureza fizeram toda a gente sentir e pensar na fragilidade das condições de vida que usufruímos.
Por um lado, fez-nos pensar nas injustiças sociais em termos de acesso a recursos essenciais que permitam uma qualidade de vida da população e dos grupos económicos que com a “muleta” de políticos interessadamente obedientes reservam apenas para uma elite o que devia ser de todos.
Por outro lado, também nos permitiu dar o exemplo de como nos podemos aproximar mais uns dos outros como seres humanos. Não no sentido de intromissão ou invasão de privacidade, mas sim na perspetiva de que temos necessidades, anseios, pontos em comum, levando-nos a questionar o que será realmente mais importante nossa vida, o que nos fez/faz/fará felizes.
Seguindo esta lógica de análise, dois caminhos acabam por ser apontados a uma pessoa: lutar pelo que pensa que é justo socialmente para a comunidade/sociedade e/ou desfrutar tranquilo daquilo que na sua essência é e do que o rodeia.
Ora, tendo em conta a diferença, aparentemente grande, das emoções despoletadas nos momentos de luta social e nos momentos de desfrute pessoal, poderemos colocar a seguinte questão ou desafio: estas duas perspetivas distintas serão inconciliáveis? Serão água e azeite que não se pode/consegue misturar?
Teremos inevitavelmente que escolher um caminho ou outro se quisermos chegar a algum lado na vida? Será que quem luta por justiça se torna mais tarde chato, teimoso, intolerante, pouco aberto a novos caminhos, impossível de aturar e de acalmar? Será que quem desfruta tranquilamente se torna passivo, nada objetivo, alienado, desleixado, irresponsável, “deixa andar”, egoísta? Será possível participar em revoluções e também gostar de estar relaxado no sofá? Será isto demagógico ou coerente?
Apostar na luta pelos direitos civis (quiçá inútil…) ou numa felicidade individual (quiçá isolada…)? Este dilema remete um pouco para os estudos sobre os conceitos de Qualidade de Vida e de Felicidade. Sim, parecem ser coisas diferentes…

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional
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2. UMA PAUSA NO TEMPORAL (outra perspetiva)



Há alguns meses atrás, devido a condições meteorológicas anormais que assolaram especialmente a Região Centro do nosso país, muitas áreas e populações ficaram sem luz, água, televisão, rádio, telefone fixo, telemóveis e internet durante alguns dias, nalguns casos semanas. Apesar das graves e infelizes circunstâncias, porventura, por instantes, permitiu-nos também fazer uma pausa para refletir sobre o tipo de vida que fazemos e sobre como nos habituamos a relacionar uns com os outros e com o meio envolvente.
Obviamente que naquele terrível temporal uma espécie de nó no estômago surgiu ao darmo-nos conta da dependência absoluta de vários meios para fazermos qualquer coisa, para comunicamos, para…vivermos? Houve gente que passou muito mal e pior poderia ainda ter sucedido, mas esta consciência da nossa fragilidade abriu, por momentos, uma oportunidade…
Vejamos então. Naquela altura, temas de conversa que normalmente são sempre adiados e constituem a nossa base, por um lado, de falta de planeamento, análise, conhecimento racional sobre vários temas da nossa sociedade e, por outro lado, de relacionamento/valorização/preocupação genuína emocional de uns com os outros. Por exemplo, provavelmente lembrámo-nos das tragédias das chuvas na Madeira ou do rio Mississipi em Nova Orleãs e compreendemos melhor o sofrimento daquela gente…
Indo um pouco mais longe, tivemos oportunidade para refletir sobre até que ponto as condições / bens materiais em falta (luz, água, meios de comunicação, etc) eram efetivamente fundamentais, por comparação com outros com níveis de utilidade e prazer proporcionado de facto diferentes…
Não esquecendo a base que é a liberdade individual de escolhas / gostos de cada indivíduo (desde que não prejudique outro obviamente, cada um pode gostar do que lhe apetece) podemos parar para pensar no seguinte: nesta sociedade consumista em que se gera a necessidade de ter/comprar, até que ponto ao nos termos deixado levar nesta onda não ficámos frágeis, controlados, dependentes, mais amorfos, menos humanos e… infelizes?
É certo que talvez necessitemos efetivamente de algumas coisas matérias que temos e de outras que (ainda) não temos, especialmente nesta altura de escassez financeira. Porém, talvez não necessitemos de muitas das coisas que somos levados a adquirir, afinal de contas, quem não sentiu já isso ao voltar de um super-mercado cheio de compras inúteis que não tinha planeado fazer antes de lá entrar? No entanto, com certeza que gostaríamos de ter a liberdade de escolher e não de ter de cortar à força…
Ora, naqueles dias de tempestade, estas conversas surgiram, não de modo passivo a ver os ilustres comentadores na televisão, mas sim em casa com a família, amigos, vizinhos, meros conhecidos e/ou até estranhos que não se conhecia de lado nenhum. Por alguns instantes, todos sentimos que, de facto, estávamos no mesmo barco e aí foi fácil pensar no mais importante: a vida das pessoas em primeiro lugar (o que deveria ser feito prioritariamente, como deveria ser protegida).
Este debate genuíno, embora agoniado no momento, deu-nos uma oportunidade, para dar conta que uma democracia / cidadania popular, próxima, sincera e responsável é/seria possível ou, pelo menos, mais fácil…
O que aconteceu de especial na pausa do temporal então? As pessoas puderam, precisaram e quiseram estar juntas, a falar ou a partilhar silêncios, talvez, acima de tudo, pela companhia. Para pequenas ou grandes coisas, deu-se e recebeu-se ajuda de igual para igual e sem falsas caridades, não por para parecer bem ou fazer figura, mas sim porque fazia sentido.
As pessoas comunicaram, reagiram, fizeram algo em prol de toda a gente. Sim, foram soluções de “desenrasque”, mas também houve espaço para pensar como deveriam a casa, a comunidade e a sociedade ser devidamente planeadas e geridas em conjunto e para o maior benefício possível de todos.
Claro que temos de ter noção de que aquele momento (se é que de facto aconteceu) foi um rasgo disperso, não organizado nem consequente, pois tudo passa à medida que voltamos à dita normalidade… Com o tempo, todos voltámos à nossa “vidinha”.

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional
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1. UMA PAUSA NO TEMPORAL (uma perspetiva)



Há alguns meses atrás, devido a condições meteorológicas anormais que assolaram especialmente a Região Centro do nosso país, muitas áreas e populações ficaram sem luz, água, televisão, rádio, telefone fixo, telemóveis e internet durante alguns dias, nalguns casos semanas.
A precariedade da manutenção das estruturais técnicas e logísticas da nossa sociedade e/ou o poder da mãe natureza fizeram toda a gente sentir e pensar na fragilidade das condições de vida que usufruímos.
Fez-nos pensar quanto são, hoje em dia, essenciais estes recursos para uma qualidade de vida com dignidade e liberdade, aos quais terei efetivamente que juntar o acesso à saúde, à educação, à cultura.
Levou-nos a refletir também acerca da distância cada vez menor entre o não ter estas condições (momentaneamente como sucedeu com o temporal) e apenas as poder ter quando/se/quem as puder pagar…
Receio que para muitos de nós a perspetiva esteja a poucos passos de se tornar permanente, quer por motivos da vida de cada um, quer pelas regras de exclusão que estão a ser impostas pelas elites do poder mais ou menos sorrateiramente, mas de forma intencional, alegando o alibi da crise, à nossa comunidade.
Dirão alguns de forma ignorante e/ou demagógica “claro, queriam tudo à borla, não faltava mais nada”, esquecendo quem o faz que não falamos de luxos, nem de algo a que não deva ter direito quem paga os seus impostos!... Sejamos francos, os custos destas condições, oportunidades e recursos básicos têm subido a um ritmo cada vez mais veloz e parece, cada vez mais, estar próxima a hora em que apenas um pequeno grupo de privilegiados poderá aceder a estes “luxos”!…
Assim sendo, podemos ou até devemos questionar sobre se isto faz sentido e sobre quem decide o que é luxo e o que é do direito de todos, decorrente dos impostos que pagamos?
Facilmente concluímos que humanamente não é, de facto, lógico e que quem decide são os grandes grupos económicos privados nacionais e multinacionais sem qualquer tipo de moderação. Quanto aos políticos que têm estado no poder (através das nossas escolhas em eleições…) infelizmente não passam de meros porta-vozes ou seguidores de corrente que nas decisões efetivamente importantes fazem o que diretamente ou indiretamente lhes mandam…
E que objetivos têm estes grandes “monstros” económicos fora de controlo? Manipulação efetiva de mercados e retirada do controlo público dos recursos fundamentais de cada país. Num tom metafórico, ver a subida dos números dos seus lucros nos seus quadros de computador sem olhar o que se passa fora das janelas dos seus escritórios…
Não é a primeira vez na História do nosso planeta que assistimos a movimentos de manipulação política, militar e económica desta magnitude. Foram seguidos de reações corajosas e numas vezes recuperou-se algo, noutras vezes quase tudo, outras ainda deram em… Entre muitos fatores, um dos que mais fez variar o grau de sucesso nestas lutas foi a irreverência/criatividade das ações e a organização da população.
E agora?…

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional
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quinta-feira, 16 de agosto de 2012




OS CANTANHEDES DA CIDADE 



(parte 1)

A infância e adolescência (ou juventude, como preferirem) são fases na vida de um ser humano muito importantes para o “limar” da sua personalidade, assumindo particular importância os valores da família, dos amigos e da comunidade local. Relativamente a este último pormenor, revela-se interessante analisar o caso da cidade de Cantanhede, mais propriamente das gerações (a que também pertenço) que aqui passaram os seus períodos de infância e adolescência durante os anos 80 e 90.

Comecemos pela adolescência. Estas gerações em Cantanhede dividiam-se em vários grandes grupos: os “meninos bem”, os “queques”, os “freaks”, a “malta do bairro” (de zonas mais desfavorecidas economicamente). As suas bases de inter-relacionamento pessoal eram estabelecidas em zonas distintas, casas de amigos e/ou cafés/bares onde só se atrevia a entrar pessoal dos grupos dominantes.

Na falta de maiores desafios, o “corte e costura” de gozo e maldizer por demais evidente era (e ainda é?...) a arma de defesa de cada grupo mais frequentemente utilizada. Assim se acentuavam as fronteiras com “os outros” e reforçava essa prática depreciativa como a típica e valorizada maneira de ser de toda a gente do grupo. Mesmo daqueles que com isso não concordavam, mas a quem o tempo acabava por dobrar. “Junta-te aos bons serás um deles, junta-te aos maus serás pior do que eles”.

Nestas guerras de protagonismos de bota-abaixo, o grupo dos “meninos bem” sempre deu as cartas mais altas, exibindo roupas de marca e apregoando as suas ligações familiares ou laborais às cidades de alto nível, enquanto marcas registadas do seu “pedigree” distinto do restante povo jovem de Cantanhede.

Ora, este grupo de pequenos “jet-set” acabou por ser apontado como prova cabal por quem acusava o pessoal de Cantanhede de revelar desprezo relativamente ao resto do concelho. Nesta imagem elitista se baseava o pessoal de fora da cidade para justificar a sua antipatia, não apenas por este grupo, mas por todos os “Cantanhedes” que assim eram colocados no mesmo saco, mesmo aqueles que pertenciam aos restantes grupos que não partilhavam as características do tal grupo das pompas e circunstâncias.

Ora, sucedia que toda esta malta dos vários grupos da cidade só se misturava quando abria um café ou bar novo. Aí, nesses momentos sentia-se ou fingia-se existir um espírito de comunidade entre a juventude de Cantanhede. Porém, no fundo, as coisas não passavam de sorrisos de circunstância entre quem fazia que não sabia quem era o outro ou abraços de aparente euforia de quem já não se via há muito tempo (como se não se cruzassem todos os dias na rua ou escola ignorando-se propositadamente ou não)…

Contudo as ressacas do normal dia-a-dia formatado e rotineiro nos tais grupos bem distintos acabavam rapidamente por chegar e tudo o resto pareciam partes soltas de um sonho de uma noite mal dormida… Tudo voltava ao piloto automático de altivez e isolamento chique, sem vontade de construir algo em comum com simplicidade e humildade.

(parte 2)

Relativamente à infância de toda esta geração dos anos 80 e 90, um factor interessante ocorreu: as saudosas férias desportivas que a Sociedade Columbófila Cantanhedense organizava! Que ninguém tenha dúvidas: esta iniciativa estruturante foi um pilar importantíssimo na formação de toda esta gente (na qual me incluo) que influenciou todos os contributos que esta geração teve (ou poderia ter tido), tem e terá na nossa sociedade!

Aliando educação, desporto, cultura, saúde ao convívio e boa disposição dos monitores, promovia-se uma aprendizagem fácil de valores de trabalho em equipa, espírito de camaradagem e gosto pela cultura geral nas suas várias vertentes e não apenas nas mais popularuchas.

É natural que os miúdos dessa época passem pela velha sede e se lembrem do papel fantástico que tiveram dirigentes e monitores tais como: Alberto Abrantes, Casas de Melo, Lurdes Silva, Dora Manso, Francisco Cristovão, João Barreto, Tó Vagos, Celsino, Carmo, Pedro Cardoso, Ferreirinha, irmãos Nogueira, Paulo “francês”, Clara Neves, Ferreirinha, entre muitos outros igualmente importantes.

Assim, foi a nossa infância na cidade de Cantanhede, mas depois, na passagem para a adolescência, uma brecha surgiu e não continuou esta fabulosa base que nos unia e misturava independentemente das nossas origens, gostos, descendências, moradas, turmas, etc.

O que faltou? Talvez causas mobilizadoras comuns ou uma cultura de participação em qualquer que fosse o evento desde que fosse levado a cabo por uma entidade de referência para todos nós. É certo que muitos andavam no futebol, na natação, entre outras modalidades desportivas ou passatempos, mas o que também é certo é que nada nos unia, não havia nada de transversal, coisa que já não sucedia nem sucede na maioria das restantes freguesias do concelho: quase todas têm uma associação à volta da qual toda a gente das várias gerações se une e participa nas várias actividades, mesmo naquelas de que nem toda a gente gosta!

Ora, em Cantanhede, resquícios de um bairrismo positivo, “à antiga”, no que respeita a existir um forte apoio dentro da sua comunidade e alguma riqueza cultural podia ser encontrado no “Bairro” de São João, mas que foi perdendo este fulgor devido à perda do seu adversário histórico que era o “bairro” localizado mais ao centro da cidade.

A meu ver, faltou isto mesmo à geração de Cantanhede dos anos 80 e 90… Julgo, no entanto, que quem passou a adolescência por estas bandas nos anos 80 foi ainda mais fustigado, pois se virmos bem: quase não ficou cá ninguém dessa geração, quase todos foram embora!

(parte 3)

Devido ao rótulo elitista colocado (ou existente realmente) na geração jovem de Cantanhede dos anos 80 e 90 (ou pelo menos numa parte dela), algumas razões históricas concretas e muitas outras justificações baseadas no “diz que disse” serviram para solidificar de geração para geração este desconfiado “olhar de lado” para os meninos e/ou senhores da cidade.
Segundo estes pressupostos, as restantes freguesias do concelho não tinham na altura ou, porventura, nunca tiveram no passado grandes afinidades e motivos de simpatia para com Cantanhede, indo um pouco mais longe: para com os tais de quem se dizia “comerem da gaveta”.

Neste particular, algum humor é também necessário, no sentido em que, muitas vezes, perguntava-se a alguém de outra freguesia que dizia não gostar dos “Cantanhedes” o motivo de tal posição e as respostas sempre foram variadas: silêncio, episódios passados de pancadaria, atitudes, bocas ou troca de galhardetes mal resolvidos, encolher de ombros, “não sei, mas não gosto” ou evocação de motivos históricos do tipo “foi por causa disto” sem confirmação de factores anteriores ou paralelos…

Ao longo dos últimos anos, estas barreiras de preconceito, desconfiança e bairrismo invejoso entre “os de Cantanhede e os de fora” foram desaparecendo lentamente em grande parte devido, na minha opinião, a um evento que podemos dizer já marcar a história do nosso concelho: a Expofacic!

Repare-se que, no início desta festa, as pessoas de cada freguesia apenas iam às tasquinhas e stands das suas freguesias, mas ao longo dos anos as coisas foram felizmente mudando… A mistura de gentes começou, laços entre vizinhos (que mudavam de um ano para o outro para não criar zonas rígidas) foram sendo criados, amizades surgiram, trocas de jogadores da bola entre as equipas das terras foram sendo feitas, inclusivamente com… Cantanhede! Entre muitos outros pequenos, mas importantes exemplos.

A Expofacic teve o condão de criar um sentimento de orgulho dos munícipes pelo concelho de Cantanhede, por fazer-nos deixar de ter vergonha de dizer que somos do concelho de Cantanhede. Ora, consequentemente, foi diminuindo também o preconceito (com ou sem razões efectivas e mesmo justificadas) pelos “Cantanhedes” da cidade.




vascoespinhalotero@hotmail.com
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