quarta-feira, 4 de junho de 2014

NIVELAR POR BAIXO (1ª parte)


Nos tempos que correrem, vemos o argumento de equidade entre público e privado ser muitas vezes usado por Governo e Troika, entre outras elites, para justificar cortes, quer num lado, quer noutro, de uma só vez ou por fases. Enfim, o método parece simples, estica-se a corda num lado para depois poder fazer o mesmo no outro, tudo em nome da tal… equidade entre público e privado. Ficamos com a sensação ou pelo menos com a desconfiança de estarmos perante um entretenimento de dividir para reinar.
É como se pais dissessem aos seus dois filhos que, por um ter um brinquedo e o outro não, a solução seria pôr o brinquedo no lixo para ambos ficarem equitativamente… insatisfeitos. Curiosamente, este argumento é só usado por quem manda nivelar por / para baixo…
Por exemplo, numa altura em que se discute o aumento do tempo mínimo de trabalho no setor público, não será difícil adivinhar que, daqui a uns tempos, também as horas de trabalho no privado poderão ser (oficialmente) esticadas… Depois virá muita gente dizer que no público também se tem de apertar, seguida da anterior reação e assim sucessivamente até chegarmos aos níveis de exploração do tempo de vida das pessoas que se praticam em países asiáticos.
De facto não se trata sequer de aumentar a produtividade, parece pretender-se somente baixar o custo da mão-de-obra e prolongar o tempo ao seu serviço.
Um facto simples parecer comprovar esta visão. Com o fim dos contratos coletivos e as portarias de extensão, os trabalhadores do setor privado continuarão a dizer “muita sorte tenho eu se tiver trabalho” e a ser mais facilmente “espremidos”. Os colegas do público também o serão por outras vias como, por exemplo, o esvaziamento de funções da responsabilidade de funcionários públicos para justificar a extinção do posto de trabalho e o consequente, melhor ou pior disfarçado, despedimento sem justa causa e/ou, progressivamente, com ausência de indeminização…
Vale a pena recuar um pouco no tempo e recordar que, desde os primeiros governos dos anos 70 pós 25 de Abril, a aproximação entre setor público e privado era um objetivo assumido claramente, embora com aspirações positivas bem distintas… Na altura, o desafio proposto era tornar o emprego no privado equiparado em dignidade e segurança ao seu “irmão” público. Enfim, de forma genuína, procurava-se nivelar por / para cima em termos de direitos e deveres. Apenas nas últimas décadas, o conteúdo desta visão foi (propositadamente?) desvirtuado, o sentido desta aproximação inverteu-se e agora a lógica parece ser apertar no privado e depois dizer que os “malandros” do público têm de ir atrás… Ora, porque não se segue o rumo inverso hoje em dia?...
Quando algum atrevido ou ingénuo questiona o porquê de não se darem direitos (que não são privilégios, pois também contêm deveres) que foram estabelecidos no setor público ao setor privado, o que acontece? Há sempre alguém que responde “popularuchamente”: “pois, é só direitos, só direitos, então e quem paga a crise”?
Esta estigmatização social tem vindo a ser aproveitada e/ou estimulada pelos sucessivos Governos e pela troika, porém as justificações dadas para o corte destas que seriam afinal as efetivas “gorduras” do Estado (deixando de fora as verdadeiras…) colidem com alguns factos.
Senão vejamos, o peso dos salários na despesa pública é de apenas 20%, a maior fatia é concentrada em altos cargos (daí a média poder parecer elevada para o comum cidadão, mas a moda não…) e a percentagem de funcionários públicos na nossa população ativa é das mais baixas da União Europeia.
Diz-se que a riqueza é gerada pelo privado, mas também há muita riqueza desviada pelo mesmo, acima de tudo, pelo “grande” privado e não tanto pelos pequenos comerciantes, no que respeita aos números redondos.
O argumento da recessão e/ou da crise tem servido para tudo justificar, no que respeita a medidas restritivas. Muitas pessoas (embora cada vez menos) têm sido levadas a assumir como sua / nossa a culpa. Ouvimos e dizemos “nós portámo-nos mal, nós gastamos muito, nós andamos a viver acima das nossas possibilidades”, saindo a elite nacional e internacional verdadeiramente responsável de mãos lavadas no meio desta cantilena ensinada com conivência dos media comentadores. Dividir para reinar à boleia da crise…
A ratoeira perversa nesta argumentação é a de instigar que, no público e no privado, nos convençamos que temos de dar graças para termos emprego e fazer de tudo só para o manter ou arranjar, pois há que pensar na nossa família, segurança, sobrevivência…
O medo é propositadamente criado para gerar obediência cega, para que façamos o que for preciso para nos safarmos, nem que isso seja indigno, não ético, não produtivo e/ou ilegal…quer nos demos conta disso, quer (ainda) não.

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional

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sexta-feira, 2 de maio de 2014

ESTAR NO TRABALHO MUITO TEMPO OU TRABALHAR BEM? (2ªparte)


Sejamos honestos e realistas, a maioria das pessoas prefere trabalhar pouco tempo, mas bem, em vez de muito tempo, contudo mal. Normalmente as águas separam-se mesmo assim.
A questão aqui a merecer que paremos um pouco para pensar não é, de facto, se se deve trabalhar mais ou menos uma horita… É sim o princípio, o precedente, o rumo escolhido como solução para qualidade de vida de uma sociedade, de toda uma civilização. Se for regra, seja legal ou ilegalmente (que em muitos casos é o que acontece) não. Se for uma exceção num imprevisto que sucedeu poderá obviamente ser aceite, com bom senso, sustentada numa gestão séria e aberta. Isto desde que o azar não se torne hábito…
Não importa se é uma, duas, cinco, até poderemos trabalhar dez ou doze horas por dia legal ou ilegalmente como se faz nalgumas empresas, zonas ou países ou quiçá regressar à escravatura de 24 horas disponíveis para o patrão e/ou para colegas (infelizmente ainda existe no nosso mundo e nalguns casos perto de nós por imposição, subserviência e/ou bajulação). A política do mal menor acaba, muitas vezes, por ser a política do mal maior que não tem limites…
Porventura, o que importa será sim a forma como se trabalha durante o tempo laboral, não numa perspetiva fiscalizadora do que supostamente é trabalhar “como deve ser”, mas sim numa perspetiva de permanente procura da forma de rentabilizar recursos, atingir objetivos ambiciosos e fazer diferentes, construindo valor acrescentado.
É óbvio que toda a gente deve procurar ser eficiente e fazer um trabalho com qualidade e diligência. Não é de hoje, sempre foi assim. É uma questão de brio, o que não deverá implicar nem deve ser confundida com a subserviência de ter que “estar caladinho e fazer o que lhe mandam”.
Chegando a este ponto da análise, inevitavelmente falaremos do tipo de gestão, de lideranças, da liberdade / autonomia individual e coletiva para poder fazer bem.
É fundamental e até bastante simples estimular para a inovação, protegendo da eventualidade do erro quem está na nossa equipa, pois importa ver o que falhou e não tanto quem falhou, sabendo-se que os apontares de dedo levam ao jogar pelo seguro de fazer mais do mesmo, mesmo que errado… De facto, quem não faz não erra e só se evolui com as lições nunca mais esquecidas, aprendidas precisamente com… grandes erros.
Vejamos um exemplo quando as coisas correm bem. Quando, no dia-a-dia de trabalho, o trabalhador persegue o cumprimento ou superação de objetivos (anteriormente negociados em consenso com a sua chefia), não abandona situações/casos pendentes com clientes internos ou externos e apresenta propostas de melhoria / inovações (não apenas para um caso, mas para aspetos transversais) que julga terem boa probabilidade serem ouvidas e aprovadas.
Por estes caminhos, efetivamente responsabiliza-se pela forma como fazemos as coisas e não pelo que nos mandam fazer…
Indo um pouco mais longe e talvez ao ponto essencial de todas as polémicas, será que o foco no aumento do tempo de trabalho não serve apenas para escamotear efetivas razões de falta de produtividade relacionada com uma pobre gestão nas organizações portuguesas e falta de visão dos seus supostos líderes? Não estaremos perante uma fuga da desresponsabilização e fenómeno de bode expiatório?
Ora, se a relação entre tempo de trabalho e produtividade poderá afinal de contas ser uma questão (de) técnica poderá, assim, ficar um pouco desmistificada, não poderemos esquecer um enigma já de índole mais civilizacional…
O trabalho, sendo mais ou menos interessante, pode impedir-nos de ter tempo de... viver? Isto é, se podemos antes ou depois do trabalho usufruir de tempo de qualidade com família, amigos, educação, saúde, cultura, lazer, descontração, hobbies, férias, sono, simples descanso ou o que / como bem entendermos?
Não nascemos só para trabalhar, o tempo livre não pode ser um luxo, é um direito civilizacional e se muitos não o têm há que lutar para que o possam ter ao invés de cortar a direito e nos (auto)nivelarmos por baixo…

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional

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ESTAR NO TRABALHO MUITO TEMPO OU TRABALHAR BEM? (1ªparte)



Nos tempos que correm, é de conhecimento comum que o Governo e troika estão a procurar implementar o aumento do tempo de trabalho em vários setores, para já com a colocação no setor público do tempo de trabalho mínimo em 40 horas semanais que são o máximo legal previsto para o setor privado. No futuro se verá o que mais…
Muita gente tem vindo a afirmar que tudo isto poderá servir apenas para prolongar turnos, cortar no pagamento de horas extraordinárias e justificar cortes de pessoal em setores importantes, cuja eficiência e eficácia no terreno começam a ser postas em causa pelos próprios utentes. Há também quem acrescente que mais horas no posto de trabalho não vão significar um mais eficaz e eficiente serviço / atendimento aos cidadãos / contribuintes, indo contudo prejudicar a vida pessoal dos cidadãos e das suas famílias que constituem, no fundo, o coração de uma sociedade.
O aumento da produtividade parece ser o fundamento apresentado pelos autores das medidas, contudo as consequências mais claramente visíveis apontam para o facto de se ir trabalhar mais tempo por menos dinheiro (quer no público, quer após ou imediatamente no privado).
Assim sendo, há que procurar respostas claras a algumas perguntas de base. Em que medida trabalhar mais ou menos horas por dia estará relacionado com a produtividade? Mais tempo, melhor produção? 1 + 1 são 2, portanto o que é preciso é “trabalhar, trabalhar”? Porém, terá a ver com o quanto se trabalha ou com o como se trabalha? E para que trabalhamos? Serão tempo de trabalho, produtividade e qualidade de vida compatíveis? É que não somos máquinas…
Relativamente à produtividade, no senso comum nacional, são facilmente identificadas, em conversas informais, certas crenças relacionadas com as possíveis razões para uma suposta lacuna, detetada nos trabalhadores portugueses. Esbatem-se argumentos que são precipitadamente tidos como científicos, que contêm normalmente uma perspetiva de causa – efeito.
Alguma ligeireza é detetada quando são avançados, quase que subliminarmente, “factos que parece que toda a gente já sabe ou devia saber” como a suposta “preguiça”, qual característica genética dos portugueses, que só poderá ser contrariada com “rédeas curtas”, no que aos direitos fundamentais de trabalho diz respeito.
Sem pensar muito, encaixa-se facilmente a lógica de que “as pessoas são mandrionas, por elas não fazem nada, só trabalham quando têm medo, portanto têm é que dar mais tempo e temos que andar sempre em cima delas”. Há sempre quem diga que já faz muito mais do que horas normais de trabalho por dia há bastante tempo e “qual é o mal de trabalhar durante mais um bocado todos os dias?”.
Normalmente a seguir a esta tomada de posição, a continuação do raciocínio varia entre: “olha eu nem noto as horas passarem, pois gosto muito do que faço, é como se fosse um hobbie e ainda por cima recebo dinheiro por isso” (clara e infelizmente uma minoria – se existir a efetiva liberdade de escolha), “que remédio, é assim na empresa, senão vamos para a rua”, “não faz mal nenhum, pois isto tem de andar para a frente”, “se há trabalho para fazer e prazos a cumprir trabalhamos as horas que for preciso, podendo ou não ser compensados depois”, etc.
Então, independentemente da fonte de motivação, trabalhar muito é sinónimo de trabalhar bem?
Faz lembrar a história que um amigo me contou sobre o lenhador que se fartava de trabalhar, chegava a serrar madeira 8, 9 ou 10 horas por dia, não tendo tempo para nada nem mesmo para… afiar a serra (o que lhe permitiria produzir em menos tempo de trabalho).
Indo mais longe, se considerarmos que a produtividade hoje em dia está mais fortemente correlacionada com a sofisticação tecnológica e não tanto ao esforço físico e presencial humano, facilmente, poderemos pensar que se o lenhador inventasse uma máquina de serrar inovadora…
Ora, em Portugal as elites parecem querer manter o lenhador a trabalhar 8, 9 ou 10 horas e o resto não interessa… Mais do mesmo, quando, afinal, podia ser melhor.

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional

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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

PAUSAS NO TRABALHO



Hoje em dia, num clima de incerteza quanto ao futuro social, económico e cultural em que vivem várias organizações públicas e privadas, a tensão e ansiedade acumuladas são grandes, bem como a vontade de encontrar algo a que nos possamos agarrar para tornar útil e focada a revolta que se sente de forma generalizada.
Neste ambiente incandescente, muita gente distribui juízos e sentenças sobre direitos básicos do comum cidadão como se fosse aí que estivesse a razão dos buracos financeiros que a grande corrupção portuguesa e estrangeira criou. Muitas pessoas parecem reafirmar o seu desejo de candidatura ao posto de capataz que urge, segundo a sua postura, criar para pôr todos os mandriões na linha. Esta melodia arranhada só é, ocasionalmente, engasgada quando algum atrevido questiona mais a fundo sobre o seu efetivo conhecimento acerca da realidade técnica, humana e de liderança associada às funções desempenhadas pelos visados…
Após um sonoro “chega para lá” disfarçado de feitio, o timbre regressa mais robusto, apresentando como às de trunfo o seu exercício voluntário de vigilância das práticas laborais para com aqueles que andam ali, que não fazem nada e que deviam era ficar lá até à noitinha.
Prossigamos nesta perspetiva. Frequentemente quem (auto)louva e cobra o sacrifício de longas horas de trabalho e quem “convida” os outros a terem semelhante postura só assume para consigo mesmo que o real aproveitamento das longas horas de trabalho é, de facto, muito relativo…
É precisamente esta gestão eficaz e eficiente do tempo de trabalho que pretendo, sem demagogias, com o leitor conversar. Ora, mesmo tendo em conta a variedade de profissões, tarefas, responsabilidades, prazos e objetivos, afirmar-se que se está sempre a trabalhar é a provavelmente maior ilusão do mundo laboral em qualquer parte do planeta.
É certo que haverá quem diga que há abusos e terá, em parte, razão, mas serão sempre casos pelos quais a restante maioria não pode pagar, sendo injusto colar-lhe um rótulo. Não raras vezes quem aponta o dedo é precisamente quem mais longas pausas faz (basta chamar-lhe outro nome, quiçá… parte do trabalho).
Há que ser honesto e realista, é inevitável ter que se fazer pausas no trabalho para gerir o cansaço. Vejamos. Nas escolas, as crianças e adolescentes têm aulas com duração limitada de 50 ou 90 minutos, devido à necessária gestão do “picos” de esforço, concentração e saturação. Obviamente que também os seres humanos mais velhos precisam de parar de vez em quando, pois não somos máquinas que trabalhem com afinação total ao longos de horas a fio.
São necessidades efetivas quer em termos de saúde (o que por si já é mais do que suficiente), quer precisamente em termos de efetiva produtividade. A respeito desta última, sejamos claros, esta será mais alta se o produto resultante for melhor e não necessariamente se se estiver mais tempo por ali. É, de facto, preciso “respirar” um pouco, ficar mais aliviado, poder regressar mais tranquilo ao trabalho e fazer mais e melhor na sua organização, para render!
Se é necessário pedir desculpa por este “crime”, então rigorosamente todos teremos de o fazer, pois qualquer pessoa o faz, quer o admita quer não. Quem disser que consegue estar sempre ultra concentrado, não está a ser sincero… Ou encaramos isto com naturalidade ou nos iludimos na suposta proibição, acabando por incentivar apenas um melhor ou pior faz de conta…
Por outro lado, parece que só certos conteúdos são aceites socialmente para se ter permissão para uma pausa, tais como… fumar! Então e quem não fuma? Fará sentido estar a averiguar o que se vai fazer no tempo legítimo de pausa para permitir ou não que esta seja concedida? Será que uma pessoa não tem direito à pausa e o que faz nesse tempo ser assunto seu? Senão qualquer dia toda a gente fuma ou finge que fuma…
Julgo que o que se faz com esse tempo de pausa diz respeito à liberdade pessoal de cada um, seja conversar, comer ou beber qualquer coisa, brincar com os colegas, cumprimentar amigos ou simplesmente não fazer nada nesse curto período. Qual é o mal?
Indo mais longe, a efetiva necessidade de uma “permissão” superiora é, na minha opinião, muito questionável, o que não quer dizer que a pausa não possa ser comunicada e exercida em momentos que não ponham em causa o serviço.
Portugal é um dos países da União Europeia em mais horas se trabalha por dia (ou está mais tempo no local de trabalho), mas com níveis de produtividade por hora mais humildes. Por outro lado, os portugueses que têm de sair do seu país são reconhecidos no estrangeiro pelas suas competências, criatividade e ânimo no trabalho.

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional
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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

FORMAS DE OLHAR O MUNDO (2ª parte)




Na minha opinião, no que respeita à forma como vemos e analisamos a dita realidade que nos rodeia, ninguém tem o poder / direito de julgar a fotografia que é tirada por cada pessoa num dado instante. Tudo (ou quase tudo?…) deve ser contextualizado, quer usemos as lentes da ciência, senso comum / empírico, tradicional, herança familiar, religião, espiritualidade, micro / macro do cosmos, entre outras formas.
Não deixa, de facto, de ser que lá está, seja esta visualizada consciente ou inconscientemente com “óculos” aparentemente racionais ou emocionais. Este respeito e tolerância são profundos e exigentes, sendo, muitas vezes, necessário respirar fundo para compreender os outros lados. No fundo, é a essência da nossa liberdade conjunta.
Mas e se entrarmos num exagero seguindo meramente uma das vias, seja a racional (Tipo 1) ou a emocional (Tipo 2)? E o que pode ser considerado um exagero? Se for uma vez, se for de vez em quando, se for sempre assim? Como e quem poderá avaliar isso e com base em que critérios? Tem a ver com a frequência da utilização de um tipo de “óculos” ou com as suas consequências? E quem tem o direito de o julgar? Apenas a própria pessoa?...
Ora, será importante não ceder à tentação de assumir um papel paternal, superior, formatador e/ou endeusado, não fazendo avaliações que possam ser preconceituosas a nível de estilos de vida e de crenças pessoais com que não crescemos nem conhecemos / compreendemos nesse dado momento. Julgo ser fundamental procurar não ultrapassar esta linha, pois cada pessoa tem (ou deveria ter numa sociedade democrática) o direito de viver a sua vida como quer. Afinal, será isso a efetiva liberdade…
Sendo assim, entre outras possíveis hipóteses, um dos critérios que poderá fazer sentido utilizar será o risco de vida e o sofrimento que a pessoa possa sentir. Se umas situações são claras e as próprias pessoas decidem que / quando precisam de ajuda, outras não serão tanto assim e poderemos cair no erro (seja por altruísmo desajeitado, seja por conservadorismo intrometido) de pedir ajuda por elas…
Efetivamente, os “óculos” do Tipo 1 (racional) e do Tipo 2 (emocional) parecem constituir-se, provavelmente, como duas visões imprescindíveis e complementares para se ser feliz e que poderão unir-se de modo tranquilo. No entanto, não poderá existir o risco ou receio de se anularem? Esta é uma questão muito interessante e desafiante.
Por vezes, o produto dessa conjugação é o conflito. Porém, poderá não haver razão para o temer, seja relativamente ao processo como ao resultado. Ele apenas sinaliza que se está no momento de encontrar um novo equilíbrio. Faz-nos verdadeiramente crescer ao termos contacto com estas duas formas de “sentir” a realidade. No entanto, cada pessoa deve ter o espaço para encontrar o (seu) ritmo mais adequado e aquele que se revelar mais confortável e tranquilizador / inspirador para si… Não é, de facto, possível preterir o Tipo 1 em função do Tipo 2 nem vice-versa.
Creio que o equilíbrio não poderá ser sinónimo de estar ali permanentemente num meio termo que nem é uma coisa nem é outra, só porque supostamente se “amadureceu” (como sucede a muitos adultos que, depois mais tarde, querem voltar a sentir emoções fortes durante anos adormecidas). Julgo que isso só por si ajuda, mas não basta para estar mais perto da saborosa utopia que é a felicidade ou a sua procura. Seguir esse caminho, pode tornar-se num pouco de tudo que acaba por ser quase nada, numa zona de ninguém, num abdicar de se sentir mais um pouco, num hábito de não ser… Não.
Neste equilíbrio racional / emocional, há que permitir-se a pesquisa mais profunda em ambos os campos. Não é suficiente que se faça apenas num deles, isto seria um naufrágio de curto, médio ou longo prazo. É, de facto, importante fazer algumas excursões individuais e/ou partilhadas mais longe, umas viagens tranquilas a cada um dos polos. Tudo isto regado com um genuíno sentido de humor relativamente a nós, aos outros e a tudo o que nos rodeia, assim se libertará eventualmente muita tensão. Mas será que também nos tipos de sentido de humor existirão diferenças de 2 ou mais tipos?...
E, afinal de contas, qual é o mal em imaginar, sonhar e criar? E qual é também o mal em ter os pés assentes na Terra? Não se trata, de facto, da diferença entre Bem e Mal (não entrando nas dicotomias Céu / Inferno, mas também não lavando as mãos como Pilatos, dizendo que é tudo igual e vai dar ao mesmo).
Compreendendo esta balança racional / emocional humana, podemos questionar onde fica o livre arbítrio e flexibilidade para se / quando quisermos mudar de “óculos”? Ou somos obrigados permanecer sempre com os mesmos olhos que nós supostamente escolhemos? Afinal, somos o que fazemos ou fazemos o que somos?

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional
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FORMAS DE OLHAR O MUNDO (1ª parte)



Correndo o inevitável risco de ser demasiado redutor na tentativa indutiva de estabelecer um padrão, no que diz respeito a como o ser humano se relaciona com o mundo, parecem haver (pelo menos...) 2 modos de olhar para as coisas conhecidas e/ou desconhecidas, do micro ao macro, do concreto ao abstrato, do claramente visível ao resto…
Sublinho que eu (na verdade, acho que qualquer ser humano), por mais que tente (devido ao nosso diabinho Ego), não tenho o direito de ajuizar como errada qualquer uma delas. Porém, como diria uma grande amiga “no meu pouco entender”, parece-me que cada pessoa tem a sua análise racional / emocional, do que a rodeia num dado instante, “sintonizada” predominantemente num de dois tipos que a seguir tentarei apresentar. São dois tipos de “óculos” que uma pessoa coloca para analisar a realidade.
Com o Tipo 1 (racional), preferimos confirmar ou contestar factos com os conhecimentos disponíveis em termos de acesso já criados pela nossa ciência. Com Tipo 2 (emocional), preferimos procurar hipóteses baseadas em relações, suposições, especulações com provas que se podem confirmar ou não com a tecnologia disponível no momento (histórico, económico, político, até religioso se lembrarmos a Inquisição). 
Ora, se com as “lentes” do Tipo 1 ganhamos pragmatismo e sensatez, também poderemos, por vezes, cortar à partida algumas linhas de raciocínio mais desenvolvido, relacional e criativo. Na linha do Tipo 2, encontramos muitos génios injustiçados no seu tempo de vida (Galileu, Davinci, mesmo Einstein porventura ainda), na maioria "silenciados ou ridicularizados" por pessoas “sintonizadas” no Tipo 1 e também encontramos simples manipuladores ou verdadeiros charlatões (na maioria também desmascarados por pessoas “sintonizada” em 1). 
Qualquer um dos tipos tem claramente vantagens e desvantagens, sendo a grande variante a perceção do RISCO ou do que se entender por mais ou menos arriscado, em função das consequências negativas ou positivas que poderá trazer. É mais ou menos arriscado controlar ou soltar vivermos bem?
Podemos optar pelo Tipo 1 supostamente mais seguro, mas podendo cometer injustiças, crendo nós que temos toda a razão, ou podemos ficar no Tipo 2 supostamente mais incoerente, mas que também dá mais possibilidades de se fazer a diferença e dar saltos de conhecimento. 
Há que sublinhar que falamos de momentos de análise, que poderão, ou não, constituir algo mais enraizado, padrão e/ou regular. São momentos, minutos, instantes ao longo da vida de uma pessoa na maneira como analisamos situações. Optar consciente ou inconscientemente, num dado momento, por uma análise Tipo1 ou Tipo 2, poderá ser uma questão de vontade, (pre)disposição, somo de critérios ponderados, simples intuição ou enfim o resultado de um hábitos conscientes ou inconscientes já adquiridos ao longo da vida de uma pessoa e da evolução de espécie humana.
Não se trata de "uma pessoa ser assim e outra assado". Pode haver é mais espaço, tendência ou probabilidade para optar mais vezes por um caminho ou por outro... Mas e quando se opta claramente muito mais por um tipo do que pelo outro?
Ao longo dos tempos e de várias culturas, muitos nomes e descrições têm sido criados para separar as águas nestes dois polos de neurose / psicose, dedutivo / indutivo, prático / teórico, juiz / irresponsável, empreendedor / contemplativo, grave / agudo, dia / noite, etc…
Demasiado Tipo 1, tornamo-nos chatos, moralistas, cinzentos, juízes, supostos donos da razão única e óbvia (assumindo ou não a sua inquestionabilidade), cansativos, arrogantes no sentido de achar os outros maus ou burros. Demasiado Tipo 2, tornamo-nos divagantes, inconsequentes, pouco práticos, desorganizados, dificuldade na explicação simples por receio de ser redutor coisa que não querem, relaxados, preguiçosos com o argumento das várias perspetivas, arrogantes no sentido de achar os outros fechados e de vistas curtas.

vascoespinhalotero@hotmail.com
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terça-feira, 17 de setembro de 2013

IR PARA FORA OU FICAR POR CÁ? (2ª parte)



Indo para fora, há que optar por levar a família ou deixá-la no nosso país (seja a pensar em mais tarde se reunirem no novo destino ou no regresso a Portugal quando as coisas acalmarem).
Encontrar trabalho/emprego por conta de outrem parece ser a inevitável solução inicial numa aventura deste género por alguém de classe média e baixa (pois classe alta pode transferir ou investir numa área de negócio por sua conta) por intermédio de pessoas conhecidas ou pela internet.
Acresce ainda, dentro das ofertas de trabalho encontradas, a escolha do país de destino parece dividir-se entre duas grandes alternativas: ir para onde se possa ganhar dinheiro ou até muito dinheiro para trazer e gastar lá pouco ou mesmo apenas sobreviver (“estar lá sem lá estar mesmo”) ou então ir para onde a qualidade de vida também seja importante (“estar lá para viver bem”). Qualquer uma das alternativas pode ser ponderada em função ou independentemente de o plano ser ficar lá apenas por algum tempo, muito tempo ou o tempo que for preciso.
A integração e acolhimento no país de destino é também um ponto a ponderar com atenção e antecipação. Ocupar postos de trabalho que ninguém quer (como sucedeu com muitas vagas emigratórias portuguesas no passado) parece uma oportunidade mais tranquila logo à chegada, geralmente exigindo qualificações mais simples, embora normalmente seja mais duro para a saúde e menos rentável economicamente. Aparentemente não trará rivalidade ou inveja profissional, embora possa levar a uma vida de “pão e água” e isolamento em termos culturais, o que poderá dar origem a fenómenos de segregação e discriminação por parte da população de origem, sendo a nossa gente vista como cidadãos de segunda.
Ocupar postos de trabalho que cidadãos do país de destino também desejam é um fenómeno novo para a emigração em massa de população portuguesa, mas mais provável dadas as elevadas qualificações dos nossos ex-estudantes de ensino profissional e ensino superior. Com estes currículos e tendo em conta que as empresas (seja em Portugal seja no estrangeiro), podem querer pagar menos pelo mesmo serviço, poderá suceder que numa situação de emergência pessoal ou familiar o nosso emigrante aceite (ou sugira até) fazer trabalho que exija elevadas qualificações a um preço mais baixo do que o cobrado pelos cidadãos que já lá vivem.
Mesmo que o pagamento seja igual, existirá inevitavelmente rivalidade profissional com os técnicos dessas áreas que habitam na nação que acolhe. As reações podem ser várias. O recém-chegado pode predispor-se para fazer tudo e a que horas o que for preciso tornando-se um (auto)explorado para obter dividendos para comparações com os técnicos da mesma área que já lá estavam. Podem contudo querer ser tratado de forma igual, conseguindo-o ou não.
Se existir emprego e bom salário para a maioria, em princípio, tudo bem, se deixar de ser assim, problemas poderão surgir que podem levar a uma maior integração e união a nível de sindicatos e movimentos civis que juntem os novos e os que já lá estão na construção e reivindicação de equilíbrios sociais e laborais entre trabalhadores e patrões. Porém, outras consequências poderão ocorrer a nível de segregação e discriminação por parte da população de origem, podendo também (ou não) a nossa gente ser vista como cidadãos de segunda.

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo das Organizações / Gestão de Recursos Humanos / Desporto / Orientação Vocacional
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