sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Equívocos sobre Psicologia e Religiões

A Psicologia é uma ciência humana relativamente recente. O seu “nascimento” científico data de 1879, quando o alemão Wundt criou, em Leipzig, o primeiro laboratório de Psicologia Experimental. Desde aí, até aos nossos dias, esta ciência desenvolveu-se, “amadureceu” em termos práticos com vários contributos e expandiu-se em várias áreas e correntes. O prestígio social da Psicologia cresceu imenso na últimas décadas, mas, como “não há bela sem senão”, surgiram também algumas ideias (in)fundadas que se foram enraizando no senso comum...

Por exemplo, existe um preconceito que se tem vindo a generalizar socialmente: o de que um psicólogo tem forçosamente de apelar à calma e compreender (ou concordar) sempre com tudo o que um cliente diz. Grande equívoco este! Acontece sim que, muitas vezes, até a postura do psicólogo é (com estudos científicos a suportá-lo) desafiante!

Um outro ponto interessante tem a ver com o mito de que o psicólogo está sempre a interpretar tudo! Uma boa resposta a esta “teoria da conspiração” pode surgir apenas com uma questão, citando um exemplo de outro profissional: conhecem algum contabilista que em todos os minutos e segundos do dia e da noite apenas faça contas?...

Adoptando outro ângulo de análise, podemos ver que, actualmente, há quem erradamente coloque a psicologia no mesmo patamar de doutrinas religiosas de abordagem da vida. Quem o pensa e/ou diz não tem em conta que, apesar de algumas ramificações comuns, um psicólogo nunca será um sacerdote “sofisticado”, nem nas suas teorias, nem, definitivamente, nas suas práticas. São papéis bem distintos, nalgumas matérias até, sob um certo ponto de vista, complementares, mas certamente que não em todas.

Desviando um pouco o foco de reflexão, damo-nos conta que também as diversas religiões sofrem uma onda de equívocos e (des)informação. Julgo ser rigoroso afirmar que, hoje em dia, uma grande fatia da opinião pública sente uma certa desilusão, descrença ou mesmo algum receio para com as diversas religiões. A este facto não é certamente alheio o surgimento e divulgação, pela comunicação social, de fenómenos extremistas (muitas vezes apenas com motivações económicas ou políticas...) que acabam por inspirar nas pessoas o medo de comprometimento com opções erradas e as religiões passam frequentemente por precipitadas avaliações de “8 ou 80”!

Há que reconhecer, no entanto, um facto que urge discutir numa auto-análise a realizar pelas várias religiões: a escassez de bons intérpretes (embora estejam a aumentar) que consigam fazer a ponte entre as doutrinas escritas e os exemplos práticos, respostas a problemas e desafios do dia-a-dia actual. E neste ponto específico da facilidade de comunicação, julgo que algumas “seitas” (onde o conceito de ética é muitas vezes “atropelado” pelo dinheiro fácil...) têm vindo a ganhar espaço...

Ora, ao contrário do que muitos, com ares de modernidade, facilmente dirão, as várias doutrinas religiosas não me parecem desactualizadas. São na sua globalidade ensinamentos muito válidos, ricos e interessantes. No entanto, é necessário explicar bem os seus conceitos com aplicações, reais, concretas e responsáveis no dia-a-dia na relação connosco e com os outros.

A moral dogmática ou a apresentação do sobrenatural como argumento da razão ou, melhor, da “obrigação” (pelo receio da punição) facilmente leva a atitudes artificiais, ansiedades sem razão aparente e aplicações erradas, que provocam desigualdades com consequências para os mais fracos (precisamente quem se quer proteger).

Há razões para optimismo, pois existem, nas várias religiões, cada vez mais, bons intérpretes que conseguem demonstrar que os ensinamentos não são estáticos, são sempre relativos e passíveis de contextualização. Uma conversa é sempre melhor que um juízo. E é exactamente esta abordagem que faz a diferença na vida das pessoas!

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Inovação: não começar a casa pelo telhado, nem copiar a casa do vizinho

Numa altura em que o conceito de inovação parece estar na moda no nosso país, (ou pelo menos apela-se para que esteja) revela-se pertinente pensar um pouco sobre como “nasce” a atitude de inovar. Há quem considere que inovar, no sentido de arriscar, inventar ou criar seja uma característica inata, que a “mãe natureza” a uns dá e a outros não, por mais que a procurem. Outros, porém, defendem que esta característica geral se pode aprender, cultivar, reforçar e aqui se aponta a educação e cultura, na sua abrangência, como ponto essencial para enraizar a estratégia de que o risco da inovação compensa.

Não é por acaso que países como Noruega, Suécia, Finlândia ou Dinamarca têm, nos últimos anos, desenvolvido as melhores ideias em termos de mercado. Vejamos as suas abordagens e práticas concretas ao nível da educação e cultura, que não são vistas como despesas (tão fáceis de cortar num orçamento de Estado de “vistas curtas”), mas sim como investimentos que têm, de facto, retorno para a sociedade!

Com um leve tom de profecia, bastar estarmos atentos às ideias que irão surgir nas empresas dos países de leste europeu nos próximos anos e o salto de desenvolvimento que terão... Nestes casos, uma Educação forte (gratuita, pública, com qualidade e igualdade de oportunidades) traz uma Inovação forte (com aplicações quer no público, quer no privado), não começando a casa pelo telhado…

Assim, parece haver uma maior probabilidade de “criarmos” pessoas inovadoras, porém existirão sempre umas pessoas mais inovadoras do que outras e os portugueses até têm alguns bons exemplos de inventores! Infelizmente, na sua maioria, os nossos inovadores são desvalorizados ou ridicularizados, sendo que este sim parece ser o nosso fado ao longo dos tempos...
Sejamos francos, na sociedade portuguesa do passado e ainda presente, tão bem descrita por Eça de Queiroz, muito mais facilmente é implementada uma ideia copiada do estrangeiro do que uma ideia germinada pela “prata da casa”!... Os nossos anos de atraso devem-se exactamente a isto: estamos à espera das ideias vindas de fora, quando até já as tivemos cá dentro!

O desafio dos nossos dias é precisamente esse: a busca de ideias! Quanto mais espaço dermos para essa busca, maior será a nossa vantagem competitiva, a qualidade dos nossos serviços, a recuperação da nossa economia e da auto-estima nacional. Só assim poderemos estar um passo à frente na inovação do dia-a-dia e, consequentemente, no mercado global, pois a inovação não se pode aplicar apenas às grandes empresas, também as pequenas e médias, quer públicas, quer privadas.

vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional

sábado, 7 de julho de 2007

O NEGÓCIO DAS URGÊNCIAS (PRIVADAS)
A questão do encerramento de diversos serviços de urgências em Portugal, supostamente devido ao número insuficiente de utilizadores nalguns pontos, continua na ordem do dia. A argumentação usada tem tanto de incrível como de teimosa, dado ter sido repetidamente utilizada pelo ministro da Saúde até se tornar banal e aceite como natural, óbvia e mesmo necessária pela maioria da população. Passando, na opinião pública, a discutir-se não este argumento sem lógica alguma, mas sim meramente quem é que vai fechar e quem é que se safa.

Trata-se de uma armadilha demagógica cozinhada na frieza das estatísticas que com jeito provam o que se quiser. Como é possível metermos no mesmo saco um utente de uma urgência (esporádico) e um cliente assíduo de um centro comercial? Ir ao centro comercial às compras pode ser um hábito regular Já ir às urgências é uma necessidade, uma excepção nos hábitos regulares das pessoas. Importa, sem dúvida, se a urgência está a 20 km ou a 50 km; se a urgência está aberta 5, 12 ou 24 horas por dia; se tem técnicos que possam prestar os primeiros cuidados, de forma a, pelo menos, estabilizar uma situação de saúde!

É certo que há pessoas que podem ir às urgências por motivos que não o justifiquem, mas, por essas excepções, pagaram todos os outros? Acrescentemos que, se a questão for apenas esta, há que apostar na informação, prevenção e sensibilização para estas situações (que não têm contado com os apoios suficientes, sobrevivendo apenas da boa consciência dos técnicos envolvidos). De forma a que, paradoxalmente ou não, haja menos situações nas urgências, mas que estas não deixem de lá estar, porque, mais dia menos dia ou mais noite menos noite, alguém vai precisar de lá ir!

Importa também, sem dúvida, se o apoio é gratuito ou se vamos pagar 5, 15 ou 50 euros! Parece que, contrariando a Constituição Portuguesa, que nos diz que o direito à saúde deve ser tendencialmente gratuito, as taxas moderadoras e outras criações económicas estão na forja para o serviço nacional de saúde. Se este cenário já é mau, outro pior se avizinha: para substituir as urgências públicas que se fecharem por suposta falta de utentes, surgirão urgências privadas, com os custos certamente no “menu”…

Com este precedente encara-se o custo de um apoio de urgência na área da saúde com o mesmo “olho para o negócio” que o custo de um produto do centro comercial: que poderá subir ou baixar ao sabor do mercado e da (não) concorrência. Sejamos pragmáticos, relativamente aos custos da saúde, no privado a constituição transforma-se apenas em “caixa registadora” e deixa de haver discussão sobre taxas moderadoras, porque quem pode paga, quem não pode…

A luta pela melhoria das urgências e dos seus serviços deveria ser o foco da discussão e não a sua manutenção, mas o “carimbo” da crise serve para cortar em tudo, excepto para buscar os rendimentos fiscais que resolveriam de forma massiva a situação no Estado... É claro que há problemas, acima de tudo, de má gestão, pois é sabido que há serviços que funcionam mal e que gerem mal os recursos disponíveis. Mas a solução é acabar com os serviços ou procurar melhorá-los? Afinal de contas, pretende-se julgar somente ou ajudar a evoluir? Se a intenção é apenas a primeira, a quem interessam os veredictos desse julgamento redutor?

Parece cada vez mais claro que, actualmente, a política do Estado não é melhorar os serviços, é simplesmente denegrir a sua imagem (muitas vezes alimentando preconceitos sobre os serviços públicos que são generalizados sem factos) para cortar em recursos muitas vezes essenciais às populações. Depois coloca-se em causa a qualidade do serviço e apontar-se como solução mágica a sua transferência para o sector privado! Uma receita já conhecida…

Devo referir que não vejo o privado como diabo, nem o publico como santo. Há obviamente pontos fortes, pontos fracos e potenciais sugestões de melhoria para todos os sectores. Julgo, porém, que existem áreas que deveriam ser o pilar seguro de uma sociedade como: Educação, Saúde, Luz, Água, Cultura, Apoio Social, entre outras que deverão estar sempre no domínio público. Outras áreas menos vitais poderão ficar para a concorrência (assegurando que esta acontece de facto, evitando os monopólios) dos privados. Assim, funcionam os países com maior qualidade de vida do mundo: Suécia, Noruega e a tão falada Finlândia!...
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional

domingo, 3 de junho de 2007

Tipo Gil Vicente e tal...

Há muito que um programa de televisão do principal canal público não causava tanto falatório. Não por motivos de pura polémica ou escândalo vazio e “comercialóide”, nem pelo sensacionalismo ou cultura do banal, mas sim simplesmente pelo seu rico e interessante conteúdo e forma: “Isto é uma espécie de magazine”! O novo programa dos “Gato Fedorento” é a mais recente prova de que é possível a máxima “faça você mesmo”. É que sabe mesmo bem observar como pequenos pormenores que já todos vimos, ouvimos ou sentimos, no dia-a-dia da nossa sociedade, são apresentados, de forma descontraída, em rábulas inteligentes, criadas com uma subtil “piscadela de olho”.

Há muito que os domingos à noite não eram tão ansiados (será que ninguém se lembra que o dia seguinte é segunda-feira de manhã?), existindo muitas vezes a expectativa sobre o que é que eles vão fazer desta vez. E a verdade é que este humor é mesmo “sério”! No sentido em que as caricaturas apresentadas retratam com precisão milimétrica estereótipos sociais, económicos, culturais e mesmo religiosos, numa análise nacional e também internacional. Tudo isto com um doce ingrediente de aula de cidadania actualizada e espírito crítico atento e, sobretudo, construtivo…

Muitas vezes parece que podemos imaginar os próprios visados das divertidas críticas a rirem e a aplaudirem, sendo que alguns destinatários concerteza perceberão o “presente envenenado”, enquanto que outros julgarão que a “carapuça” servirá a alguém que não eles ou que foi apenas uma piada como outra qualquer... O estilo destes brilhantes rapazes, cada vez mais mordaz e certeiro, faz lembrar em conteúdo e, algumas vezes, também na forma, as obras de Gil Vicente e mesmo de Eça de Queiroz!

O seu humor não agrada a todos, é certo. Entre os cépticos encontramos pessoas que preferem o estilo mais “terra a terra” de Fernando Mendes, Camilo de Oliveira, Marina Mota, entre outros representantes do humor da revista “à portuguesa“, carregada de tradição e carinho no nosso coração. No entanto, também este público começa a apreciar, por vezes, algumas “tiradas”, sendo que noutras ocasiões optam por abanar a cabeça em sinal de desaprovação moral (embora apreciem bastante os trocadilhos “marotos” do humor mais popular presente nos “Batanetes” ou “Malucos do Riso”). No fundo, esta caracterização poderia simbolizar o possível choque de valores entre gerações no nosso país, porém a coexistência dos diversos “humores” a que assistimos, hoje em dia, é prova dada de que este é um exemplo de integração democrática e tolerante, digno de ser mencionado como modelo a adaptar para outras áreas…

Esta nova vaga humorística em Portugal não surge vinda do nada. Muito se deve à fase de reinvenção mediática do humor que nos foi trazida pela moda do “stand-up comedy”. Mesmo aqui se conseguem discernir diferenças entre o estilo de anedota de que é particular especialista Fernando Rocha e o estilo mais corrosivo, cínico e sedutor de Bruno Nogueira, Rui Unas, entre outros). Ora, numa altura de aparente decadência do “pai” do humor moderno português, Herman José, que à semelhança de Jô Soares, tem vindo ao longo da última década, a preferir o conforto dos sofás nos “talk-shows” do que a criatividade e agitação dos programas regulares de humor, o humor português trilha um caminho sorridente na companhia de novos valores, vindos de uma geração que cresceu a ver séries “Tal Canal”, “Duarte e Companhia”, “Herman Enciclopédia” e o não tão valorizado quanto merecia: “Contra-Informação”!

O espaço conquistado a pulso, com mérito, de projectos como “Portugalmente”, “Cabaret da Coxa” ou “Revolta dos Pasteis de Nata”, para além do já referido “Gato Fedorento”, provam que a inovação portuguesa não é brejeira, nem precisa de importar ao “kilo” séries estrangeiras de qualidade duvidosa (embora as séries de qualidade escolhidas “a dedo” sejam sempre bem-vindas). Sublinhe-se, para que equívocos não se gerem, que os “craques” desta área recusam a defesa “miserabilista” do seu trabalho, bem como a ideia do “orgulhosamente sós”, pelo contrário, assumem referências nacionais, que já abordei, mas também de outros projectos e personalidades internacionais. Há que reconhecer que ao nível dos centros de decisão desta área, neste caso os produtores do mercado televisivo, parece que se está finalmente a perder a vergonha de apostar nos jovens valores nacionais.

Por que não fazer o mesmo com outras jovens ideias inovadoras em diversas áreas do nosso país? Diz que é uma espécie de desafio…

domingo, 13 de maio de 2007

Psicologia sempre existiu: nos provérbios que quisermos

Os provérbios ou ditados populares sempre foram tidos como sinónimo de sabedoria, sendo muitas vezes utilizados para melhor explicar ou justificar a aplicação de uma ideia ou processo. Geralmente quem os utiliza lucra, pois todos lhe dão ouvidos e razão, como se quem os citasse estivesse a ler partes da Constituição! Porém, estas informais leis gerais tidas pela maioria de nós como universais, dependem, na verdade, muito do seu contexto e, acima de tudo, de cada cultura.

Ora, sucede que a moral presente nos provérbios e ditados populares é muito diferente de cultura para cultura, de sociedade para sociedade, mesmo de país para país, variando até ao longo do tempo e espaço da História! Basta comparar os ditados portugueses e espanhóis por exemplo. Por exemplo, os provérbios e ditados portugueses são, na sua globalidade, muito conformistas e resignados (“quem tudo quer, tudo perde”). Já os provérbios e ditados espanhóis são sempre empreendedores e orgulhosos (“mais vale ser a cauda do leão do que o nariz do rato”).

Outro ponto interessante diz respeito à tão famosa mitologia grega que, no fundo, não era mais do que um conjunto de lendas (histórias que se contavam sem garantia de veracidade dos factos) que criavam a moral do povo: as leis informais por que se deveria reger uma sociedade e a conduta dos seus elementos.

Sucede que todo o anterior conjunto de dados e conselhos faz pensar numa determinada ciência... a Psicologia! Trata-se de uma ciência humana relativamente recente. O seu “nascimento” científico data de 1879, quando o alemão Wundt criou, em Leipzig, o primeiro laboratório de Psicologia Experimental. Desde aí, até aos nossos dias, esta ciência desenvolveu-se, “amadureceu” com vários contributos e expandiu-se em várias áreas e correntes. A Psicologia está presente, de forma cultural e contextualizada, na moral desde sempre.
A base da Psicologia poderá ser encontrada nos provérbios e ditados populares, mas não ousemos duvidar da superior riqueza e abrangência destes. Provavelmente, somos obrigados a incluir no “pote” científico, para além da Psicologia, também a Antropologia e a Sociologia, pois há grandes diferenças de cultura para cultura, de sociedade para sociedade, mesmo de país para país, com variações ao longo do tempo e espaço da História.

Em suma, tudo poderá fazer parte de uma grande ciência que sempre existiu e apenas se passou a documentar e reproduzir, via ensino: o conhecimento acumulado, o senso comum, enfim, a experiência da(s) vida(s)! Outras expressões, palavras ou termos mais ou menos técnicos poderiam caracterizar estas “coisas”.

Enfim, segundo este ponto de vista, no que à Psicologia e à sua fatia de conhecimento diz respeito, poderíamos afirmar que esta, afinal, sempre existiu, apenas se racionalizou e modernizou, provavelmente, no último século.

Porém, dado que a moral (expressa nos provérbios e ditados populares) varia de cultura para cultura, ao basearmo-nos apenas nestes registos e tradições, teríamos meramente pequenas psicologias culturais, de diferentes nacionalidades espartilhadas e dispersas, provavelmente passando ao lado dos pontos transversais do Ser Humano... Enfim, a Psicologia não é só conhecimento de vida adquirido e acumulado também nos provérbios, ditados ou saberes populares: é também algo mais.


vascoespinhalotero@hotmail.com
(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional
Leia todos os artigos na Internet em: http://www.dosonhoaoprojecto.blogspot.com/

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Mudar ou mudar "devagarinho"?


Há tempos, ouvimos o nosso Ministro das Finanças afirmar, com confiança, acreditar que dentro de pouco tempo será concluída uma mudança cultural, já em evolução, no nosso país, no que diz respeito aos cumprimentos fiscais: o abandono do “chico espertismo” da fuga aos impostos para passar ao cumprimento geral da população com discriminação forte a quem não o faz!

Com medidas cada vez mais rigorosas (talvez na opinião de alguns falte o levantamento do sigilo bancário), este facto poderá mesmo em breve ser uma realidade, sendo que actualmente já conseguimos ver que algo está mesmo a alterar-se neste ponto vital do desenvolvimento nacional e as pessoas começam a acreditar que é mesmo possível! Atenção que com isto não quero comentar a actuação do Governo, mas sim citar apenas este exemplo em particular!

Porém, há bem pouco tempo atrás, este fabuloso exemplo seria tido como culturalmente impossível numa qualquer conversa de café. O que pensavam as pessoas na altura? Basicamente dividam-se em dois grupos. As mais resignadas diziam “neste país sempre foi assim, não dá para mudar”, confidenciando, com um sorriso nos lábios, que só se “abrissem a cabeça às pessoas”! Outras, supostamente pessoas mais interventivas, alegavam que as “mentalidades” tinham que mudar e que só se poderia fazer isso “devagarinho”...

Ora, se o primeiro conjunto de pessoas assumidamente nada fazia, o segundo conjunto confiava numa mudança gradual “milagrosa”, nada fazendo porém, esperando que viesse tudo do “céu aos trambolhões”! Ouviam-se risadas cúmplices e amargas de uns e viam-se olhares cabisbaixos e apreensivos de outros. Mas a conclusão nos dois grupos era a mesma: não é possível mudar, portanto, caso encerrado e tudo ficava na mesma!...

Porém, neste caso, por exemplo, as coisas estão mesmo a mudar, embora não devamos “por a carroça à frente dos bois”. Resumindo, esta era uma mudança consensualmente pedida, impossível para alguns, que supostamente necessitaria de alterações “milagrosas” de longo prazo de “mentalidades”, mas o que é certo é que aconteceu e mais rapidamente do que se estaria à espera! Mas como é que se conseguiu?

Sucedeu que um terceiro grupo de pessoas assumiu a necessidade imediata de mudança (que já era reclamada pela maioria das pessoas na sociedade portuguesa, se bem que de formas diferentes...), recolheu opiniões e sugestões de métodos e critérios consensuais e simplesmente actuou com confiança e legitimidade. Ou seja assumiu-se que era mesmo para mudar e não para se ir supostamente mudando “devagarinho” por causa das “mentalidades” (no fundo será mais receio das resistências...). Este é apenas um exemplo de como se pode mudar a sério, com sucesso e a curto prazo: com “garra”!

Mas atenção, não parecerá esta “garra” para mudar uma imposição ditatorial? Não, existe uma enorme diferença relativamente à mudança autoritária que se constitui na possibilidade de participação, de dar voz a quem quiser sugerir (e não só destruir), de recolher opiniões construtivas para criar consensos de forma organizada e regular. Enfim, ouvir e responsabilizar na mudança que é sugerida consensualmente. E isto basta? Não. Depois há que agir com confiança, mudar sem receio, pois a razão aí já está do nosso lado, o apoio das pessoas também e nesta fase não as podemos defraudar...

No que diz respeito ao envolvimento das pessoas há que ter em conta um pilar de base: existe a “maioria silenciosa” (que não participa, nem sugere ou se responsabiliza) e a “maioria silenciada” (que pretende ser parte activa da mudança e que encontra um, muitas vezes “burocrático” e “pouco ruidoso”, não!).

E quando se volta atrás num processo de mudança participado? A pessoas que participaram não voltam a participar juntando-se à “maioria silenciosa”. As pessoas que não participaram ficam orgulhosas de não o ter feito e ganham “estatuto” para dar o seu exemplo à “maioria silenciada”. Os lideres e suas equipas que propuseram e trabalharam na mudança tornam-se “reféns” de uma nova autoridade agora criada: a “maioria orgulhosamente silenciosa”! Esta nova maioria impedirá para sempre e com muito mais facilidade qualquer tentativa de mudança consensual e tudo ficará para sempre na mesma para desgosto da esmagadora maioria das pessoas!

É óbvio que resistências a qualquer mudança surgem sempre e são humanamente inevitáveis, até mesmo em pessoas que concordaram com ela. Mas podem até ser positivas se servirem de exemplo, sabendo lidar-se com elas (quer os casos negativos, quer os positivos). E como lidar com as resistências à mudança? Primeiro, nunca alterando decisões consensuais tomadas em função de casos individuais. Segundo, com uma postura aberta e humilde, dando exemplos positivos do que se vai conseguir no futuro, lembrando exemplos negativos do que não se conseguia no passado, explicar, ouvir, oferecer ajuda nesta fase de passagem, etc. Enfim, compreender a dificuldade e resistência, mas sem voltar atrás ou deixar tudo como estava!

Ao longo da nossa História, as mudanças respeitadas sempre se deram com este terceiro grupo a “puxar”, a arriscar, a explicar, a inovar com humildade para ouvir e garra para avançar! Basta pensarmos num bom exemplo de envolvimento e “mãos à obra” colectiva portuguesa. A população portuguesa foi, a nível europeu, das que mais rapidamente se habitou à mudança de moeda escudo – euro! Este facto só por si motivo de orgulho, leva-nos aos pícaros do nosso ego se recordarmos que infelizmente estamos na cauda da europa a nível de alfabetismo, índices de escolaridade e formação! Uma gigantesca mudanças de “mentalidades” que não precisou de ser feita supostamente “devagarinho”...

vascoespinhalotero@hotmail.com

Motivação custa pouco dinheiro


Há tempos, ouvi alguém dizer que as organizações de sucesso a nível regional, nacional ou internacional só “acontecem” com quem faça as coisas acontecer: pessoas talentosas nas suas áreas, dedicadas, capazes de resolver problemas e com capacidade de criar soluções.

Os produtos podem ser imitados, a tecnologia pode ser comprada, até o dinheiro pode ser emprestado... Ora, cada vez mais, a “diferença” no mundo das organizações faz-se com ideias e projectos de qualidade criados por…pessoas motivadas!

Parece simples e óbvio. Porém, muitos logo dirão, num juízo muito popular, que a motivação vem do salário e mais nada, tudo o resto é perda de dinheiro precioso para a organização. Outros acrescentarão que a motivação é uma obrigação, pois, se estes não servem há mais quem queira, na lei da selva do mercado liberal... Nada mais errado ou, pelo menos, mal informado.

Em primeiro lugar, quando uma organização perde um trabalhador eficiente perde tudo o que nele foi investido até então (formação, benefícios, apoios, etc). A perda é duplicada quando há necessidade de dar formação às pessoas que vieram substituir as que saíram e quanto mais alta for a posição hierárquica mais altos os custos...

Por outro lado, se analisarmos bem, concluiremos com realismo que as pessoas trabalham, entre outras coisas, também e muitas vezes, acima de tudo, por dinheiro, mas motivam-se e dedicam-se de “corpo e alma” a metas enaltecidas de valores, missão e o seu contributo para o todo.

Vejamos um exemplo quando as coisas correm bem. Quando, no dia-a-dia de trabalho, o trabalhador persegue o cumprimento ou superação de objectivos (anteriormente negociados em consenso com a sua chefia), não abandona situações/casos pendentes com clientes internos ou externos e apresenta propostas de melhoria / inovações (não apenas para um caso, mas para aspectos transversais) que julga terem boa probabilidade serem ouvidas e aprovadas.

E como surgem as condições para que os bons exemplos floresçam? Os bons ambientes de trabalho seja em equipa de trabalho, seja em toda uma organização não surgem do acaso. São, sim, criados de forma fundamentada e preparada seja em meio público ou privado. Deixem de lado factores como sorte, dinheiro, crise ou o clássico “muito trabalho a fazer que não se tem tempo para essas coisas” para justificar os maus ambientes de trabalho...

Há que sublinhar claramente que satisfação no trabalho não é sinónimo de boas práticas por decreto, requer atitudes partilhadas e discutidas em equipa, acções concretas e compromissos assumidos / cumpridos, sobretudo por parte das lideranças.

Enfim, organizacionalmente, a motivação não pode ser vista como despesa, pois, na verdade dos factos e dos números, é investimento e na esmagadora maioria das vezes custa pouco dinheiro. Precisa, sim, de visão estratégica de longo prazo e podem crer que tem retorno, muito retorno.Devo esclarecer que a minha opinião é baseada em literatura científica da área e na aplicação no terreno de práticas de motivação em organizações públicas e noutras privadas, algumas líderes de mercado e nestas últimas pensa-se em tudo, excepto em perder dinheiro!...

vascoespinhalotero@hotmail.com(*) Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional